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Análise: Blair quer pressionar Bush por nova estratégia no Iraque
O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, pretende pressionar o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, a desenvolver um plano mais forte politicamente para o Iraque, a ser adotado junto com as novas e mais duras medidas de segurança já em ação. Um dos elementos-chave está sendo chamado de "estratégia sunita", sob a qual o grupo de muçulmanos sunitas do Iraque, tradicionalmente aliado a Saddam Hussein, poderia ser incluído. Representantes do governo britânico acreditam que, sem eles, o plano para a transição de poder até o fim de junho do ano que vem pode fracassar. As informações foram reveladas por Jeremy Greenstock, o representante britânico no Iraque. Estratégia sunita Segundo Greenstock, o plano inclui tentar convencer os sunitas que eles terão voz forte em um novo Iraque. Para isso, a idéia é realizar mais obras e criar mais empregos nas regiões habitadas por eles. Greenstock disse que "a visão britânica é de que é preciso tratar o problema de forma inclusiva para mudar a situação. A defesa tem que ir além da força militar e chegar ao alcance político." Jeremy Greenstock se recusou a criticar a política americana para o Iraque, mas comentou: "Os britânicos talvez sejam práticos e pessimistas. Nós podemos ver os problemas à frente. Nós já estivemos no Iraque, e temos experiência de rebeliões da Malásia até o Quênia, passando pela Irlanda do Norte." Altos funcionários britânicos disseram que os americanos "nunca estiveram no negócio puro e simples de missões de paz". A esperança é de que, se tudo for bem, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha vão voltar ao Conselho de Segurança da ONU no futuro para conseguir o apoio às novas propostas. O possível impacto de Blair sobre Bush durante a semana em que o presidente americano visita Londres também vai ser um teste para sua política de "aproximação" com os Estados Unidos. Acesso britânico Segundo Greenstock, Blair vai receber pelo menos uma importante concessão de Bush.
As empresas britânicas vão receber igual acesso aos futuros contratos de reconstrução do Iraque. "Finalmente, eles notaram que também somos membros da coalizão", disse um funcionário do governo britânico. A primeira visita de Estado de um presidente americano à Grã-Bretanha desde 1919 acontece em um momento complicado. O governo britânico afirma que o convite foi feito na primeira metade do ano passado e, portanto, não foi uma antecipação prematura de um triunfo no Iraque. Mas as coisas não vão tão bem quanto se esperava no Iraque, e tanto Blair como Bush devem enfrentar uma semana difícil. Os dois líderes tentaram minimizar os protestos anunciando um prazo para a transferência de poder no Iraque, mas as tropas americanas e britânicas vão permanecer no país, ajudando o governo de transição. Questões-chave Há algumas outras questões que podem mostrar se Bush vê Blair como uma influência, ou apenas como um seguidor. Guantánamo - Dois dos nove prisioneiros britânicos detidos na base militar em Cuba estavam em uma lista de seis nomes para serem julgados por tribunais militares. Os casos foram suspensos depois de protestos britânicos. O presidente Bush disse que quer que Blair se sinta "confortável" com os arranjos, mas ainda fala em processar os dois. A questão vai ser um teste para Blair. Aço - Os Estados Unidos acabam de perder uma ação na Organização Mundial do Comércio (OMC) referente às sobretaxas de importação ao aço, impostas por Bush em março do ano passado. Se os Estados Unidos não suspenderem essas tarifas até o mês que vem, a União Européia e outros países vão ter o direito de impor sanções aos produtos americanos no valor de mais de US$ 3 bilhões. Os produtos poderiam incluir as frutas da Flórida, um Estado crucial nas eleições presidenciais do ano que vem. Plano de paz para o Oriente Médio - Blair conseguiu que Bush lançasse uma proposta de paz para a região em troca de seu apoio à guerra no Iraque. Ele argumentou que Washington precisa se envolver na busca de uma solução para a crise regional entre israelenses e palestinos. Desde então, o plano vem sendo atropelado pelos acontecimentos e parece ter sido deixado de lado. A Rússia quer que o plano seja endossado pelo Conselho de Segurança. Como o presidente Bush pode retomar o processo de paz? Política de Blair A chave para entender a atitude de Blair, segundo representantes do Ministério de Relações Exteriores britânico, é o discurso que ele fez sobre política externa no último dia 10. Na ocasião, Blair falou que a política britânica é sustentada por dois pilares - as relações com os Estados Unidos e com a União Européia. A Grã-Bretanha e o resto da Europa têm que incluir os Estados Unidos, e não tentar isolá-lo, ou ir contra o país, disse ele. "Se a Europa deixasse o anti-americanismo definir sua política externa, seria um desastre", disse Blair, declarando desafiador que acredita que "este é o momento mais apropriado para que Bush venha". Pasta de dentes
Outra chave para entender por que Blair rejeita as críticas à visita remete a fevereiro de 2001. Na ocasião, em meio à neve das montanhas ao norte de Washington, Tony Blair se reuniu com George W. Bush na residência presidencial de Camp David, pouco depois de Bush ter assumido a presidência. Para surpresa dos jornalistas, acostumados a fazer reportagens dos encontros de Blair com o antecessor de Bush, Bill Clinton, o primeiro-minsitro britânico, de jeans e mangas de camisa, claramente havia estabelecido uma relação com o novo presidente republicano. Os dois até brincaram que ambos usavam pasta de dentes Colgate. Ninguém mencionou, na época, que este é um produto americano. Na ocasião, altos funcionários britânicos contaram aos jornalistas que Blair havia se dado bem com Bush e via o novo presidente americano como um líder de visão clara. Bush parece ter uma visão de mundo parecida com a do próprio Blair. É uma visão que acredita em tomar decisões duras, como foi visto pela primeira vez quando Blair pressionou pelo uso de tropas terrestres em Kosovo, contra a vontade do presidente Clinton. Isso foi visto de novo no Iraque. A admiração de Blair por Bush, aparentemente, sobrevive. |
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