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Chipre vai às urnas para decidir sobre reunificação | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A população de Chipre está indo às urnas neste sábado para decidir se a ilha deve ser reunificada, uma semana antes de sua entrada na União Européia, no dia 1º de maio. Os princípios para a reunificação de Chipre foram estabelecidos no chamado “Plano Annan”, escrito pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, após meses de negociações com líderes do norte, onde vivem os turco-cipriotas, e do sul, onde estão os greco-cipriotas. Para entrar em vigor, o plano precisa ser aprovado pela maioria das duas comunidades. Dos dois lados da capital dividida, Nicósia, as campanhas para o “sim” e “não” se intensificaram com a proximidade do referendo. Em todo o país, mas principalmente em Nicósia, uma série de manifestações foram realizadas até esta quinta-feira, além da existência de vários postos de distribuição de panfletos e adesivos com as palavras nai ou oxi (sim e não, em grego) e evet ou hayir (sim e não, em turco). O referendo é o assunto que domina a mídia, e mesmo sem falar grego ou turco, é possível captar a palavra “Annan” na maioria das conversas em bares e cafés. As campanhas pelo “não” contam com o apoio do presidente greco-cipriota, Tassos Papadopoulos, e também do líder turco-cipriota, Rauf Dentkash. Oxi Do lado grego, as últimas pesquisas de opinião, publicadas na semana passada, indicavam uma vitória do “não”, com cerca de 65 % das intenções de voto. Os que defendem o “não” dizem que não há garantias suficientes de segurança para os greco-cipriotas e de que a Turquia vai mesmo cumprir o que o plano estabelece. A ONU tentou aprovar uma resolução com garantias para o caso da aprovação do referendo, mas a proposta foi vetada pela Rússia. Uma das questões polêmicas do plano é o número de colonos turcos que poderão ficar no país e o número de refugiados gregos que poderão voltar para as casas onde moravam antes da invasão turca em 1974. “(A colonização representa) um crime contra a humanidade de acordo com a Convenção de Genebra, mas o plano propõe que grande parte deles (os colonos) poderá continuar em Chipre, sem a existência de um mecanismo que force a sua saída”, afirmou o advogado Simos Angelides, um dos coordenadores da campanha pelo “não”. Angelides conta que, caso o plano seja aprovado, sua família seria uma das que receberiam de volta sua propriedade, hoje ocupada por soldados turcos na bela cidade de Kyrenia, no extremo norte do país. “Mas ainda assim defendo o não.” Nai A história de casas deixadas pelas pessoas no norte do país, durante a invasão turca, é bastante comum em Chipre. A professora de Ciências Políticas e Resolução de Conflitos da Universidade de Chipre Maria Hadjiapavlou diz emocionada que seus pais morreram sem ver concretizado o desejo de retornar a sua casa, também em Kyrenia. Mas Hadjiapavlou discorda dos críticos do plano e confia nos critérios de escolha dos colonos que poderão ficar no país (os casados com cidadãos greco-cipriotas, por exemplo). Ela é fundadora do grupo “Mãos Através da Divisão”, que reúne mulheres das duas comunidades, e presidente do Centro para a Paz em Chipre. “Especialmente depois da abertura da linha verde, em abril do ano passado, as pessoas começaram a visitar suas casas do outro lado e o fato de que não tivemos nenhum incidente de violência é a melhor garantia de que a população, mais do que as lideranças, está prontas para viver junta”. Hayir Cruzando a linha verde rumo ao norte, os argumentos para o “sim” e para o “não” também passam pela segurança e pela presença turca na ilha.
“Nós estamos vivendo em paz neste país desde que o ex-primeiro-ministro turco, Bulent Ecevit, mandou suas tropas da Turquia para nos salvar em 1974”, disse o líder turco-cipriota Rauf Dentkash, após uma visita do próprio Bulent a Chipre, na terça-feira, para mostrar seu apoio à campanha pelo não. “Eu tenho confiança de que o meu povo não vai cometer o erro de dizer sim.” A jornalista aposentada Shule Suha, que mora na parte turca de Nicósia, é uma das pessoas que devem votar não no referendo de sábado e exatamente pelas razões defendidas por Dentkash. “Eu fui uma das primeiras refugiadas, em 58, e desde a minha infância me mudei de casa para casa por causa das brigas e da insegurança. Todos querem paz, mas eu quero primeiro segurança e você não imagina o quanto eu fiquei feliz quando os aviões turcos vieram com seus pára-quedistas em 74”, afirmou. Apesar da ilha ter sido dividida fisicamente apenas com a invasão turca, sempre houve tensão entre a maioria de origem grega (cerca de 80%) e a minoria turca (cerca de 11%) e a situação ficou violenta a partir de 1963, quando o então presidente, o bispo grego-ortodoxo Makarios, propôs mudanças constitucionais na divisão de poder. Evet Mas, de acordo com as últimas pesquisas de opinião no norte, também divulgadas na semana passada, 70% dos turco-cipriotas devem dizer sim ao plano de Kofi Annan. A economia desta parte da ilha sofreu duros golpes com a invasão e os embargos econômicos que vieram depois e não consegue se recuperar. Muitos turco-cipriotas vêem a entrada na União Européia como a única chance de recuperação econômica. Mas, como a “Republica Turca do Norte de Chipre” só é reconhecida pela Turquia, caso Chipre entre para a União Européia dividido, as leis e benefícios do bloco só serão aplicados no sul do país. O empresário Kufi Birinci não acredita que os efeitos da União Européia serão sentidos em curto prazo. Birinci perdeu boa parte de seus negócios em 2001, depois de mudanças no sistema bancário da Turquia que afetaram Chipre. Ele acredita que, apesar de ter defeitos, a grande vantagem do plano Annan é a retirada da maioria das tropas turcas do norte. “A única boa razão para nos dizermos sim para o plano é o fim da ocupação turca em Chipre e a volta da democracia e da Justiça, o fim da intervenção do Exercito turco em todos os aspectos da nossa vida diária, ate mesmo em problemas privados”, afirmou. A parte ocupada pela Turquia cobre cerca de 35% da ilha, localizada no Mar Mediterrâneo, em um ponto estratégico entre a Europa, Ásia e a África. |
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