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Verão e rendição
Londres, verão, 30 graus dos nossos. Lula não mais cá mas lá, sabe-se lá aonde. Hora em que dá bobeira na imprensa. Calor é época da silly season, a temporada boba. Abrir o jornal e, antes de se abanar, enfrentar as manchetes habituais. Jogador de futebol volta a beber após transplante do fígado. Menina de 12 anos foge para Paris a fim de conhecer fuzileiro naval americano que conheceu em chat room da internet. Fotos de ingleses, rindo sem graça, nos parques e nas praias. Uma hora quentérrima para o governo. Ideal para mandar para corner as marotices em que andou e anda metido no Iraque. Todo mundo jurava que, com o verão e o tempo bom (se é que 30 graus é bom), o povão, besuntado de óleo para bronzear fator 15, deixaria essas bobagens para lá. Deu zebra. Primeira página do jornalão, o The Guardian, que eu pego antes do metrô e, terça-feira (30 graus!), lá estava em letras garrafais: "Reino Unido desiste de lutar pelos cativos de Guantánamo". Se é necessário explicar: entre os prisioneiros detidos no campo Delta da baía de Guantánamo, em Cuba, em meio ao que o governo americano chama de "combatentes ilegais", a fim de driblar parrudas zagas jurídicas, estão dois cidadãos britânicos, presos incomunicáveis há 18 meses, e escolhidos para figurar entre os seis primeiros prisioneiros a serem julgados em segredo por tribunal militar. Se alegarem inocência, arriscam-se a serem condenados à morte por supostas atividades terroristas. Segundo o jornal, tudo indica que as altas autoridades britânicas resignaram-se ao fato de que Washington se recusa a repatriar os britânicos para serem julgados em tribunais do Reino Unido, uma vez que as barreiras impostas pelos americanos são insuperáveis. Os nomes dos dois britânicos são Moazzam Begg e Feroz Abbasi. O primeiro foi preso no Paquistão, onde dirigia um colégio islâmico. O segundo estudava informática aqui no sul de Londres, em Croydon. Estão há um ano e meio em celas de 2 metros por 2 metros e 40 centímetros e têm direito, como todos os demais, a 20 minutos por semana de exercício solitário numa jaula com chão de concreto, temperatura beirando os 38 graus. Nesta semana, caberá ao primeiro-ministro Tony Blair a honra de presidir uma sessão conjunta do congresso americano em Washington. A onda de calor prossegue. |
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