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Atualizado às: 25 de novembro, 2003 - 09h11 GMT (07h11 Brasília)
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Alfonsín se arrepende de não ter mudado capital da Argentina

Raúl Alfonsín, ex-presidente da Argentina
Alfonsín acha que Lula representa a 'esperança'

O ex-presidente da Argentina Raúl Alfonsín disse que se arrepende de não ter tido tempo para mudar a capital da Argentina de Buenos Aires para a Patagônia, em uma entrevista exclusiva à BBC Brasil.

Falando de seu apartamento em Buenos Aires, Alfonsín fez um balanço destas duas décadas de democracia no país, desde que foi eleito em 1983.

O ex-presidente argentino revelou que decidiu entregar seu mandato seis meses antes do fim, em julho de 1989, diante dos atos organizados de violência que, segundo ele, ameaçavam a democracia argentina.

Aos 76 anos, Raúl Alfonsín acaba de escrever um livro sobre "as coisas ruins que falam" de seu governo, que deverá se chamar Estátua de Sal. A seguir, a entrevista do ex-presidente à BBC Brasil:

BBC Brasil – Como o senhor analisa estes 20 anos de democracia, desde que foi eleito em outubro de 1983 e a poucos dias de completar 20 anos de sua posse, no dia 10 de dezembro?

Raúl Alfonsín – O mais importante é que conquistamos e mantivemos a liberdade. Cada governo fez sua parte, apesar de eu criticar alguns deles, como o neoliberalismo do ex-presidente Menem. Mas eu mesmo estou com a consciência tranqüila.

BBC Brasil – O que o senhor gostaria de ter feito, mas não teve tempo, durante sua gestão?

Alfonsín – Eu queria ter tido tempo de transferir a capital federal para Viedma, no sul da Argentina. Seria o mesmo que vocês fizeram no Brasil, levando a capital para Brasília. Acho que o país teria tido um rumo diferente. Por exemplo, atraindo mais investimentos e dando mais oportunidades ao interior do país. Seríamos mais patagônicos.

BBC Brasil – Por que o senhor não terminou seu mandato? Devido à hiperinflação?

Alfonsín – Acho que ocorreram várias coisas. A hiperinflação foi muito difícil. Eu já não podia administrar a economia e já estava definido quem seria o próximo presidente. Eu não tinha nenhuma dificuldade em entregar o mandato com antecedência. Além disso, os sindicatos, os partidos políticos, o presidente eleito e alguns setores empresariais me pediram para entregar o mandato antes do fim. Eu tentei fazer um acordo para tentar administrar a economia junto com os peronistas até o vencimento do meu mandato. Mas a resposta foi que eu deveria entregar o poder imediatamente. Além disso, foram realizados mais de 300 atos de violência e ocupação de supermercados. Todos – ou quase todos – muito organizados. Então, vi ali que havia um perigo para a democracia e que eu deveria atuar como me pediam. Mas depois falaram que eu tinha fugido do poder. É incrível, não?

BBC Brasil – O ex-presidente Fernando de la Rúa, que é do mesmo partido que o senhor, a UCR, também não terminou o mandato. É verdade o que dizem de que só o peronismo pode governar a Argentina?

Alfonsín – Não, não. Não acredito. Além disso, o peronismo está mostrando hoje fortes divisões. Já existe um setor de direita muito claro, que é o setor ligado ao ex-presidente Menem. E não é o mesmo pensamento de outros setores. Já nós somos de centro-esquerda.

BBC Brasil – Quando o senhor era presidente houve o processo às chamadas juntas militares. Na sua opinião, por que aqueles processos estão sendo reabertos agora?

Alfonsín – Essa é uma responsabilidade do presidente (Kirchner). Eu mandei uma carta a todos os parlamentares (do partido dele), dizendo que eles tinham liberdade para votar como quisessem, já que a situação mudou totalmente da minha época de presidente para agora. Só um louco poderia supor que eu estava em condições, quando era presidente, de convocar 2 mil militares para depor naquele momento. Eu vi que meu poder se diluía, e por isso tive que assinar a lei de obediência devida (perdão a militares). Muitos não cumpriam as ordens de ir ao tribunal e se refugiavam nos quartéis. Agora, é diferente. Existe a possibilidade de fazer isso. Mas também não se pode confundir a instituição militar com os que cometiam os crimes. Além disso, hoje não há possibilidade de golpe militar, de maneira alguma.

