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Atualizado às: 23 de junho, 2008 - 20h49 GMT (17h49 Brasília)
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Problemas na Argentina reavivam fantasmas de 2001

Pessoas fazem panelaço em Buenos Aires
Argentinos voltaram às ruas para protestar na semana passada
Protestos nas ruas, panelaços e incertezas políticas e econômicas estão reforçando o temor dos argentinos de que a histórica crise que afetou o país em 2001 possa se repetir.

No fim de semana, a revista argentina Notícias publicou uma capa inspirada na pior crise que o país já viveu. Com o título 100 días de anarquía. El Imperio de la estupidez ("Cem dias de anarquia. O império da estupidez”), o semanário relata o conflito entre o governo e o setor ruralista e relembra uma capa semelhante, publicada em 2001.

"Há sete anos, Notícias fez uma capa com um desenho atípico como o de agora. Na anterior, antecipamos o default político. E agora (…) para advertir sobre a loucura generalizada que pode nos conduzir ao vazio."

Os paralelos têm sido feitos com cada vez maior freqüência pela mídia e por políticos do país. Na semana passada, o analista do jornal Clarín, Eduardo van der Kooy, escreveu: "Os fantasmas de 2001 voltaram" e o jornal Perfil também publicou uma capa com o título Anarquia e fazendo comparações.

Em uma manifestação no Congresso Nacional de prefeitos da Província de Santa Fé, onde a agropecuária é o carro-chefe da economia, o prefeito Fernando Fisher, da cidade de Armstrong, também invocou o fantasma da crise.

"Essa é uma rede catastrófica. Os fazendeiros pararam, os caminhoneiros pararam e agora empresas e pequenos negócios começam a suspender os empregados (…). Por favor, façam alguma coisa ou vamos repetir o caos de 2001". Fisher é do Partido Justicialista (PJ), principal base de apoio ao governo.

Panelaços, protestos nas ruas e uma profunda crise política foram alguns dos fenômenos que antecederam o colapso econômico de 2001, que levou à queda do então presidente Fernando de la Rúa.

Mau humor

Para Eduardo van der Kooy, o paralelo entre presente e passado não pode ser traduzido em números.

"A semelhança (com 2001) está no crescente mau humor da sociedade (...) com o conflito entre o governo e o setor rural que a presidente e (seu marido) Nestor Kirchner deixaram fluir com imprudência e escassa responsabilidade", escreveu ele.

Uma das principais medidas desse humor é o índice de popularidade – ou impopularidade – da presidente Cristina Kirchner. Duas pesquisas de opinião divulgadas na semana passada – das empresas de pesquisa Poliarquia e da Giacobbe e Associados – revelaram que 20% do eleitorado fazem uma avaliação positiva do governo. Ela foi eleita em dezembro passado com 45% dos votos.

Os índices de Cristina Kirchner são comparados atualmente aos de Fernando de la Rúa, que após um ano à frente da Casa Rosada tinha 15% de aprovação. Cristina, porém, tem a vantagem de contar com uma maioria no Congresso que De la Rua não tinha.

 Não é possível que, quando a gente pensa que tudo está indo bem, tem que acontecer alguma coisa. Será que não podemos viver num país calmo, normal, previsível?
Maria Lily Lorenzo

Para alguns argentinos, após quase seis anos de crescimento e estabilidade, a crise atual evoca lembranças da incerteza e imprevisibilidade de 2001.

É o caso de Maria Lily Lorenzo, que tem uma clínica de beleza em Buenos Aires. "Não é possível que, quando a gente pensa que tudo está indo bem, tem que acontecer alguma coisa. Será que não podemos viver num país calmo, normal, previsível?"

Ela contou que decidiu congelar o preço da limpeza de pele, apesar da escalada da inflação, já que as clientes estão "assustadas" e começaram a adiar o cuidado com a pele.

Semelhanças e diferenças

Além do clima de protestos e enfrentamento político, as contas públicas e a saída de dólares do país reforçam as memórias negativas.

Segundo dados oficiais, a dívida pública já é superior à de 2001 e a retirada de capitais também. Entre junho de 2007 e maio deste ano, US$ 19,9 bilhões saíram do país, de acordo com consultorias privadas, que se basearam em dados oficiais. Entre o terceiro semestre de 2001 e o segundo semestre de 2002, a saída foi de US$ 18,7 bilhões.

Apesar desses dados, para vários analistas a comparação entre o momento atual e os problemas do começo da década é imperfeita.

A atual crise começou com uma ação pontual. Em março, o governo Kirchner aumentou os impostos sobre exportações de grãos com a justificativa de tentar controlar os preços e de distribuir os ganhos do setor agrícola – o que mais cresceu nos últimos anos.

A medida gerou inicialmente uma queda-de-braço entre o setor ruralista e o governo. Mas a crise se espalhou, com desabastecimento causado por protestos de agricultores e caminhoneiros - que pararam em protesto contra a falta de trabalho diante da paralisação do setor rural - e a ampliação da tensão política.

Os principais problemas da Argentina de 2008 são, ao menos em parte, diferentes do país de Fernando de la Rúa. Em 2001, o país vivia uma deflação e uma crise cambial, depois de o governo ter mantido o peso atrelado ao dólar por quase uma década. A falta de moeda estrangeira, aliada à falta de credibilidade do governo, levou a uma corrida bancária que quebrou a nação.

Ao contrário de De la Rúa, o governo de Cristina conta com reservas recordes no Banco Central – US$ 48 bilhões, embora estime-se que US$ 3 bilhões já tenham sido gastos para conter uma nova corrida ao dólar.

Além disso, há outras diferenças: o país sofre com falta de energia (em parte por causa do crescimento e por falta de investimentos) e com índices altos de inflação – os dados oficiais mostram uma taxa na casa dos 10%, mas alguns analistas discordam e apontam para uma alta de até 28%.

Para economistas como Miguel Kiguel, da Econviews, e Miguel Bein, da consultoria Bein, a economia argentina tem hoje base e instrumentos – como o superávit fiscal recorde – para não viver um novo terremoto econômico. O problema seria mais político do que econômico, embora exista um risco crescente de que os problemas de um campo afetem o outro.

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, na terça-feiraArgentina
Depois de recuo, Cristina Kirchner critica ruralistas.
Argentinos em Buenos Aires. Foto: APArgentina
Dívida pública do país é a maior desde 2001, diz estudo.
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