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Blog do Gringo no Samba: Acompanhando o 'nado sincronizado' | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Matthew Exell é de Sheffield, norte da Inglaterra, um lugar praticamente intocado pela influência tropical do Brasil. Ele está cobrindo o Carnaval do Rio para o Serviço Mundial da BBC e a BBCBrasil.com pediu a ele que enviasse suas impressões sobre a festa. Mande seu comentário pelo formulário ao lado e leia o que os internautas estão dizendo no pé da página. São 8h15 da noite e estou me preparando para ir ao sambódromo, assistir à primeira noite dos desfiles das escolas de samba. A empolgação cresce. Apesar de ter chovido à beça esta noite, espero me divertir. Não tenho guarda-chuva ou capa, mas certamente vou ficar até a última escola passar. Quando ouvi falar do Carnaval do Rio pela primeira vez, através de imagens desconexas no noticiário da TV inglesa, a impressão que tive foi a de uma gigantesca competição de nado sincronizado. Você tem que entender. Lá estava eu, em um país distante, num dia gelado de inverno, vendo imagens de algum lugar tropical, com milhares de pessoas praticamente peladas. Havia muita purpurina, pessoas se mexendo freneticamente, seguindo uma espécie de coreografia, e a bateria ao fundo. Muito, muito longe da minha realidade. Mas, desde que cheguei aqui e desde que o Carnaval começou, tenho visto gente usando fantasias nas ruas, blocos e bandas aparecem de repente, do nada, para desaparecerem em seguida atrás de alguma esquina, e tenho visto restos de confete e serpentina pelas ruas. Agora, estou prestes a ver a coisa para valer… Ao chegar ao sambódromo, a primeira coisa que noto é a enormidade do lugar. Tudo é grande: as distâncias para andar são longuíssimas e cada escola de samba parece interminável. A competição de nado sincronizado gigante é ainda maior do que eu imaginava! Enquanto entrevistava gente sobre o Carnaval, me disseram, mais de uma vez, que o desfile das escolas de samba é como uma ópera popular. Bem, dezenas de milhares de pessoas vieram ao sambódromo assistir a uma maratona de óperas, com os mais esquisitos e interessantes figurinos que já vi. É verdade, a música e a dança não parecem ópera, mas, para mim, o conceito é o mesmo. Pelo menos fui convencido pela performance desta noite. E é uma maratona bastante variada: cada escola bem diferente da outra. A Unidos da Tijuca e a Grande Rio estão entre as minhas favoritas. Sei que elas não estão entre as "favoritas oficiais", mas as fantasias da Unidos da Tijuca, que falava sobre o sonho da ciência, eram fantásticas. Fui ao ensaio deles há duas semanas. O enredo me pareceu intrigante, e fiquei perguntando pelas fantasias. Ninguém disse nada sobre elas, ou sobre os carros alegóricos. Na verdade, ninguém parecia saber muito bem sobre o que era o enredo. Mas, para mim, funcionou muitíssimo bem. Nunca esperei que o desfile de uma escola de samba me fizesse rir alto, mas os conceitos da Unidos da Tijuca eram inteligentes e fantasticamente criativos. O desfile da Grande Rio também foi fantástico. Várias idéias completamente loucas sobre sexo: o enredo estimula o uso da camisinha. Algumas das fantasias masculinas consistiam de bonecas, parecendo infláveis, penduradas nos pescoços dos homens com as pernas abraçadas nas cinturas deles. O efeito é ótimo. Os carros alegóricos, o cenário, são provavelmente ainda maiores do que os que se vê em uma ópera. Vários deslizam pela avenida com enormes sinais dizendo "Censurado". Mas a imagem de nado sincronizado não sai da minha cabeça. E me faz chegar a uma conclusão que pode parecer muito estranha. Bom, pelo menos pareceu estranha para mim. Tudo bem, eu reconheço: o samba é genuinamente brasileiro. Mas o conceito de uma