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Atualizado às: 20 de agosto, 2003 - 13h45 GMT (10h45 Brasília)
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Férias ferradas
Ivan Lessa

Férias não é só lazer.

Não basta esse negócio de chegar, se instalar no apartamento térreo dando para o jardim e a piscina, lá ficar se torrando e boiando no rasinho feito um focão, até despertar o apetite, para depois então sair a pé e ir comer bem coisas do mar num dos 58 excelentes restaurantes situados a uma distância razoável, ou então via um dos esplêndidos, céleres e baratíssimos radiotáxis, para depois então voltar para casa dando tapinhas na pança e ir jogar biriba antes de se encanar no último romance do John Grisham.

Não. De jeito nenhum. Por uma questão de bons modos – ou brandos costumes, conforme o dizer luso – devemos nos interessar pelo que andam fazendo em torno, eles que ainda não foram embora de férias. Sim, porque há uma hora, em geral inconveniente para o turista, em que Portugal todo pára e vai embora.

De carro ou de combóio (é trem), se arrebentando, atropelando, perdendo a vida em passagens de nível, partem para os diversos pontos cardeais do país com o fim de cobrir de diminutivos e lágrimas velhos parentes ininteligíveis e crianças altissonantes.

Novelas

Tudo regado a muito vinho, pão regional, queijo de Azeitão, chouriço e doce à base de ovos.

Portanto, enquanto, apesar do calor, ainda reina uma certa normalidade – como metade do país a arder em chamas --, temos a obrigação, como bons hóspedes, de nos interessarmos pela vida política e cultural do país. Quer dizer: ligar a televisão e mandar às favas os jornais.

Dados oficiais da organização “European Citizens and the Media” indicam que os portugueses são os europeus que mais vêem telenovelas e menos lêem jornais.

São ainda esporte-maníacos.

Ainda agorinha terminou a Volta a Portugal de Bicicleta e o vencedor (um cidadão chamado Nuno, é evidente) da 65a edição do certame ganhou nos índices de audiência daquelas pessoas brasileiras tristíssimas que, numa das estações de TV, em folhetins deprimentes, desfilam de cinco da tarde até meia-noite em situações ridículas que teledramaturgos, depois de as catarem em filmes americanos, novos e antigos, transformam em texto que bancários e balconistas frustrados são obrigados a decorar a fim de se transformarem em ídolos nacionais e internacionais (Albânia inclusive).

O futebol português, eu prefiro não mencionar. Um país com um time chamado Leixões merece a ração diária de telenovelas brasileiras.

Ler sobre as atualidades políticas é formidável, porque não se entende nada do que aconteceu, está acontecendo ou pode acontecer.

Talvez constitua uma forma superior de ficção, agora que Saramago começa a secar.

Por que a gente, nosso país, não faz diferente: deixa a telenovela e institui A Volta ao Brasil de Bicicleta? Garanto que a coisa aí melhorava.

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