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Análise: Bomba pela Culatra
Para assegurar seus interesses estratégicos no Oriente Médio, os Estados Unidos sempre precisaram de países aliados deitados no berço esplêndido do petróleo. Em um cenário ideal, o Iraque pós-Saddam Hussein passaria a ocupar o papel-chave exercido hoje pela Arábia Saudita para os interesses americanos. Mas enquanto este novo Iraque não cria raízes, os Estados Unidos precisam continuar a cultivar a erva daninha saudita. Por esta razão, o atentado do fim de semana em Riad, supostamente obra da rede Al-Qaeda, do saudita Osama Bin Laden, é extremamente preocupante para o governo Bush. O subsecretário de Estado, Richard Armitage, que se reuniu com as autoridades locais logo após o ataque suicida, foi fulminante na sua avaliação: "Está claro para mim que a rede Al-Qaeda quer derrubar a família real e o governo da Arábia Saudita". Casa de Saud Os negócios da conservadora casa de Saud, hoje administrados pelo príncipe Abdullah, estão sendo atingidos por todos os lados. Os ataques são os mais explosivos. Existem ainda a incipiente mobilização por mudanças e as pressões do próprio governo Bush por algumas tímidas reformas políticas e mais colaboração na chamada guerra contra o terror. Curiosamente a rede Al-Qaeda e setores ultraconservadores dos Estados Unidos estão unidos na aversão ao regime saudita, considerado corrupto e decadente. O governo Bush, é claro, não se pode dar ao luxo de aceitar a queda do regime. O atentado do fim de semana provou que os inimigos da Casa de Saud têm condições de destruir, apesar de seis meses de repressão implacável empreendida pelas autoridades locais, que resultaram em 600 prisões. Mais do que um desafio, a idéia parece ser tornar o país ingovernável, assim como no Iraque o propósito é impedir a pacificação administrada pelos ocupantes americanos. Resistência Nos últimos anos, um grande temor do regime saudita tem sido que millitantes fiéis à rede Al-Qaeda ou simplesmente simpáticos ao seu fanatismo passem a galvanizar a resistência antigovernamental. Com isto, uma ambiguidade em relação ao extremismo islâmico no exterior (que, em grande parte, floresceu quando fundamentalistas lutaram contra os soviéticos no Afeganistão com estímulo material e espiritual saudita) foi desaparecendo no coração do poder em Riad. Afinal, agora o extremismo combate não apenas os "infiéis" ocidentais como também o próprio regime que promove uma corrente ortodoxa do islamismo, mas está conspurcado por sua aliança com os americanos. A Arábia Saudita, que deu ao mundo Osama Bin Laden e 15 dos 19 terroristas suicidas dos ataques de 11 de setembro de 2001, é um típico caso do feitiço que virou contra o feiticeiro. Por extensão, o raciocínio vale para os americanos, que sempre patrocinaram o regime conservador e intolerante de Riad. O consolo para o regime saudita é que o ataque do fim de semana, que basicamente vitimou árabes e muçulmanos, parece ter minado apoio e simpatia para a Al-Qaeda dentro do país. Mais do que isto, o atentado gerou uma condenação sem precedentes no Oriente Médio e pode contribuir para neutralizar o apelo da rede de Osama Bin Laden como antiocidental e pró-islâmica. A Casa de Saud talvez tenha mais tempo de vida do que mereça. Poderia aproveitar a oportunidade para realizar reformas mais profundas. |
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