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Para general, democracia só será completa com punição de militares
"A democracia argentina só estará completa quando for sepultada a impunidade aos ditadores salvos pelas leis de anistia e quando a igualdade social for uma realidade." A afirmação foi feita à BBC Brasil pelo ex-chefe do Exército e general reformado Martín Balza, o único militar a criticar a ação dos governos militares. A presidente da entidade Avós da Praça de Mayo, Estela Carlotto, concorda que até que militares acusados de crimes durante a ditadura sejam levados à Justiça a Argentina não poderá ser considerada um país democrático. "Nunca vivemos um período constitucional tão longo, mas para mim ainda não chegamos à democracia”, afirma Estela, criadora de um banco de DNA que possibilitou a localização de 73 bebês seqüestrados pelos ditadores e entregues a outras famílias. Estela perdeu a filha na chamada "guerra suja", mas ainda busca o neto, Guido, hoje com mais de 20 anos. 'Núcleo de tortura' Para Martín Balza, que nos próximos dias assumirá o posto de embaixador da Argentina na Colômbia, existiu um "núcleo" de torturadores que atuava com o consentimento dos presidentes autoritários, como Jorge Rafael Videla. Esse "núcleo", segundo ele, acabou "manchando" a imagem de todas as Forças Armadas. Segundo Balza, para que a Argentina faça as pazes com o seu passado, os "verdadeiros responsáveis" precisam ser punidos pelos seus crimes. "Quando isso acontecer, a nação vai eliminar este sentimento de impunidade, as instituições estarão limpas e poderão voltar a ter credibilidade", disse Balza. Parte desse núcleo a que se refere Balza teria atuado na Escola Superior de Mecânica da Armada (Esma), que ficou conhecida como "centro de tortura" e foi apontada como maternidade clandestina, onde presas políticas grávidas tiveram seus filhos – depois seqüestrados. O juiz federal Sérgio Torres, responsável pelo caso contra a Esma, afirmou que investiga 300 militares acusados de atuar no local, mas que a causa ainda pode ser ampliada. O juiz, que também cuida do caso contra o ex-militar Alfredo Astiz, o "anjo louro" ou "anjo da morte" – concorda com a avaliação de Balza de que só haverá pacificação ma Argentina quando as investigações forem concluídas. Balza e Torres naturalmente apóiam a decisão do atual presidente Néstor Kirchner de revogar as leis de anistia assinadas pelos ex-presidentes Raul Alfonsín e Carlos Menem. "Algum dia, muitos destes militares, alvos da Justiça, acabarão revelando quem deu a ordem para aqueles crimes", afirma Balza. 'Reabrir o passado' Mas o ex-vice-presidente de Raul Alfonsín, Víctor Martínez, tem uma visão diferente. "Era preciso estar dentro do governo para saber que não havia outra alternativa", declarou Martínez, referindo-se às rebeliões militares que ocorreram durante a abertura democrática que se seguiu ao fim dos governos militares. "A Argentina caminhava para a pacificação quando decidiram, agora, reabrir questões que já considerávamos superadas." Já para Martín Balza, a necessidade de lidar com os crimes cometidos na ditadura argentina extrapola o próprio país. Ele lembra que, assim como o Uruguai e o Chile, os governos militares argentinos tiveram participação "decisiva" na chamada "Operação Condor" – a rede internacional formada pelos governos nos anos 70 para localizar a resistência às ditaduras na região. |
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