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Atualizado às: 18 de outubro, 2003 - 12h46 GMT (09h46 Brasília)
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Novo presidente boliviano, Carlos Mesa, pede união nacional

Carlos Mesa, já como presidente empossado
Mesa prometeu combater a corrupção

O novo presidente da Bolívia, Carlos Mesa, pediu a união nacional, horas depois que seu predecessor, Gonzalo Sánchez de Lozada, foi pressionado a renunciar.

O ex-presidente chegou neste sábado a Miami, acompanhado da família e de simpatizantes políticos.

O Departamento de Estado americano elogiou o que chamou de "comprometimento com a democracia" e disse lamentar as circunstâncias que levaram à renúncia de Lozada.

Na capital administrativa boliviana, La Paz, os manifestantes saíram às ruas para comemorar, cantando o hino nacional.

Referendo e eleições

Carlos Mesa, que era vice de Lozada, assumiu oficialmente o cargo de presidente por volta das 22h30 (23h30 em Brasília) da sexta-feira.

Muito aplaudido pelos parlamentares em seu primeiro discurso no Congresso como presidente da República, Mesa prometeu combater a corrupção, convocar eleições presidenciais e uma Assembléia Constituinte.

Ele disse ainda que vai realizar um referendo sobre a venda de gás natural – uma das gotas d'água da onda de protestos que assolou o país nas últimas semanas, que provocaram várias mortes e culminaram com a queda de Lozada.

"Vamos discutir que país queremos e quais são as regras do jogo sob as quais este país vai funcionar", disse Mesa, pedindo que os mortos nos conflitos sejam lembrados.

Mesa disse que a Constituinte vai deliberar sobre os "recursos naturais, o tema da terra, a concepção da participação democrática cidadã e sobre a estrutura de funcionamento do mecanismo de apresentação sobre o conjunto dos temas".

O presidente também disse que vai convocar eleições em um período "razoável".

"Eu entendo que a minha obrigação hoje é presidir um governo de transição histórica. Deixo planteada esta proposta para que possamos estudar com serenidade o espaço e o tempo de desenvolvimento desta gestão", afirmou.

Protestos em La Paz
Protestos em todo o país levaram a várias mortes

"Quero propor a consideração de um tempo que nos permita convocar eleições transparentes, acreditáveis e efetivas para consagrar um novo presidente num tempo que se traduza como razoável."

Mesa disse que a exportação de gás natural, considerada um dos estopins da última onda de protestos, será decidida pelo povo.

"O tema do gás não pode ser respondido hoje sem a participação do conjunto dos bolivianos", disse.

"O que decidirmos em torno dessa riqueza natural será decisivo para o nosso desenvolvimento interno e para o nosso relacionamento com o mundo."

Na votação da Câmara sobre o pedido de renúncia de Sánchez de Lozada, 84 deputados disseram sim à renúncia e 26, não. No Senado, 13 senadores disseram sim e quatro, não. Ou seja: 97 congressistas foram a favor e 30, contra.

Em sua carta, Sánchez de Lozada se mostrou magoado por ter sido praticamente forçado a entregar o cargo.

"Espero que a minha renúncia ajude o país a sair dessa crise", escreveu o ex-presidente, descrevendo a sua saída como um "precedente funesto para a democracia boliviana e sul-americana".

Críticas

Tanques foram levados para proteger palácio presidencial
Tanques foram levados para proteger presidente

Em sua carta de renúncia, Sánchez de Lozada também fez duras críticas aos movimentos de oposição que forçaram a sua saída.

"É meu dever advertir que os perigos que pairam sobre o país continuam intactos: a desintegração nacional, o autoritarismo corporativista e sindical e a violência fratricida."

O ex-presidente acusou ainda esses grupos de não acreditar na democracia e utilizá-la segundo a sua conveniência.

O ministério da Informação boliviano afirmou que o presidente já chegou à cidade de Santa Cruz de la Sierra com a sua família, depois de ter deixado a sua carta de renúncia para ser sancionada pelo Congresso.

Em nota do Itamaraty, o governo brasileiro destaca um "firme compromisso" com a manutenção da paz e da democracia na América do Sul, além de reiterar a disposição de colaborar com a Bolívia.

Pressão

Sánchez de Lozada não suportou a pressão dos protestos contra o seu governo e renunciou ao seu mandato faltando três anos para o seu fim.

"Espera-se que a decisão colabore para a paz", disse, de La Paz, o embaixador brasileiro Antonino Mena Gonçalves à Agência Brasil.

Mena Gonçalves esteve reunido com o assessor diplomático Marco Aurélio Garcia, que foi enviado especialmente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para buscar uma solução pacífica para o conflito que deixou mais de 70 mortos.

A Agência Brasil disse ainda que os representantes brasileiros participaram de várias reuniões com o ex-presidente e com o seu vice na sexta-feira, tentando chegar a um consenso.

"Nesses encontros ficou mais ou menos claro que alguma coisa terá de ser feita politicamente. Talvez uma Assembléia Constituinte ou a convocação de novas eleições", disse Mena Gonçalves.

Mudanças

"Ainda é muito cedo para se ter uma noção mais clara da situação. Tudo está se desenrolando muito rapidamente", completou o embaixador.

As ruas próximas à sede do Congresso boliviano estão fortemente vigiadas para evitar que ocorra qualquer tipo de incidente.

A exigência dos manifestantes de que Sánchez de Lozada renunciasse foi expressada depois que o presidente propôs a realização de um referendo consultivo para decidir como seria feita a exportação de gás natural, a inclusão da Constituinte no sistema legal vigente e a revisão da lei de petróleo e gás.

Os líderes da oposição se disseram contrários a proposta governamental. Eles disseram que ela chegou muito tarde, depois das mortes de mais de 70 pessoas e mais de 400 feridos.

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