escola de samba… tem que ser inglês, não?! Toda a organização, os supervisores dirigindo cada ala e dizendo às pessoas para onde andar e como se mover, toda a questão do tempo e, sim, o movimento sincronizado… Para mim, parece organização britânica. E ainda todos os fatos e estatísticas que os analistas de escolas de samba discutem detalhadamente e interminavelmente. Isso também é tipicamente inglês, é o tipo de obsessão que a gente tem colecionando selos. Hmmm… talvez esteja mais perto de me tornar um carioca sambista do que jamais estive. Ou os sambistas cariocas são muito mais ingleses do que se dão conta! Parece ainda haver esperança para mim, na minha missão de me encaixar no Rio… "O Carnaval da Bahia é mais bonito do que o do Rio de Janeiro. Não gosto do fato de mulheres brasileiras serem vistas como "fáceis" ou "vulgares" no exterior. A imprensa internacional não mostra como é a vida na favela para se fazer o carnaval e mostra somente mulheres nuas de classe média que vão para fazer autopromoção." "Um pouco sobre o tão falado "nativo". Eu quando aqui cheguei me surpreendi ouvindo eles se referirem a eles e aos outros, como "nativos". Para nós brasileiros, um povo com um enorme complexo de inferioridade, ainda se sentindo colonizado, nos ofendemos. E isso soa como ofensa, e não como ter vindo de um país. Os nativos de língua inglesa escrevem em seus currículos, quando mandam para serem professores de inglês em outros países, 'falo inglês nativo'. Mas para o brasileiro soa como se fosse indígena, índios, caboclos... e todos esses por acaso não são nativos do mesmo país que nós brasileiros 'colonizados'? Agora mais uma coisa sobre "pelados", não entendo tanta indignação dos estrangeiros se referirem a isso, por acaso não somos uma nação de pelados? Então não vamos nos ofender quando os estrangeiros se referirem como 'um pais de pelados'. Deveríamos nos orgulhar, se trabalhamos tanto para vender toda essa peladagem a fora! Como queremos 'vender' uma imagem se nós mesmos não a temos de nós mesmos! Vendemos uma imagem dentro do país, para nos nativos, e uma outra completamente diferente para os nativos de outros países. Se queremos mudar nossa imagem fora do país, devemos começar a mudar dentro do nosso coração e dizer: Eu sou nativo do Brasil, e falo o português nativo. O que os outros pensam de nós, não deveríamos nos preocupar, mas sim com o que pensamos de nós. Nativos do Brasil. Com muito orgulho, sim senhor." "Que bom que você esteja tendo uma impressão positiva do maior espetáculo da Terra!" "Parabéns pelo trabalho, Exell. Apenas gostaria de sugerir que não reclamasse da folia pois, aqui na Noruega, eu só vejo desfile de neve além da dança dos termômetros ora acima ora abaixo de zero. Quando vejo o Carnaval aí pela televisão, fico até com depressão. Ah Brasil, quanta saudade!" "Achei divertido o Matthew pensar que só inglês sabe fazer as coisas de maneira organizada. Mais ainda pelo fato de que a Inglaterra, apesar da fama de eficiente, é uma grande baderna, se comparada a outros ditos países do Primeiro Mundo." "Caro Matthew, você não pode ver todos os cariocas ou os brasileiros da mesma forma.... Cada um de nós tem uma concepção diferente da importância do Carnaval... Para alguns o Carnaval é tudo, o momento mágico do ano, é a vida... Já para outros (como eu mesmo) é apenas uma festa divertida como muitas outras... Não se pode generalizar. Se você gostou do que viu, vá em frente e pule até não poder mais. Se não gostou (como muitos brasileiros também), fuja dele." Matthew Exell, produtor do Serviço Mundial da BBC, está produzindo uma série de reportagens de rádio em inglês sobre o Carnaval brasileiro, que você poderá ouvir no site dos programas: |
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