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'Lula vem ver Fidel, não os cubanos', afirma dissidente
O engenheiro cubano Oswaldo Payá, autor e principal divulgador do mais conhecido movimento pela liberdade de expressão em Cuba, o Projeto Varela, pediu um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas sequer obteve resposta. “Se Lula vem visitar Fidel, então não vem ver o povo cubano”, disse Payá, em entrevista à BBC Brasil. O Projeto Varela, cujo nome remete a um sacerdote que lutou pela independência cubana no começo do século 19, explora uma brecha na legislação cubana que diz que qualquer assunto que tiver um abaixo-assinado com mais de 10 mil assinaturas deve ser analisado pela Assembléia. Payá e outros ativistas do projeto conseguiram reunir 11 mil assinaturas num documento que pede que o povo decida, em referendo, se quer mudanças na lei em cinco pontos: liberdade de expressão e de associação; liberdade para os prisioneiros políticos pacíficos; direito de os cubanos terem empresas privadas (hoje, só os estrangeiros podem); direito de os cubanos elegerem livremente os deputados e a realização de eleições livres. Em resposta, Fidel Castro organizou uma campanha que reuniu 9 milhões de assinaturas e colocou na Constituição cubana que o país é comunista permanentemente. Leia abaixo a entrevista de Payá à BBC Brasil. BBC Brasil - O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, vem nesta sexta-feira a Cuba para vários encontros com o presidente Fidel Castro. Como o senhor vê esta visita?
Oswaldo Payá - Se ele vem para um encontro com Fidel Castro, então a visita não é ao povo cubano. Penso que, se vem a Cuba, e vem visitar o povo cubano, da minha parte é bem-vindo. É um homem inteligente, que defendeu a causa dos pobres e da justiça social. Eu só lhe digo que os cubanos não são menos do que os brasileiros e têm também direito aos direitos (humanos). Os cubanos e os pobres de Cuba sofrem a injustiça, porque sofrem a opressão. E sofrem também de discriminação em nosso próprio país. Está na consciência de Lula e dos brasileiros se optam por nosso povo ou pelo ditador que o oprime. BBC Brasil -O senhor acredita que essa visita será considerada como de apoio a Fidel Castro? Payá - Não sei. Depende do que Lula disser, principalmente publicamente. Minha posição é de muito respeito, mas também peço o mesmo respeito ao povo cubano. E o povo cubano está submetido a uma tirania, está submetido a um regime que se nega à menor abertura. Penso que, para Lula, para todos os brasileiros e para qualquer que venha a Cuba, o principal é se perguntar o que querem os cubanos. É isso o que pedimos no Projeto Varela. BBC Brasil - Vocês pediram um encontro com o presidente Lula? Payá - Eu mandei uma carta por meio de uns amigos, não sei se ele recebeu, convidando-o a um encontro se quisesse, mas não vou ficar fazendo discursos públicos. Se quer conhecer Cuba, se quer conhecer todos os setores da sociedade, estou disposto a conversar. BBC Brasil - E o senhor obteve alguma resposta? Payá - Não. E não é um tema que vou insistir. Mas se querem conhecer Cuba devem ouvir também aos dissidentes. Se não o fazem, perdem. BBC Brasil - Como está o Projeto Varela agora? Payá - Depois das prisões, quando o governo cubano condenou muitos dissidentes a penas de 25 a 28 anos, pensaram que o Projeto Varela terminaria. Entre os prisioneiros, cerca de 50 são do Projeto Varela. Mas, mesmo assim, já recolhemos muitas assinaturas apoiando o Projeto, formamos comitês de cidadãos em várias cidades. As pessoas continuam falando de seus direitos. Você vê que essas pessoas passam diante de nós (neste momento pessoas passam em frente ao banco onde estamos conversando, no jardim de um grande hotel em Havana, e cria-se uma tensão no ar) e se surpreendem, porque tem alguém expressando uma idéia diferente. Isso é Cuba. Existe uma cultura de medo. A força do Projeto Varela está no fato de as pessoas colocarem seus nomes e endereços num papel e disseram ao governo: queremos nossos direitos. Foi isso o que desconcertou o governo cubano. BBC Brasil - Como o senhor conseguiu, na prática, num país em que os meios de comunicação são controlados pelo governo, divulgar o Projeto Varela e conseguir as assinaturas? Payá - É uma boa pergunta. Foi mão a mão, de pessoa a pessoa. Escrevemos o Projeto Varela em 1996, e começamos a divulgá-lo na visita do papa. Mas foi em 2001 que lançamos o abaixo-assinado. Quando o governo percebeu que muitos cubanos estavam dispostos a assinar o documento começou uma onda repressiva que incluía seqüestrar os ativistas, mandá-los a lugares distantes, expulsá-los dos seus trabalhos, das universidades, e mentir fingindo-se passar por ativistas do projeto. São sinais da debilidade do regime, porque sabem que o povo precisa de mudança. O Projeto Varela não cria a necessidade de mudança, nem o fato de que em Cuba há uma imensa maioria pobre, milhões que vivem em situação deplorável. BBC Brasil - O Projeto Varela é a favor da liberdade de expressão. Também é contra o comunismo como regime econômico? Payá - O comunismo está cheio de contradições. Não só filosoficamente, mas também na prática. Em Cuba, há um regime que não permite a liberdade de expressão, não permite outras organizações a não ser o Partido Comunista, não respeita o direito dos cidadãos de eleger seus próprios deputados, proíbe aos cidadãos o direito de ter seu próprio negócio. Só dá esse privilégio aos estrangeiros e os membros da nomenclatura são os novos ricos. Se esse regime se chama comunismo, então o Projeto Varela pede todos os direitos que o comunismo nos nega. Não nos definimos como anti-comunistas, mas contra o regime que vivemos, que nega os direitos à maioria e dá à minoria os privilégios. BBC Brasil - Por que o senhor acha que não foi preso, enquanto seus companheiros foram nesta última onda de detenções? Payá - Em Cuba, o lógico é a injustiça. Os meus companheiros estão presos injustamente. Eles não cometeram nenhum crime, só defenderam os direitos do Projeto Varela e o jornalismo independente. O governo ameaça me deter também. Eu digo: ‘Estou nas mãos de Deus’. Quando o governo decidir, vai me levar para a prisão ou me levar deste mundo, mas não deixarei de lutar. Há muitos cubanos que trabalharam porque acreditavam na revolução. A maioria está hoje decepcionada. Acreditamos que podemos fazer nosso próprio projeto de justiça social e não aceitamos que tenhamos que escolher entre liberdade civil e justiça social porque quando perdemos a liberdade se perdeu em Cuba o caminho da justiça social. Leia também: |
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