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Patrocinado por empresa, muro isola palestinos em Qalqilia
O governo israelense concluiu no dia 1º de agosto a construção do primeiro trecho da chamada "cerca de separação" – um obstáculo físico à passagem de palestinos em direção às áreas israelenses que inclui muros, arame farpado, cercas eletrônicas e valas. A primeira parte da obra tem 125 km de extensão, sendo que a cerca toda deverá ter 600 km. Uma das áreas mais afetadas nessa fase inicial é a cidade de Qalqilia, na Cisjordânia, onde foi contruído um muro de concreto de oito metros de altura, patrocinado pela empresa israelense que construiu a estrada Trans-Israel, que passa a oeste da cidade. Essa é a primeira estrada na qual é cobrado pedágio em Israel, e a empresa resolveu investir em um muro de 14 km de comprimento para fechar o acesso de Qalqilia e também impedir que palestinos disparem contra os carros que passam na estrada. Dessa maneira, a empresa espera incentivar os israelenses a usarem a rodovia. Apesar dos esforços da empresa, há três semanas um atirador palestino, que saiu da direção de Qalqilia, passou por baixo do muro (por um canal de água) e atirou em um carro israelense que passava na estrada, matando uma criança de 7 anos. Depois desse ataque, a imprensa israelense chegou a mencionar planos de continuar a construção do muro por baixo da terra, para impedir que atacantes potenciais escavassem passassens para o lado israelense.
Segundo porta-vozes israelenses, vários dos palestinos que cometeram atentados suicidas nas cidades de Israel saíram de Qalqilia, e o objetivo da construção da cerca é proteger os civis israelenses dos atentados. Segundo os habitantes de Qalqilia, o muro transformou a cidade em uma prisão e vai agravar ainda mais a frustração e o ódio, fortalecendo assim os radicais que defendem a realização de ataques contra civis israelenses. O muro ao redor de Qalqilia não só fecha a cidade como também impede o acesso dos habitantes às suas terras, muitas das quais ficaram do outro lado da cerca, isoladas de seus donos. Confisco Hassan Harouf, de 42 anos, perdeu 80 mil dos 93 mil metros quadrados de terra que possuía. Parte das terras foi confiscada para a construção do muro, e parte ficou isolada. Até a construção do muro, Harouf era um dos agricultores mais prósperos nesta área da Cisjordânia. Ele exportava plantas ornamentais e frutíferas para toda a Cisjordânia e para outros países árabes. Para produzir as plantas, Harouf construiu um sistema sofisticado de irrigação e estufas. A maioria do equipamento e das mudas ficou para trás do muro. "Antes, eu estava acostumado a ver todo os dias o pôr-do-sol", disse Harouf à BBC Brasil. "Agora já faz meses que não vejo mais o pôr-do-sol. Mesmo subindo no telhado da minha casa não consigo vê-lo, pois o muro é mais alto." Prejuízo Harouf avalia que seu prejuízo em decorrência da construção do muro chegue a US$ 3 milhões. "Mas não é só o dinheiro", disse ele. "Também perdi minhas memórias, elas ficaram atrás do muro." Harouf vem de uma família de agricultores, considerada uma das mais ricas na região de Qalqilia. "Me lembro que desde criança eu trabalhava com meu pai naquelas terras. Agora meu pai morreu, e as terras ficaram atrás do muro." Segundo o prefeito de Qalqilia, Ma'aruf Zahran, 7 milhões de metros quadros pertencentes à area da cidade foram confiscados para a construção do muro ou ficaram isolados após a sua conclusão. O muro cerca as partes oeste, norte e sul da cidade, deixando só um corredor aberto ao leste. O porta-voz da prefeitura, Nedal Jaloud, disse à BBC Brasil que o muro "literalmente sufoca a cidade". "Perto do muro o ar fica parado, os residentes naquela região já não sentem mais a brisa do mar, pois o Mar Mediterrâneo fica do lado oeste." Em Qalqilia se encontram ativistas do Movimento de Solidariedade Internacional, que junto com parceiros palestinos, protestam contra a ocupação israelense. Além da imaginação Para Amira, de 23 anos, cidadã dinamarquesa de origem palestina, "é muito importante estar aqui e poder ver esta realidade com meus próprios olhos". "Na Dinamarca, é difícil imaginar o que está acontecendo aqui, estou muito surpresa, pois não imaginava que a situação fosse tão ruim assim", afirma ela. "As pessoas não têm o direito de se movimentar livremente, de cultivar suas terras, posso sentir que as pessoas aqui estão muito frustradas." Amira contou que na semana passada ativistas internacionais participaram em uma ação de pixação do muro, pedindo o fim da ocupação israelense. "Também estamos aqui para observar e estudar a situação dos palestinos", disse ela, "para que, ao voltarmos aos nossos países, possamos contar ao mundo o que está acontecendo na Palestina." |
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