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Atualizado às: 16 de novembro, 2003 - 11h05 GMT (09h05 Brasília)
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'Eu também não gosto de guerra', diz o presidente Bush
O presidente americano, George W. Bush
Bush chega a Londres nesta quarta-feira

O presidente americano George W. Bush chega nesta quarta-feira a Londres para uma visita oficial de três dias, na qual estão incluídos encontros com o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, seu aliado, e com a rainha Elizabeth.

Pressionado por causa das mortes de soldados americanos no Iraque depois de ter declarado que a guerra estava encerrada em maio, Bush vai conversar com Blair sobre transição de poder para os iraquianos.

Nesta entrevista exclusiva ao programa Breakfast with Frost, da BBC, o presidente americano repete com freqüência as palavras democracia e liberdade.

Bush afirma não temer ser recebido em Londres com protestos de manifestantes anti-guerra.

BBC - O que o senhor espera que saia desta visita?

George W. Bush - Eu tenho algumas questões para resolver com Tony Blair. Nós temos muitas coisas para discutir. Vamos falar sobre como continuar a espalhar liberdade e paz, vamos falar sobre como desenvolver uma agenda para a Aids, por exemplo. Vamos passar algum tempo conversando sobre isso. Eu valorizo os conselhos dele. Toda vez que eu o visito, seja pelo telefone ou por videoconferência, seja pessoalmente, eu saio com…você sabe, ele tem idéias interessantes de como fazer uma agenda positiva avançar.

BBC - Tony Blair provavelmente já lhe disse que ele espera haver um número bastante grande de pessoas protestando contra a sua visita por causa da Guerra no Iraque. Que mensagem o senhor daria a essas pessoas?

Bush - Bem, eu diria primeiro: a liberdade é uma coisa bonita. Vocês não têm sorte de estar em um país que estimula as pessoas a expressarem o que pensam? E eu aprecio ir a um país onde as pessoas são livres para dizer o que quiserem.

O presidente americano não será bem recebido por todos em Londres
O presidente americano não será bem recebido por todos em Londres

BBC – Qual é a razão de o senhor e o primeiro-ministro Tony Blair trabalharem tão bem juntos? Tem a ver com o fato de os dois serem homens muito religiosos?

Bush - Acho que sim. Tony é um homem de muita fé. A chave para o meu relacionamento com Tony é que ele diz a verdade, ele diz a você o que pensa. E quando ele diz que vai fazer alguma coisa, ele vai fazer. Portanto eu confio nele. Eu já o vi, sob circunstâncias muito difíceis, permanecer forte e eu aprecio isso em uma pessoa.

A outra coisa que eu admiro em Tony é que ele tem uma visão para além do momento; em outras palavras, ele pode enxergar um mundo que é pacífico. E ele concorda comigo que a disseminação da democracia e da liberdade em partes do mundo onde há violência e ódio vai ajudar a mudar o mundo, que há reformistas no Oriente Médio que anseiam pela democracia, por viver em um mundo livre. E Tony Blair, como eu, rejeita esse ponto de vista elitista de que apenas um tipo de pessoa pode se adaptar aos hábitos da liberdade e da democracia e ele sabe que a liberdade no Oriente Médio vai ajudar a mudar o mundo de uma forma dramática.

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e o presidente americano, George W. Bush
Blair e Bush: aliados

BBC - Quando o senhor olha para o mundo, no momento, e vê manifestantes na Austrália e em outros lugares, e vê o resultado de uma pesquisa feita pela União Européia que mostra que os Estados Unidos estão em segundo entre os países mais perigosos do mundo em relação à guerra, junto com Coréia do Norte e Irã. Quando o senhor vê coisas como essas, o senhor acha que o mundo está fora de compasso com os Estados Unidos ou que os Estados Unidos estão fora de compasso com o mundo?

Bush - (Rindo) Bem, em primeiro lugar, você tem que saber que eu não presto atenção a pesquisas. Eu tenho um trabalho a fazer pelo povo americano. É um trabalho que mudou em 11 de setembro de 2001 e eu nunca vou me esquecer da lição do que aconteceu a este país.

