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Fado de José Estaline
Ivan Lessa

Foi sucesso há pouco, na porção alternativa do cada vez mais popular festival de Edimburgo, o espetáculo An Evening With Joe, subintitulado Stalin: The Musical.

Seu autor? James Stevens, estudante da Universidade de Cambridge, especialista em preparar para o Reino Unido talentos histriônicos com particular tendência para a gozação.

Dela veio o grupo todo do Monty Python, que com prazer teria se dedicado à debochada empreitada de James Stevens.

Este tipo de humor negro (vermelho?) começou no cinema com Mel Brooks, naquele impagável e insuperável The Producers, sobre um musical intitulado Primavera para Hitler, e hoje é, em versão do mesmo Brooks, tremendo sucesso na Broadway.

Os Python beiraram a heresia com A Vida de Bryan. Não me lembro de uma terceira ousadia humorística.

Daí, esta semana, abri o jornal em Portugal.

O jornal Avante!, órgão oficial do Partido Comunista Português, publicou dois longos textos tecendo loas (pois é, o estilo pega) a José Estaline, que, travestido com esse nome, eu custei a reconhecer como nosso velho conhecido "homem de aço", Josef Stalin.

Por etapas: jornal com ponto de exclamação no título já é meio para não ser levado a sério. Partido comunista, e além do mais português, para mim, velho mau caráter que sou, beira teatro revista dos anos 50.

Mas vamos aos artigos, que, conforme manda o protocolo, li com lupa. Neles eram defendidas as proezas políticas alcançadas na ex-URSS sob a liderança de José Estaline entre 1924 e 1953.

Os artigos sublinham o fato (e o facto também) de que "a acção de Estaline fez tremer os imperialistas (e ainda faz)" além de enumerar diversas "victórias de carácter histórico inegável tal como a construção do socialismo num único país", para não falar da vitória da URSS na Segunda Guerra Mundial e a produção da bomba atômica para que "aquietassem os maníacos americanos". (Maníaco americano é bom.)

O autor do texto é justo: nomeia alguns erros cometidos pelo, para ele, saudoso líder, tanto na política interna quanto internacional.

Refere-se ainda ao abuso do poder e ao culto da personalidade num lance que me deixa cheio de admiração pelo fairplay do escriba estalinista.

Resumindo, ou fazendo o ponto da situação, conforme dizem e o dizem muito bem: folclore para mim é isso. Pitorescos são os comunistas. Danem-se as fadistas de chale negro aos ombros da Alfama!

Para o raio que as parta as mulheres dos pescadores de Nazaré! Basta de bacalhau nas natas, vinho Dão, pastéis de Belém e trouxinhas de ovos! Eu quero é um estalinista só para mim!

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