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Infraestrutura pode ser obstáculo a crescimento
Cresce o otimismo com as perspectivas de crescimento do Brasil a partir do ano que vem. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê 3% de expansão em 2004 e 3,5% em 2005. No governo, a expectativa é de que o país pode crescer em torno de 18,1% no acumulado até 2007, segundo o ministro do Planejamento, Guido Mantega. Entre analistas no exterior, predominam as projeções de crescimento para a economia do país, mas a maioria acha que ainda há riscos e a estimativa de Mantega pode ser excessiva. Na economia real, o Brasil tem gargalos de infraestrutura, como a energia elétrica. No mundo da macroeconomia, as taxas de juros ainda estão elevadas e o peso da dívida deixa pouco espaço para políticas efetivas de estímulo fiscal. Na área internacional, o desempenho da economia mundial pode ser decisivo para o país e, nesse caso, ainda há desequilíbrios que turvam o horizonte. Previsões A Economist Intelligence Unit (EIU, centro de estudos do mesmo grupo da revista The Economist) prevê que o país deve crescer 2,4% em 2004, atingindo uma taxa de expansão de 3,1% em 2005 e em torno de 3,3% ao ano entre 2006 e 2008. O acumulado dessa previsão até 2007 fica em 12,7%, bem abaixo do que prevê o ministro. "Não estamos tão otimistas e achamos que há motivos para cautela", diz Emily Morris, da EIU. "Há pouco espaço para qualquer estímulo fiscal no curto prazo. Os juros ainda estão altos. A expectativa é de queda, mas não há espaço para que isso aconteça rapidamente". Morris observa que o tamanho da dívida é o principal obstáculo para estímulo fiscal. As incertezas dos investidores por causa do tamanho dessa dívida também dificultam a queda dos juros, segundo ela. O diretor da corretora Liabilities Solution, Wilber Colmerauer, considera que os juros de dois dígitos são um forte impedimento para que o país retome um crescimento mais vigoroso. "Em nossa história recente, nunca se conseguiu baixar os juros de algo em torno de 14% ou 15%, por causa de todos os problemas que se tem, a começar pela necessidade de atrair recursos externos", avalia. Infraestrutura Os gargalos de infraestrutura na economia real são outro obstáculo para o "espetáculo de crescimento" prometido pelo governo. "Se o país crescer dois anos seguidos a taxa de 3% ao ano, haverá problemas no setor de energia", disse Colmerauer, baseado em levantamentos feitos por empresários europeus que tinham interesse em investir no setor elétrico no Brasil. Sem a regulamentação para o setor, no entanto, os investidores decidiram aplicar recursos em outros países, especialmente o México, segundo o diretor da corretora. Morris concorda com a avaliação de que há dificuldades de infraestrutura no país, especialmente na área de setor elétrico, para permitir um crescimento mais acelerado. "Investidores brasileiros e estrangeiros no setor de energia estão preocupados com a falta de um marco regulatório", avaliou. Colmerauer também alerta para os problemas na área de portos e estradas, que podem ser um obstáculo para expansão das exportações. "A China está importando minério de ferro e soja em quantidades que estão estimulando as exportações brasileiras. Mas há o risco de estrangulamento de portos e estradas", observa. Reformas Já o analista-chefe para América Latina do banco de investimentos Dresdner Kleinwort Wasserstein (DRKW), Nuno Camara, acha que a projeção do governo pode ser factível, mas ainda depende de muitas variáveis. "Há possibilidade, dentro de um contexto de austeridade fiscal, política monetária séria e aprofundamento do processo de reformas", disse Camara. Ele observa que ainda há muitas distorções na Previdência e novas mudanças podem diminuir as despesas do governo. Outro problema, segundo Camara, é que ainda há impostos que encarecem e dificultam o processo produtivo no país. Para mudar isso, a reforma tributária teria que ser mais ampla do que a que está em discussão. "Se o governo conseguir gastar menos, pode fazer uma reforma tributária para arrecadar menos. A carga tributária no Brasil é muito alta para um país em desenvolvimento", disse. Mas ele considera que os próximos avanços talvez fiquem só para 2005, pois no ano que vem tem eleições municipais, o que pode dificultar as negociações no Congresso. Para Morris, o governo pode ter dificuldades dentro do processo de reformas, "porque a lua de mel do primeiro ano acabou". "Há o risco de volta aos problemas do governo anterior, que viveu um processo contínuo de negociações", disse a economista da EIU. Economia internacional Os cenários dos analistas incluem previsões "benignas" para a economia internacional, mas nenhum deles afasta a possibilidade de problemas e, em consequência, dificuldades de crescimento para o Brasil. "De forma geral, as perspectivas para a economia internacional são positivas, mas ela ainda está vulnerável, especialmente aos desequilíbrios nos Estados Unidos", disse a economista da EIU. Os desequilíbrios que preocupam os analistas são o déficit comercial e o déficit orçamentário dos Estados Unidos. Camara observa, porém, que o Brasil tem uma "enorme capacidade de adaptação externa", passando de um déficit em conta corrente (resultado das transações do país com o exterior) de US$ 24 bilhões em 2001 para um superávit previsto de US$ 3 bilhões este ano. "Se houver outra crise externa, não vejo um cenário de fim do mundo para o Brasil", disse Camara. Na avaliação de Colmerauer, porém, a situação da economia internacional pode levar a limitações ao crescimento do país. "Os juros nos EUA, no Japão e na Europa estão em seus recordes de baixa, qualquer subida prejudica o fluxo de investimentos no país", avaliou. E, segundo ele, tudo indica que, se houver qualquer movimento na política monetária no exterior, será de subida. |
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