E há terroristas que querem matar inocentes para criar medo e caos. Há terroristas que querem que o mundo livre deixe seus deveres para que eles possam impor regimes do tipo Taleban e escravizar pessoas. Há pessoas como Saddam Hussein, que torturaram e aleijaram e mataram, e ao mesmo tempo ameaçaram e criaram condições de instabilidade. E eu sei que há pessoas que não entendem a necessidade de combatermos isso, mas eu sinto firmemente que devemos combater esses problemas.

BBC - Mas o senhor precisa convencer as pessoas no resto do mundo, não acha?

Bush - Bem, nós convencemos. Nós fizemos um trabalho muito bom convencendo-os na ONU. Afinal, lembre-se que (a resolução) 1441 foi um voto unânime depois de uma década enviando mensagens a Saddam Hussein para que ele se desarmasse. (A resolução) 1441 dizia "desarme-se ou haverá sérias conseqüências"; em outras palavras, o mundo, pelo menos no Conselho de Segurança, esteve unido e mandou um sinal claro.

Obviamente não houve acordo quanto à definição de sérias conseqüências, mas eu posso garantir que não seriam mais resoluções ou debates. E eu sei que muitas pessoas não concordam com essa posição, mas apesar disso estou convencido de que a decisão que tomamos - e há muitos países que tomaram a decisão junto conosco - vai tornar o mundo mais pacífico e mais livre.

BBC - E o senhor nunca será capaz de perdoar (o presidente francês) Jacques Chirac e (o chanceler alemão) Gerhard Schroeder por suas ações na época da segunda resolução?

Bush - Claro. Eu posso entender porque as pessoas expressam sua discordância com a política. Entendo que nem todo mundo vai concordar com as decisões que eu tomo ou que outros tomam. Mas eu me encontrei com Gerhard Schroeder e Jacques Chirac desde então. Foram encontros cordiais. Nós não temos que concordar em tudo, mas uma Europa que trabalha próxima à América e uma Ámérica que trabalha próxima à Europa significa que o mundo estará melhor.

 Entendo que nem todo mundo vai concordar com as decisões que eu tomo.

Goerge W. Bush

BBC - A diferença entre Tony Blair e eles é que Tony Blair vê a Europa como parceira dos Estados Unidos, e eles, talvez, vejam a Europa como rival dos Estados Unidos.

Bush - Para começar, não acho que a Alemanha tenha esta visão. Quero dizer, minhas conversas com Gerhard Schroeder nunca produziram esta impressão. Acho que a Alemanha entende que é importante que as relações bilaterais entre a América e a Alemanha sejam fortes. É do interesse da paz que elas sejam fortes.

Entendo que exista essa noção de multipolaridade, o que significa que, de alguma forma, os valores da América precisam ser contrabalançados. Mas nós somos a favor da paz, a favor da liberdade. Esse país está liderando o mundo quando se trata de lutar contra a Aids, e eu posso assegurar que, depois de ter estudado muito o assunto, eu entendo a pandemia de Aids na África. Nós vamos estar melhores, as pessoas na África vão estar melhores se a Europa e os Estados Unidos trabalharem juntos para lutar contra a pandemia. Há muito o que fazer trabalhando juntos.

BBC – E quanto à – eu suponho que você tenha suspeitas em relação a isso - proposta de criação de um exército europeu, o perigo que isto possa representar uma ameaça à Otan?

Bush - Sim, aí está. Em primeiro lugar, acredito que a Força de Defesa Européia deve assumir mais responsabilidade nas missões que a Otan rejeitar. Acredito que seja bom para os interesses norte-americanos. Creio que seja bom para os interesses da Otan, desde que essa Força de Defesa não prejudique a vitalidade da Otan. E Tony Blair me diz que as discussões que ele vem tendo com outros países europeus não prejudicarão a Otan, e eu acredito na palavra dele. Você sabe, ele vem sendo um homem fiel à sua palavra em vários assuntos, e eu acredito que ele se manterá assim, nesta questão.