BBC Brasil – Não há mais....

Alfonsín – Não há mais perigo de golpes de Estado. De jeito nenhum. Mas as políticas neoliberais que existem hoje – do FMI e do Banco Mundial, por exemplo – que promovem mais e mais ajustes, elas sim colocam nossas democracias em perigo.

BBC Brasil – Como?

Alfonsín – Pode haver cada vez mais a presença da direita. Na minha época, praticamente me tiraram do poder cuspindo sangue, com a hiperinflação. E depois aplicaram a política neoliberal. Aonde é que chegamos com isso? É como se o povo estivesse anestesiado e aí acabasse aceitando qualquer outra coisa.

BBC Brasil – Como o senhor vê as administrações dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner?

Alfonsín – Para mim, sem dúvida nenhuma, Lula representa a esperança. Com Kirchner, na minha opinião, a única dificuldade é sua negativa em se reunir com os partidos políticos.

BBC Brasil – Por que esse fato o preocupa?

Alfonsín – O diálogo é indispensável. Política é diálogo. Eu acho que esse gesto dele agora faz parte de seus passos iniciais. Mas acho que não será, porém, uma política deliberada (de Kirchner) e com continuidade. É no que quero acreditar, pelo menos. Para mim, essa postura dele vai mudar depois do dia 10 de dezembro, quando teria iniciado seu mandato (caso o ex-presidente Fernando de la Rúa não tivesse renunciado em 2001).

BBC Brasil – Hoje a Argentina registra piquetes quase diários. A exclusão social aumentou no país…

Alfonsín – No meu governo, fizemos vários avanços sociais importantes. Era uma época em que o país tinha 7% de desemprego e mantínhamos um plano de alimentação complementar a 5 milhões de pessoas. E ainda promovemos planos de cultivo, higiene e outros, além da reforma universitária, permitindo o acesso de todos à universidade. O nosso governo foi o que mais nomeou professores e praticamente acabamos com a desistência dos alunos nas escolas. Eu acho que trabalhamos, mas logo depois veio o plano neoliberal e a conversibilidade, e aí liquidou-se com a indústria têxtil, e as pequenas e médias empresas e não podiam exportar nada.

BBC Brasil – Por que o Cone Sul mantém suas diferenças sociais, apesar dos tempos democráticos?

Alfonsín – Acho que, em toda a América Latina, não somos a parte mais pobre, mas a que tem a maior diferença social. Mas, nos Estados Unidos, também existem diferenças sociais. Para mim, o neoliberalismo nos levou a tudo isso, a uma globalização pouco solidária. Não podemos mais ser antiglobalização porque a globalização já é um fato. Agora é lutar para que ela não gere cada vez mais pobreza.

BBC Brasil – O senhor não acha que a situação no Chile acabou sendo diferente. Por quê? O modelo econômico do ex-presidente Augusto Pinochet....

Alfonsín – O Chile tem um povo diferente. Mas não tenho certeza se lá as diferenças sociais são tão menores que nos nossos países. O ex-presidente Eduardo Frei Montalva (1964-1970) fez uma reforma agrária interessante e depois Salvador Allende também. A medida deu resultados importantes, assim como também o bom sistema de saúde que implementaram. Eles preparam seu povo.

BBC Brasil – O senhor está terminando de escrever um livro…

Alfonsín – É. Provavelmente se chamará A Estátua de Sal. Ele vai reunir todas as coisas ruins que dizem que fiz quando fui presidente...

BBC Brasil – Por exemplo?

Alfonsín – A lei de obediência devida e o fato de eu ter me retirado antecipadamente do governo. Vai ser um livro polêmico, mas nele deixarei meus argumentos. Decidi escrever agora, 20 anos depois de ter sido eleito, para dar força aos que simpatizam com nosso partido ou àqueles que têm curiosidade sobre aqueles anos.

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