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Atualizado às: 18 de outubro, 2003 - 01h35 GMT (22h35 Brasília)
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Carlos Mesa é o novo presidente da Bolívia

Carlos Mesa Gisbert
Mesa prometeu combater a corrupção

Carlos Mesa Gisbert é o novo presidente da Bolívia. O ex-vice do país assumiu oficialmente, por volta das 22h30 (23h30, em Brasília) de sexta-feira, o cargo deixado por Gonzalo Sánchez de Lozada .

Muito aplaudido pelos parlamentares em seu primeiro discurso no Congresso como presidente da República, Mesa prometeu combater a corrupção e realizar um referendo sobre a venda de gás natural – uma das gotas d'água dos protestos –, eleições presidenciais e uma assembléia Constituinte.

"Vamos discutir que país queremos e quais são as regras do jogo sob as quais este país vai funcionar", disse Mesa, pedindo que os mortos nos conflitos sejam lembrados.

Mesa disse que a Constituinte vai deliberar sobre os "recursos naturais, o tema da terra, a concepção da participação democrática cidadã e sobre a estrutura de funcionamento do mecanismo de apresentação sobre o conjunto dos temas".

O presidente também disse que vai convocar eleições em um período "razoável".

"Eu entendo que a minha obrigação hoje é presidir um governo de transição histórica. Deixo planteada esta proposta para que possamos estudar com serenidade o espaço e o tempo de desenvolvimento desta gestão", afirmou.

"Quero propor a consideração de um tempo que nos permita convocar eleições transparentes, acreditáveis e efetivas para consagrar um novo presidente num tempo que se traduza como razoável."

Festa nas ruas

A renúncia de Sánchez de Lozada, aprovada pelo Congresso em plenária, provocou comemorações nas ruas de La Paz, muitos chegaram a soltar fogos de artifício.

Mesa disse que a exportação de gás natural, considerada um dos estopins da última onda de protestos, será decidida pelo povo.

"O tema do gás não pode ser respondido hoje sem a participação do conjunto dos bolivianos", disse.

"O que decidirmos em torno dessa riqueza natural será decisivo para o nosso desenvolvimento interno e para o nosso relacionamento com o mundo."

Na votação sobre o pedido de renúncia de Sánchez de Lozada, 84 deputados disseram sim à renúncia e 26, não. No Senado, 13 senadores disseram sim e quatro, não. Ou seja: 97 congressistas foram a favor e 30, contra.

Em sua carta, Sánchez de Lozada se mostrou magoado por ter sido praticamente forçado a entregar o cargo.

"Espero que a minha renúncia ajude o país a sair dessa crise", escreveu o ex-presidente, descrevendo a sua saída como um "precedente funesto para a democracia boliviana e sul-americana".

Críticas

Em sua carta de renúncia, Sánchez de Lozada também fez duras críticas aos movimentos de oposição que forçaram a sua saída.

"É meu dever advertir que os perigos que pairam sobre o país continuam intactos: a desintegração nacional, o autoritarismo corporativista e sindical e a violência fratricida."

O ex-presidente acusou ainda esses grupos de não acreditar na democracia e utilizá-la segundo a sua conveniência.

O ministério da Informação boliviano afirmou que o presidente já chegou à cidade de Santa Cruz de la Sierra com a sua família, depois de ter deixado a sua carta de renúncia para ser sancionada pelo Congresso.

Em nota do Itamaraty, o governo brasileiro destaca um "firme compromisso" com a manutenção da paz e da democracia na América do Sul, além de reiterar a disposição de colaborar com a Bolívia.

Pressão

Sánchez de Lozada não suportou a pressão dos protestos contra o seu governo e renunciou ao seu mandato faltando três anos para o seu fim.

"Espera-se que a decisão colabore para a paz", disse, de La Paz, o embaixador brasileiro Antonino Mena Gonçalves à Agência Brasil.

Mena Gonçalves esteve reunido com o assessor diplomático Marco Aurélio Garcia, que foi enviado especialmente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para buscar uma solução pacífica para o conflito que deixou mais de 70 mortos.

A Agência Brasil disse ainda que os representantes brasileiros participaram de várias reuniões com o ex-presidente e com o seu vice na sexta-feira, tentando chegar a um consenso.

"Nesses encontros ficou mais ou menos claro que alguma coisa terá de ser feita politicamente. Talvez uma Assembléia Constituinte ou a convocação de novas eleições", disse Mena Gonçalves.

Mudanças

"Ainda é muito cedo para se ter uma noção mais clara da situação. Tudo está se desenrolando muito rapidamente", completou o embaixador.

As ruas próximas à sede do Congresso boliviano estão fortemente vigiadas para evitar que ocorra qualquer tipo de incidente.

A exigência dos manifestantes de que Sánchez de Lozada renunciasse foi expressada depois que o presidente propôs a realização de um referendo consultivo para decidir como seria feita a exportação de gás natural, a inclusão da Constituinte no sistema legal vigente e a revisão da lei de petróleo e gás.

Os líderes da oposição se disseram contrários a proposta governamental. Eles disseram que ela chegou muito tarde, depois das mortes de mais de 70 pessoas e mais de 400 feridos.

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