BBC - Agora, me diga – em termos de Iraque, me fale sobre as armas de destruição em massa. O fato de que não as encontramos vem sendo muito discutido, mas o senhor acredita ter sido uma vítima, de certa forma, de uma falha dos serviços de informação?

Bush - De maneira nenhuma.

BBC - Não?

Bush - Não, de maneira nenhuma. Eu acho que nossos serviços de inteligência eram, e sei que os britânicos eram bons. São os mesmo serviços que fazem os EUA passarem resolução após resolução. A mesma inteligência usada pelo meu antecessor para bombardear o Iraque. Tenho muita confiança de que temos um bom serviço de informações. E não apenas isto. David Kay, que liderou os esforços para encontrar armas, voltou com um relatório que claramente declarava que Saddam Hussein estava em falta em relação à resolução 1441. Em outras palavras, se os inspetores tivesse encontrado o que Kay encontrou, eles teriam reportado que ele (Saddam) estava em falta, violando exatamente o que os EUA esperavam que ele não fizesse.

Nós encontraremos, você sabe, nós chegaremos à verdade, mas este cara por tantos anos vem escondendo armas. Ele tem programas de uso duplo, que podem ter sido apressados. Ninguém poderia dizer que Saddam Hussein não era um perigo. Quero dizer, não apenas um perigo para o mundo livre. Eu afirmo isto e é o que o mundo diz. O mundo disse isso consistentemente.

BBC - Mas ele realmente...

Bush - E ele é um perigo para seu próprio povo também. Lembre-se, descobrimos covas coletivas com centenas de milhares de homens e mulheres e crianças, com seus brinquedinhos, resultado da brutalidade deste homem. Continue, desculpe.

BBC - O senhor sentiu que se isto não foi um erro dos serviços de informações, que houve um certo exagero no que foi previsto? Quero dizer, o senhor sempre acreditou naquilo de ele ter armas de destruição em massa que poderiam ser disparadas em 45 minutos, ou o senhor nunca acreditou nisto?

Bush - Eu acreditei que ele era um homem perigoso.

BBC - Mas o senhor acreditou nisso?

Bush - Bem, eu acredito em um monte de coisas, mas eu sei que ele era um homem perigoso e que, em nome da segurança, era necesário lidar com ele. E eu repito isso porque é um ponto importante que as pessoas no seu país precisam lembrar, é que o mundo havia falado – universalmente falado – sobre os perigos deste homem por 12 anos. E para que, uma organização internacional seja válida e efetiva, algo tem que acontecer além de resoluções. E quando uma organização diz que se você não se desarmar, em outras palavras, serviços secretos convenceram várias nações, inclusive a França que ele tinha armas; em outras palavras, ele tinha que desarmar algo. Acabar com seus programas. Se você não faz isso, vai haver sérias conseqüências.

E a questão fundamental é: qual é a séria consequência? Não é outra resolução. Não mais um debate vazio. A conseqüência séria, neste caso, era remover Saddam Hussein para que esses programas de armas não fossem ativados. E David Kay encontrou provas de programas. Ele encontrou algumas armas biológicas, provas de armas biológicas. E isso não levou muito tempo...

BBC - Não, mas nós precisamos da grande descoberta, não é?

Bush - Isso que eu falei agora já é bastante grande. Por muito tempo, pensou-se que ele não tinha um programa de armas nucleares, mas, depois de 1991, o mundo teve que mudar essa atitude e admitir que o programa estava muito avançado. Uma arma nuclear nas mãos de alguém como Saddam Hussein, especialmente depois das lições do 11 de setembro, seria um acontecimento terrível. Nós tínhamos que dar um jeito nele e nós fizemos isso com compaixão. Nós poupamos vidas inocentes, tivemos os culpados como alvo, fizemos isso rapidamente e muito pouco do Iraque foi tocado ao derrubarmos Saddam Hussein.

