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Atualizado às: 16 de setembro, 2003 - 04h22 GMT (01h22 Brasília)
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'Orgulho nacional' une moderados e fundamentalistas contra inspeções no Irã

A AEIA deu um prazo até 31 de outubro para o Irã

A pressão internacional para que o Irã assine um protocolo que daria mais poderes aos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU para fiscalizar as instalações nucleares do país está unindo as várias vertentes políticas do país, na opinião do cientista político Sadeq Zibakalam, professor da Universidade de Teerã.

"O natural seria o governo aceitar protocolos adicionais (ao tratado de não-proliferação de armas nucleares), mas o problema é que isso virou uma questão de orgulho nacional no Irã. Não é apenas a linha dura, mas os reformistas também argumentam que a AEIA está cedendo a pressões dos Estados Unidos e de países europeus para que o Irã atenda aos interesses americanos", diz Zibakalam.

Na sexta-feira, a AIEA aprovou uma resolução que dá até 31 de outubro para que o governo iraniano prove que não está infringindo o tratado de não-proliferação.

O documento estabelece possíveis punições, mas João Marques de Almeida, professor do Instituto de Defesa Nacional de Lisboa, acredita que a possibilidade de um conflito armado é remota.

"A curto prazo, é muito difícil uma invasão. As coisas no Iraque estão muito difíceis para os americanos. Eles têm que se concentrar na resolução desses problemas. E no Afeganistão a situação também não está nada fácil", explica Marques de Almeida.

"Além disso", acrescenta, "os Estados Unidos não têm capital político e diplomático e nem sequer têm possivelmente disponibilidade militar. Apesar de haver mais consenso internacional agora, os custos políticos e diplomáticos seriam muito maiores do que no Iraque. Até mesmo a Grã-Bretanha não estaria ao lado dos Estados Unidos. No atual contexto político, é impossível que os Estados Unidos recorram à força militar para resolver a questão do Irã".

Medo de ataque

Mas para o professor Zibakalam, o medo de um ataque está presente entre os iranianos.

"O sentimento geral é que tudo não passa de desculpa, de uma ferramenta política para que os Estados Unidos pressionem o Irã. Alguns membros do governo do presidente George W. Bush vêem o Irã como uma futura Coréia do Norte, e é por isso que eles estão pensando seriamente em realizar operações militares contra o Irã. Não ocupando o país, ou derrubando o regime, mas atacando alvos específicos no Irã", acredita o cientista político da Universidade de Teerã.

"E se o Irã aceitar o protocolo, os Estados Unidos vão aparecer com outra desculpa. Seja porque o Irã não reconhece o Estado de Israel, ou não respeita os direitos humanos, ou porque não apóia o processo de paz para palestinos e israelenses", acrescenta o iraniano.

"Nas atuais circunstâncias, fica difícil para qualquer tipo de governo no Irã aceitar o protocolo adicional. Todas as correntes políticas estão unidas nessa questão. Mesmo os que são contra o regime islâmico estão dizendo que nós não devemos ceder às vontades americanas. Aceitar isso agora iria contra os interesses nacionais iranianos", avalia o professor.

Mas para Marques de Almeida, a única opção viável para o Irã seria abrir completamente suas instalações nucleares para a fiscalização dos inspetores da ONU.

"A melhor maneira de o Irã se reconciliar com a comunidade internacional é permitir mais inspeções. A questão central é saber se o Irã está de boa fé ou não. O Irã tem a ganhar se colaborar de modo ativo, porque quer dizer que não está interessado em desenvolver armas nucleares. Caso contrário, eles podem tentar ganhar tempo, pois sabem que, dados os desenvolvimentos no Iraque e dentro dos Estados Unidos, no momento, a hipótese de uso da força militar está afastada", diz o especialista em defesa.

Marques de Almeida acredita que o próximo passo da AIEA, se o Irã não apresentar uma defesa satisfatória até 31 de dezembro, será passar a questão ao Conselho de Segurança da ONU, que poderia aprovar sanções econômicas.

"O Irã corre o risco de ficar marginalizado como a Coréia do Norte. Mas não devemos exagerar nas comperações porque a natureza dos regimes políticos internos é distinta. As condições políticas dentro do Irã e da Coréia do Norte são diferentes", afirmou.

Utilidade de armas nucleares

O professor do Instituto de Defesa Nacional português acredita ainda que o Irã poderia ter interesse em armas nucleares por causa das disputas regionais.

"O preço de ser marginalizado pela comunidade internacional é muito elevado. Mas do ponto de vista estratégico, o Irã gostaria de ter armas nucleares porque duas potências regionais têm capacidade nuclear: Israel e Paquistão. O Irã vê um inimigo histórico em Israel. Desde a revolução islâmica de 1979, os dois países não têm relações. O Irã é um regime dos mais críticos em relação a Israel e tem apoiado fortemente os grupos do Líbano e palestinos que combatem Israel", afirma Marques de Almeida.

"Por outro lado, o Paquistão tem armas nucleares, está muito próximo geograficamente e, principalmente nos setores mais radicais do regime, há grande ódio e promoção de perseguições políticas à minoria xiita do Paquistão. E, como sabemos, o Irã é um país majoritariamente xiita. Nesse sentido, o Irã vê o Paquistão como um inimigo, uma ameaça", explica o especialista em defesa.

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