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Atualizado às: 09 de setembro, 2003 - 16h14 GMT (13h14 Brasília)
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Exportadores brasileiros preferem acordos bilaterais

Navios de carga
Exportadores encaram reunião de Cancún com otimismo

A poucos dias da reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Cancún, que vai discutir a liberalização do comércio internacional, produtores e exportadores agrícolas brasileiros afirmam que o governo deveria investir nos acordos bilaterais para aumentar o mercado dos produtos brasileiros.

"É importante que o Brasil continue tentando essas negociações multilaterais e sempre existe esperança de que elas resultem em alguma coisa", diz o usineiro Sidnei Meneguetti, produtor e exportador de açúcar e álcool em Maringá, no interior do Paraná, ao ser questionado sobre suas expectativas para Cancún.

"Mas a velocidade está muito lenta", completa. "O caminho das negociações bilaterais tem uma perspectiva de maior rapidez", afirma Meneguetti.

Ademerval Garcia, presidente da Abecitrus, que reúne os grandes produtores brasileiros de suco de laranja, concorda. Garcia diz que gostaria de ver mais empenho do governo na negociação de acordos bilaterais com os principais mercados para o produto no mundo: Estados Unidos, Europa, Coréia e Japão.

Falta esforço

"Não há, por parte do Brasil, um esforço em negociações bilaterais com esses mercados. O Brasil só negocia em foros multilaterais, como a OMC e a Alca, e acho que se nós tivéssemos negociações com esses países talvez conseguíssemos uma redução substancial dessas tarifas", avalia Garcia.

Nos Estados Unidos, o maior consumidor mundial de suco de laranja concentrado, o produto brasileiro para uma tarifa de importação é de US$ 418 por tonelada, quase metade do preço recebido pelo exportador brasileiro.

Ademerval Garcia, presidente da Abicitrus
Garcia diz que legado da Rodada de Doha não depende de Cancún

Garcia se diz otimista com a reunião de Cancún, mas não acredita que o evento será decisivo para a Rodada de Doha, que começou em novembro de 2001 e deve ser concluída em janeiro de 2005.

"Cancún é uma reunião agendada, no meio do caminho. Um grande sucesso adianta o processo de liberalização de comércio, mas um grande fracasso não atrapalha. A Rodada de Doha está em andamento e isso não depende de Cancún", afirma o presidente da Abecitrus.

Na outra ponta da agricultura brasileira, a agricultura familiar, as dificuldades para exportar são ainda maiores – e mais básicas.

Brás Albertini, presidente da Federação dos Trabalhadores em Agricultura no Estado de São Paulo (Fetaesp), que reúne 280 mil famílias agricultoras e 750 mil trabalhadores rurais assalariados, diz que o pequeno produtor não tem sequer condições técnicas de vender para outros países.

"Não temos escala para exportar, precisaríamos nos agrupar em cooperativas. Mas o grande problema é a falta de assistência técnica", diz Albertini.

O presidente da Fetaesp lembra o caso de um agricultor que exportou frutas para o Japão e teve problemas para desembarcar o produto na outra ponta. "É difícil para um pequeno ter essa estrutura toda", lamenta.

Proteção

Falta de estrutura não é o problema do usineiro Meneguetti. Ele sofre é com a proteção que Estados Unidos e União Européia, os principais mercados consumidores, fazem ao açúcar brasileiro.

A União Européia protege o açúcar de beterraba, com um custo de produção muito mais elevado, e os Estados Unidos protegem o mercado do xarope de milho, produzido no país também a custo muito maior.

"Poderíamos estar vendendo o triplo do volume atual", diz Meneguetti. Ele acredita que o governo brasileiro deveria estar mais atento a isso, e que o Itamaraty "precisa ser mais business".

A Usina Santa Terezinha começou a exportar em 1995, com a abertura de cotas para os produtores paranaenses. Mas as vendas ao mercado externo só deslancharam em 1999, com o fim das cotas e a liberação das exportações.

O lado negativo do aumento das exportações brasileiras foi a queda do preço no mercado internacional.

"A invasão de produto brasileiro no mercado derrubou o preço do açúcar de US$ 300 a tonelada para US$ 160 a tonelada", conta. Enquanto isso, a União Européia paga até US$ 500 aos produtores europeus.

"As barreiras criam uma situação injusta para o Brasil porque não conseguimos, mesmo com um custo de produção menor, atingir esses mercados", afirma.

Etanol

Apesar da forte queda do preço no mercado, Meneguetti diz que os produtores brasileiros ainda exportam com lucro.

A grande expectativa dos usineiros brasileiros é o aumento do mercado de etanol (álcool), com a tendência mundial de misturar o produto à gasolina para reduzir as emissões de gás carbônico na atmosfera.

É uma oportunidade de abrir novos mercados passando ao largo do protecionismo e dos acordos multilaterais.

"O setor sucroalcooleiro está se movimentando para buscar acordos bilaterais", diz Meneguetti. Ele diz que existem boas perspectivas de negociação com o Japão e alguns países europeus.

Nos Estados Unidos, a mistura de etanol na gasolina, que já está sendo colocada em prática em alguns Estados, também deve abrir espaço para os produtores brasileiros.

À medida em que os produtores americanos têm que desviar sua produção de açúcar para o álcool, deve sobrar um espaço para o açúcar brasileiro.

Renda menor

As barreiras à entrada dos produtos brasileiros não atrapalham tanto o volume de exportações do país, mas prejudicam principalmente a renda do produtor nacional, na avaliação do presidente da Abecitrus.

Garcia diz que a tarifa de US$ 418 cobrada por tonelada de suco de laranja concentrado importado do Brasil obriga os produtores nacionais a "descontar" esse valor do preço de exportação, para que o produto chegue ao mercado americano em condições de competir com o suco produzido nos Estados Unidos.

"O grande problema é social, porque a remuneração baixa impede que o produtor invista na sua produção", afirma.

Garcia chama de tabu a idéia corrente de que uma redução das barreiras tarifárias permitiria um aumento expressivo das exportações brasileiras.

"Isso não é verdade. O que aconteceria é uma transferência para o bolso dos produtores do dinheiro que hoje vai para os cofres dos governos que recolhem as tarifas", afirma.

Com isso ele derruba também o argumento, muitas vezes usado para convencer os consumidores dos países importadores, de que o produto chegaria a eles mais barato. "Nem sempre isso acontece. Podendo, o produtor vai exportar a um preço melhor", afirma.

Isso já foi comprovado, de acordo com Garcia, quando a tarifa caiu de US$ 492 para U$ 418 na Rodada do Uruguai. "As vendas para os Estados Unidos não aumentaram, mas a renda dessas vendas melhorou, melhorando as condições do produtor", afirma.

As exportações brasileiras de suco de laranja concentrado estão praticamente estagnadas desde 1994, variando em torno de 1 milhão de toneladas por ano.

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