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Análise: Michael Jackson e os tubarões
Críticos de mídia supostamente sérios criticam a falta de seriedade da mídia quando o assunto é Michael Jackson. Pronto, é mais uma prova da decadência da mídia, mais um sintoma do fim da civilização como a conhecemos essa obsessão em acompanhar as acusações de abuso sexual de crianças envolvendo o artista. Sim, a imprensa avança vorazmente como um tubarão para cobrir o que promete ser mais um julgamento do século – e deste que estamos apenas começando. Tubarão é uma boa metáfora, porque faz lembrar algo muito ilustrativo sobre a voracidade da mídia, com ou sem notícia. Flórida Semanas antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, parte da imprensa americana estava obcecada em cobrir uma suposta ameaça de tubarões na costa da Flórida. De repente, o assunto morreu. Com um perigo genuíno (o terror) não era preciso, pelo menos por uns tempos, inventar ou exagerar ameaças para vender jornal ou aumentar a audiência de televisão. E, então, Michael Jackson é notícia genuína ou tubarão? Depende para quem e em comparação a o quê. É verdade que, na semana passada, quando Michael Jackson apareceu algemado na delegacia para ser fichado, as televisões a cabo nos EUA estavam frenéticas, cobrindo cada lance minuto a minuto (perdão, segundo a segundo). Essas emissoras simplesmente esqueceram os atentados terroristas na Turquia por um par de horas. Mas não vamos exagerar. O noticiário das redes abertas foi circunspecto. Os veneráveis âncoras querem impedir o fim da civilização como a conhecemos. Para eles, os atentados na Turquia ainda mereciam ser o principal destaque. O mesmo valeu para jornais sóbrios como o The New York Times, que, no entanto, não resistiu a um editorial sobre o "espetáculo Michael Jackson". E será que as televisões a cabo estão exagerando? Claro que não. Nada de que se envergonhar. Michael Jackson é notícia espetacular, tubarão dos grandes. Se é para comparar, ele é maior do que O.J. Simpson (que até hoje era a mãe de todos os tubarões nessas histórias de celebridades em maus lençóis). Apesar de sua decadência artística, Michael Jackson é mega, é global. É curioso que televisões que cobrem (ou enrolam) noticiário 24 horas por dia e os tablóides nem deveriam justificar sua obsessão com Michael Jackson (ou o príncipe Charles), mas não vivemos mais na idade da inocência e, sim na era da hipocrisia. Em meio ao batalhão de advogados e psicólogos dando palpite sobre a saga Michael Jackson, as televisões a cabo não deixam de convocar os críticos de mídia para discutir se existe ou não um excesso de cobertura sobre o escândalo. É ou não é o fim da civilização ocidental estarmos aqui discutindo o excesso de Michael Jackson? |
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