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Atualizado às: 23 de abril, 2004 - 21h48 GMT (18h48 Brasília)
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Divisão marca o dia-a-dia na capital de Chipre

Nicósia, capital do Chipre
Jornada do norte ao sul da capital cipriota exige passaporte e tempo
Todos os dias, centenas de trabalhadores turco-cipriotas saem de casa no norte da capital de Chipre, Nicósia, levando seus passaportes. O destino são seus trabalhos em negócios grego-cipriotas, no sul da mesma cidade.

A jornada, muitas vezes, não leva mais do que vinte minutos. Mas, entre a partida e a chegada há uma “fronteira”, postos de checagem, soldados da ONU e até mesmo uma alfândega que verifica a quantidade de cigarros trazidos do norte, onde são mais baratos.

A chamada linha verde recebeu esse nome por ter sido desenhada atravessando o mapa da ilha de leste a oeste, com um lápis verde, por um oficial britânico. A linha foi criada em uma tentativa de separar as duas comunidades e evitar violência.

A linha passou a ter a função de fronteira real em 1974, com a invasão turca do norte do país, após uma tentativa de golpe do lado grego que foi apoiada pela Grécia.

Em abril de 2003, a linha foi aberta para que gregos e turco-cipriotas pudessem visitar o outro lado, muitas vezes pela primeira vez, e rever suas vilas de origem. Mas a linha continua dividindo dois povos, dois governos, duas línguas e duas moedas e, visitando norte e sul, é fácil ver as diferenças.

Falência

Com a invasão turca e o embargo econômico imposto pela comunidade internacional, as relações comerciais do norte ficaram restritas à Turquia e a economia entrou em colapso. O PIB (Produto Interno Bruto) no norte é três vezes menor do que no sul.

 O sul não precisa dos nossos cérebros, dos nossos médicos, advogados, engenheiros, porque a enorme maioria dos greco-cipriotas tem formação universitária.
Kufi Birinci, empresário do lado turco (norte) de Chipre

“Depois de 2000, quando a Turquia fez mudanças em seu sistema bancário e passou a não mais garantir as poupanças nos bancos turco-cipriotas, muitos bancos e empresas faliram e a economia piorou ainda mais”, afirmou o empresário Kufi Birinci, que mora no lado turco, no norte de Chipre.

Birinci era dono de uma série de empresas no setor de turismo, transporte naval e bancário e empregava cem pessoas. Hoje, tem apenas uma pequena agência de viagens com um funcionário.

A maioria dos turco-cipriotas que hoje tem empregos no sul trabalha na área da construção civil.

“O sul não precisa dos nossos cérebros, dos nossos médicos, advogados, engenheiros, porque a enorme maioria dos greco-cipriotas tem formação universitária ”, disse Birinci.

No lado greco-cipriota, o índice de desemprego é de apenas 3,2% (dado de 2002) e a existência de postos de trabalho atraiu cerca de 66 mil (8,3% da população) trabalhadores estrangeiros. Os imigrantes que se fixaram no sul vieram principalmente das Filipinas, Sri Lanka e Paquistão, e trabalham no setor doméstico e de serviços.

Turismo

O potencial do norte, dizem economistas, está em parte no setor do turismo, que já move a economia do sul.

Enquanto cerca de 2,5 milhões de turistas visitam o sul anualmente, no norte o número não chega a 5 mil. A região tem capacidade para atender poucos turistas, com cerca de 12 mil leitos no setor hoteleiro.

Talvez por isso, dizem alguns turco-cipriotas, a costa do norte tenha o atrativo de ser menos desenvolvida, mais intocada. O norte detém cerca de 70% dos recursos naturais da ilha.

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No sul, ao contrário, estão destinos famosos e desenvolvidos como Limassol, Paphos e o resort de Agia Nappa, chamado de a “nova Ibiza”, com uma vida noturna que ferve durante o verão.

Dificuldades práticas

Mas, mesmo tendo um nível de vida bastante superior, os cipriotas do sul também sentem a divisão no bolso, só que de forma menos dramática. Muitos perderam casas que possuíam no norte do país e hoje precisam pagar aluguel. É o caso de Lazaros Athanasiou, estudante de direito e gerente de bar que mora em Nicósia.

“A minha família possuía uma casa no norte e hoje precisa pagar aluguel aqui em Nicósia. É difícil comprar uma nova casa e nossa situação econômica poderia ser bem melhor se tivéssemos direito de usar a nossa propriedade”, afirmou.

A divisão afeta também o dia-a-dia em ambos os lados. Um telefone celular turco-cipriota não faz ligações para um celular greco-cipriota.

Muitas igrejas ortodoxas gregas ficam no norte, onde não moram mais gregos, e estão abandonadas. O mesmo acontece com algumas mesquitas no sul.

A lira turca, moeda usada no norte, não é aceita no sul. A libra cipriota, usada no sul, é aceita apenas em alguns locais na parte turco-cipriota de Nicósia.

Para enviar uma carta a um turco-cipriota no norte, é preciso colocar “Turquia” como país. Não importa de onde venha, a carta vai primeiro para a Turquia e de lá é mandada para Chipre. A operação às vezes leva semanas.

 A minha família possuía uma casa no norte e hoje precisa pagar aluguel aqui em Nicósia. É difícil comprar uma nova casa e nossa situação econômica poderia ser bem melhor se tivéssemos direito de usar a nossa propriedade.
Lazaros Athanasiou, estudante do lado grego (sul) de Chipre

A arquitetura da capital Nicósia é uma mostra das diferenças. O sul é repleto de belas casas, algumas mansões e até mesmo arranha-céus. É possível fazer compras em lojas de grifes internacionais. Há uma sensação de capital. No norte, as casas são mais simples, há menos trânsito e uma atmosfera de cidade de interior.

Mas talvez a visão mais impressionante seja mesmo a linha verde. De repente, as ruas acabam em postos militares ou barricadas. Nas proximidades, há várias casas vazias e abandonadas.

A turco-cipriota Gulden Plumer Küçük, empresaria e presidente da Associação Turco-Cipriota de Mulheres Universitárias - uma espécie de sociedade empresarial de mulheres -, conta uma história que mostra que, mesmo com boas intenções, ainda há muito o que fazer para acabar com a divisão.

“A presidente da Associação greco-cipriota de Mulheres de Negócios veio aqui ao norte apresentar para nós seu projeto de criação de um banco, em forma de cooperativa, para mulheres que queiram abrir seus próprios negócios”, disse.

“A idéia é ótima, nos gostaríamos de fazer a mesma coisa aqui, mas para criar um banco você precisa de uma moeda estável. Quando eu comecei a pensar no assunto conclui que, se nos abríssemos um banco para mulheres aqui no norte agora, ele com certeza iria à falência.”

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