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Atualizado às: 30 de julho, 2003 - 17h16 GMT (14h16 Brasília)
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Lusos no Iraque
Ivan Lessa

Os portugueses batem. Com o carro. Onde puderem. Lideram a Europa em desastres e mortes nas estradas.

Leio, todos os anos, sobre o nobre papel desempenhado pela GNR na vigilância dos motoristas e tentativa de proteção dos pedestres.

Sempre foram, para mim, o equivalente aos bombeiros, que já chamamos de "os bravos soldados do fogo" e, hoje, não sei como os chamam mais. Espero que não xinguem.

Mas eu escrevi GNR. Sempre foram para mim, por dedução lógica, a "Guarda Nacional Rodoviária", pois justo nesta última sua presença é, além de indispensável, marcante.

Além do mais, lembrava-me da "Patrulha" e do "Patrulheiro", sempre da rodovia, que se não me enganam eram heróis de série de televisão.

Em Portugal, nos primeiros dias de férias, lendo com ferrenho interesse o jornal português de minha preferência, tentando desvendar todos os mistérios desta língua, que dizem ser nossa também (mas sei que não é), além de lutar para decifrar os mistérios das altissonantes batalhas políticas, dei-lá com a notícia de que a "GNR só deverá partir para o Iraque em setembro".

Isto causou-me uma certa aflição. Quem velará pelas ruas de Bagdá e Quum Al-Quasar?

O texto, em três colunas, de alto a baixo do jornal, só alimentou ainda mais minhas apreensões.

O contingente de 120 elementos da GNR continua em fase de treinos e aguarda ainda as ordens superiores do comando americano no Kuwait.

Segundo o porta-voz da GNR, major Matos Sousa, os arautos de George W. Bush consideram que ainda não está preenchido o quadro de requisitos "nomeadamente o nível de conflitualidade que permita que a GNR seja chamada", para citar literalmente o prestigioso órgão da imprensa lusa.

Os "efectivos" da GNR encontram-se em treinos físicos para melhor se adaptarem ao clima e ao terreno além de estarem aguardando a chegada de 20 viaturas blindadas compradas na Itália e que custaram ao governo luso cerca de 3 milhões de euros.

Enquanto isso, pensei eu, as viaturas tanto de ocupadores quanto de iraquianos continuarão se esborrachando pelas ruas do país vencido sem contarem com os préstimos da simpatica GNR portuguesa.

No último parágrafo, a reportagem acrescentava o dado de que os "efectivos" (com pronunciado C) estão recebendo aulas, sob forma de palestras, a fim de tomarem contato com a cultura árabe, tendo lhes sido explicado melhor não levar cães no contingente, já que é uma ofensa para os muçulmanos serem lambidos por aqueles que chamamos de "os melhores amigos do Homem".

Dois dias depois, vinte e cinco anos depois, para ser franco, descobri que o R de GNR correspondia a Republicana e não Ferroviária. Continuo não acreditando.

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