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Bagdá pornô
A eletricidade continua a ser problemática em Bagdá. Mas os iraquianos da capital, graças ao contágio com o iluminismo globalizante de seus ocupadores, estão finalmente travando contato com os aspectos mais civilizadores do Ocidente, depois de anos da ditadura brutal e obscurantista de Saddam Hussein. No momento, em Bagdá, segundo informações do blogger Salam Pax, há três cinemas passando filmes pornográficos barra pesadíssima bem no centro da cidade. A mais popular sala de espetáculos chama-se Ala'a al-Deen, cuja tradução permanece um mistério, e que, nesta semana, exibia um pornô italiano, onde se passa tudo aquilo que nós, sofisticados filhos do capitalismo esclarecido, estamos cansados de ver passar. Para eles é novidade absoluta. O preço da entrada é barato: 750 dinares, a quinta parte de um dólar. O cidadão ou cidadã, mas esta ainda não deu as caras pode ficar o tempo que quiser na sala de projeção. Não tem nem lanterninha nem gerente chateando ou pedindo para o distinto se livrar da capa de chuva ou do jornal. O dono da empreitada chama-se Abu-saif e confirmou para o blogger que pretende passar cerca de três filmes por dia. Seu esquema é simples e filho legítimo da livre-empresa: ele faz cópia do que os canais por satélite transmitem e, depois, taca na tela grande. Propriedade intelectual é algo que os aliados vitoriosos prometem tratar daqui a uns 5 ou 6 anos. O Ala'a al-Deen vem contando com perto de 150 cinéfilos por dia e a censura é livre, ou seja, permite-se a entrada de meninos de 13 e 14 anos, que, quem sabe?, aprendem mais no escurinho do que nas escolas, além de estarem mais a salvo de bala perdida ou de propósito achada. Alguns muçulmanos discordam da programação. Preferem qualquer coisa, mesmo filme com Val Kilmer, do que essa pouca-vergonha que vem sendo exibida. Prometem tomar suas providências. Mais um probleminha para as forças de ocupação, já tão ocupadas. Mas o gerente do estabelecimento avant-garde se preocupa mais com seus rivais em empreitada semelhante do que, em seu vocabulário, deve chamar de fanatismo religioso. Outro cinema com a mesma linha de programação, o Al-Sindibad, sofreu outro dia mesmo os efeitos de uma banana de dinamite jogada por, tudo indica, concorrentes. Resultado: os cinemas que exibem pornografia colocam do lado de fora cartazes de filmes anódinos. Embora, frise-se, nada com o Val Kilmer. Aí seria exagero. |
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