 Uma arma nuclear nas mãos de alguém como Saddam Hussein, especialmente depois das lições do 11 de setembro, seria um acontecimento terrível.

George W. Bush

BBC - As pessoas disseram que o mesmo planejamento cuidadoso que foi feito para ganhar a guerra não foi feito para ganhar a paz. Vieram os terroristas e todo o mais. É um comentário justo?

Bush - Não (Rindo). Não é um comentário justo. Se você pudesse voltar atrás e pensar em todas as histórias ou especulações que estavam acontecendo antes de nós irmos para o Iraque: que os preços do petróleo disparariam, que os poços de petróleo seriam destruídos. Nada disso aconteceu. Na verdade, a produção de petróleo aumentou até 2,2 milhões de barris por dia, para benefício dos iraquianos. Uma série de contingências para as quais nos preparamos não aconteceram.

BBC - Há praticamente uma guerra de guerrilha lá agora.

Bush - Você pode chamar isso de uma tentativa desesperada - de pessoas que estavam no governo por meios tirânicos - de ter o poder de volta. Agora, há alguns estrangeiros, mujahedins da Al-Qaeda. Eles têm uma missão diferente: eles querem instalar um governo do tipo Taleban no Iraque, ou se vingar por terem sido varridos do Afeganistão. Nós vamos usar o serviço de informações iraquiano e forças de segurança iraquianas para caçar esses assassinos e levá-los à Justiça antes que eles matem pessoas inocentes.

BBC - Vocês disseram que vão ficar lá pelo tempo que for necessário. Tony Blair, em seus discurso de segunda-feira, disse: "Nós não vamos recuar um centímetro". Vocês vão ficar lá pelo tempo que for necessário para produzir uma democracia bem sucedida, não é?

Bush - Sim, exatamente.

BBC - Mesmo que seja por anos e anos?

Bush - Não acho que serão anos e anos, porque, em primeiro lugar, nós achamos que os iraquianos são plenamente capazes de governar seu próprio país. E hoje mesmo eu tive uma reunião com nosso embaixador em Bagdá para tratar de maneiras de assegurar aos iraquianos que nós temos confiança em sua capacidade. Eu e Tony Blair acreditamos que vai haver democracia no Iraque e nós acreditamos que um Iraque livre e democrático vai mudar o Oriente Médio. Há centenas de reformistas desesperados por liberdade. Liberdade não é um presente da América ou da Grã-Bretanha para o mundo. Liberdade é um presente do Todo Poderoso para todos os que vivem no mundo.

BBC - Existe alguma possibilidade de que Saddam Hussein esteja por trás de toda essa violência?

Bush - Saddam Hussein é um homem violento. Ele torturou e aleijou e matou. Ele tinha salas de estupro, e pessoa desapareceram porque eram contra ele. Nós descobrimos covas coletivas. Ele é um tirano brutal. Nós fizemos ao povo iraquiano o grande favor de derrubá-lo. Eu não ficaria surpreso de saber que qualquer tipo de violência está sendo promovido por ele. Mas não sei, não sei. Tudo o que sei é que estamos atrás dele.

 Nós fizemos ao povo iraquiano o grande favor de derrubá-lo.

George W. Bush

BBC - Quem sabe o quanto você é passional sobre essa guerra contra o terror disse: "Eu conheço George Bush e eu acho, em termos de legado, que ele prefere ser derrotado nas urnas do que por terroristas". Isso é verdade?

Bush - (Rindo) Prefiro não ser derrotado por nenhum deles. E nós não vamos ser derrotados pelos terroristas. E eu digo isso com confiança, porque os aliados na guerra contra o terror são fortes e leais. E não há aliado mais forte e leal do que Tony Blair. Ele conhece o perigo. Ele sabe que a liberdade está sendo desafiada. Ele sabe que a liberdade e a democracia, a longo prazo, vão derrotar o terror.

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