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Atualizado às: 17 de junho, 2008 - 15h48 GMT (12h48 Brasília)
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'DJ da paz' tenta desmobilizar rebeldes no Congo

Mike India
Mike India fala com os rebeldes em seu celular
Enquanto a ONU posiciona soldados em florestas no leste da República Democrática do Congo para remover rebeldes ruandeses que se instalaram na região desde 1994, um homem armado com um sistema portátil de rádio tenta convencer os insurgentes a voltar para casa usando uma combinação de persuasão e música.

As FDLR (sigla para Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda) reúnem rebeldes da etnia hutu que habitam as florestas do vizinho Congo desde o período do genocídio no qual, acredita-se, alguns teriam participado.

Escondidos na mata junto com outras milícias, os rebeldes continuam a ameaçar a estabilidade da região.

A missão do DJ Sibilondire, de 36 anos, é convencê-los a ir para casa.

Todos os dias às 5h da manhã, em uma choupana em North Kivu, no topo de uma montanha, Michel Sibilondire monta um pequeno transmissor de rádio da ONU e inicia sua programação.

Quando o aparelho começa a funcionar depois de muito esforço, ele aponta sua antena na direção de árvores ainda cobertas de neblina à distância.

"A um quilômetro daqui você começa a vê-los (os rebeldes) sozinhos ou em pares", explica. "E se você continua por cerca de 30 quilômetros, vai chegar ao lugar onde as FDLR vivem há anos."

Sibilondire é conhecido entre os rebeldes pelo nome Mike India. Ele transmite em quatro línguas. Alterna sucessos pop do Congo e de Ruanda com música country americana e notícias sobre os últimos desdobramentos do programa de desmobilização da ONU.

O DJ foi contratado pela ONU para ser o que ele chama de "apresentador de rádio para a paz" em 2006, depois de vivenciar uma década de conflito ao lado da esposa e de seus dois filhos.

A "rádio da paz" existe há quatro anos. É difícil quantificar seu sucesso. Calcula-se que mais de 5 mil rebeldes das FDLR tenham retornado a Ruanda nesse período.

Mas os indícios são de que os 7 mil que continuam na região não serão bem-vindos no Congo por muito mais tempo.

Por isso, a mensagem de Mike India hoje em dia é mais direta - volte para casa ou você será morto.

ONU

No início do ano, o Conselho de Segurança da ONU exigiu que os membros das FDLR e de outros grupos armados ruandeses no Congo deponham as armas "imediatamente" e se entreguem para repatriação para Ruanda.

Segundo a decisão do conselho, se houver atraso, os soldados da ONU estão autorizados a "usar todos os meios necessários" e apoiar as operações dos militares congoleses para remover os ruandeses à força.

O Exército já vem posicionando tropas na região de North Kivu em preparação para a batalha contra as forças rebeldes.

Mike India tem esperanças de que a situação não chegue a esse ponto.

"É impossível tirar as FDLR da República Democrática do Congo pela força", ele diz. "Não vai dar certo. Isso vai ser muito ruim para o povo congolês."

O homem que lidera o programa de desmobilização da ONU no país, Philip Lancaster, não discorda.

Lancaster diz que a falta de profissionalismo do Exército congolês - que lutou ao lado das FDLR no passado - vai dificultar a proteção dos civis durante uma ação militar.

"Por causa da forma integrada como as FDLR se instalaram nas comunidades congolesas, os tipos de medidas que precisam ser tomadas são mais de natureza policial do que militar", explica.

Ele acredita que o problema principal é o medo, "tão enraizado em suas mentes que achar uma forma de vencê-lo é um desafio real".

"Eles estão convencidos de que se voltarem para Ruanda vão ser mortos, presos ou humilhados."

Se os rebeldes participaram do genocídio, terão de enfrentar a Justiça de Ruanda - mas acredita-se que o número dos que realmente cometeram crimes não passe de uma dúzia, já que a maioria dos rebeldes atuais era criança em 1994.

Reconstrução

Por isso, as transmissões de Mike India são repletas de mensagens tranquilizadoras sobre paz, segurança e o pacote de desmobilização, que envolve dinheiro, treinamento profissional e outras formas de suporte básico.

De vez em quando, ele anuncia o número do seu celular. Entre 1h e 4h da manhã - quando as ligações são gratuitas - seu telefone é inundado de ligações ou mensagens de texto.

Alguns rebeldes querem saber onde se entregar. Outros reclamam do atual presidente de Ruanda, Paul Kagame, um ex-líder rebelde da etnia tutsi. Alguns ligam para pedir uma música.

"Olá, Mike India!", diz um texto. "Estamos com as FDLR - sou capitão em Rusamambo. Quando Deus quiser, estaremos prontos para retornar a Ruanda."

Convencer os rebeldes a depor as armas é uma questão de confiança, e os apelos pessoais parecem funcionar melhor. Mas o processo é lento - apenas um ou dois ex-combatentes transitam pelos campos de passagem da ONU diariamente.

Mike India sabe que não tem muito mais tempo. À medida que se acentuam as tensões com o posicionamento de tropas na região, o DJ intensifica seu trabalho.

Ele transmite pelo menos dez horas por dia e dorme ao lado do transmissor.

"Estou trabalhando para convencê-los", ele diz, depois de se despedir e desligar o gerador, às 10h da noite. "Esta é a minha contribuição para a reconstrução do país."

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