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Atualizado às: 23 de julho, 2003 - 11h48 GMT (08h48 Brasília)
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Sangue nas mãos
Ivan Lessa

Quando da coletiva de Tony Blair em Tóquio, um jornalista britânico mais afoito perguntou simples e diretamente para o premiê, no dia em questão mais que acossado: "O senhor tem sangue nas mãos?"

Blair ficou olhando firme para um ponto qualquer no espaço a cerca de 50 cm acima da cabeça de todos os presentes, como se ali estivesse vendo surgir, do nada, um disco voador de tamanho médio.

O jornalista acrescentou rápido: "O senhor vai renunciar?" A expressão de Blair era de quem estava prestes a ser sequestrado por homenzinhos verdes.

A imprensa aqui bate duro e para valer, tal como deve ser. Também corre pelas pontas, finta, dribla, finge que vai mas não vai, tudo aquilo, enfim, que o figurino manda. Inclusive, faz besteira a mais não poder.

Tanto os jornais ditos populares quanto os igualmente ditos sérios, os jornalões, conforme se dizia no Brasil na época daquilo que já foi chamado de imprensa alternativa.

Todo mundo entendeu a alusão do jornalista que queria (e conseguiu) encabular o primeiro-ministro britânico.

No entanto, muita gente deve ter tido vontade de intervir e pedir ao profissional da imprensa para ser mais específico, que dissesse ao sangue de quem se referia em sua pergunta embaraçosa.

Há mais sangue derramado nessa história toda de dossiês incrementados do que poderá apurar um simples, ou mesmo complicado, inquérito judicial instaurado a fim de investigar as circunstâncias que levaram um cientista britânico ao suicídio.

Ninguém sabe quantos iraquianos, entre combatentes e não combatentes, homens, mulheres ou crianças, morreram desde o início da guerra contra o Iraque.

Nenhum jornalista andou apurando, andou perguntando por esse sangue derramado. Ou o sangue iraquiano que continua a se derramar. No entanto, cada vez que morre um soldado americano (e isso vem se tornando quase que diário) os números estão lá: 150, 151, 152…

O que não se pode perder de vista em hipótese alguma é o seguinte: foi-se à guerra no Iraque para se achar – e destruir – armas de destruição em massa. Onde é que elas estão?

Qualquer inquérito judicial terá que apurar também o nome de todos os suspeitos de terem sangue nas mãos.

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