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Salvai e amai Amy | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Música popular americana para mim é um troço que acabou lá por volta dos anos 60. Nós, nós os carecas, nós os velhinhos, somos assim: fiéis a toda aquela gente que cantou ou tocou jazz. Pois essa era minha predileção. Gente cantando. Os que já foram chamados de crooners, boy singers e girl singers da época das big bands. À música popular brasileira, atual, viva e atuante, continuo fiel. Feito disse mais de uma vez o Aloysio de Oliveira, “música popular de qualidade só há três no mundo: a americana, a brasileira e a cubana”. Sempre assinei embaixo. E procurei ser eclético. O que em geral dá besteira. Acaba virando falta de critério. Veio Elvis, veio o rock, vieram os Beatles – e eu a todos ouvi com atenção. Até à country music, dei e dou, uma escutada, quando bate a hora. Tudo bem. As dificuldades começaram com as subdivisões roqueiras. Punk, funk, metal music. E por aí vai. Que fique claro: não era apenas Frank Sinatra ou Sarah Vaughan. No meu time jogavam desde Duke Ellington até Stan Kenton e os grandes, os imensos solistas: Charlie Parker, Barney Kessel, Miles Davis, Art Tatum. Para quem embarcou nessa, a coisa não para nunca. Os discos estão lá em casa, uma fortuna foi neles investida. Vai tudo para o eBay quando eu me for, já avisei aos mais próximos. Nunca vender tudo para um colecionador. Com paciência, os herdeiros irão faturar um bocadinho mais. A mesma paciência (confesso: havia e há muito comoção interna quando surge disco novo de velho músico morto) com que frequentei as lojas de discos deste mundo e, agora, percorro certos sites na Net. Tudo isso para chegar a Amy Winehouse. Ela estaria na lista das pessoas, e não são poucas, que me são impossíveis sequer de ver, quanto mais ouvir. Quem não posso ver ou ouvir? Dou logo uns nomes para alienar quem me acompanhou até aqui: Elton John, Robbie Williams, Mariah Carey. Se o amigo ou amiga aí tem o quarto decorado com o som e os pôsteres das figuras em questão, passe para o site seguinte e me deixe aqui falando e cantarolando sozinhos velhas canções dos Gershwin ou de Rodgers e Hart. Voltando a Amy. Eu não posso ver. Dessas coisas de pele, conforme nos diziam as moças recusando nossa corte com vias a um possível namoro e qualquer coisinha a mais de quebra. Pele dela, que fique claro. Cabelo dela. Maquiagem dela. Roupa dela. Ela, toda ela. Menos a voz. Cá entre nós, nunca prestei muita atenção nas letras de suas músicas. Ponho a mão no fogo que não irão fazer um Johnny Mercer virar no túmulo e nem impedir o Stephen Sondheim de escrever o próximo musical fadado ao sucesso crítico e fracasso popular. É a tonalidade. O delivery. A divisão. O fraseamento. Qualquer coisa de sério está se passando com a moça, isso fica claro. Nada tão grave quanto o que se passava com Billie Holiday, mas preocupante em todo caso. Isso é raro. Isso é para ser apreciado. Em geral dá em overdose, hospital, enterro e obituários eloquentes. Com sorte, fica a música. Ficam os discos. “Ah, a potência barata das canções populares”, para citar um compositor intérprete que não era de se jogar fora: Noel Coward. Mais uma chegada a Amy. Vejo pelos jornais eletrônicos que ela virou bandeira antidrogas no Brasil. Em São Paulo. Onde um movimento quer injetar (cuidado com as injeções, ó movimento!) boa causa na “imagem trôpega” da cantora. “Imagem trôpega” é coisa lá deles, do movimento, já batizado de Save Amy, concebido por uma teleatriz, Giselle Itié, e pela fotógrafa paulistana Hanna Jatobá. Vai ter exposição com brasileiros profissionais posando artisticamente de Amy e seu namorado, Blake Fielder-Civil em cenas carregadas de emoção. Quer dizer, o Save Amy é uma mostra, que fica aberta em São Paulo até o dia 13 para depois, em agosto, chegar ao Rio. Todo o dinheiro angariado com a venda das artísticas e por ventura realistas fotos, com os preços variando dos R$3 mil a R$5 mil, será doado a um programa que auxilia os tóxico-dependentes. Já há, em ação, até mesmo, uma banda que atende, caso esteja em casa, pelo nome de I Love Amy, capitaneada, leio eu, por Miranda Kassin. Alguém definiu a série de bem intencionados eventos de “movimento cívico”. Parece que o objetivo principal é menos salvar Amy do que utilizá-la como garota-propaganda para conscientizar os jovens brasileiros dos perigos das drogas. Ao que parece, Amy, apesar de notificada várias vezes, não tomou conhecimento da coisa. É possível que esteja noutra, conforme se dizia. Num rehab em Israel, segundo leio em jornal daqui. A aproximação da arte com a publicidade não é uma idéia das mais felizes. Ambas nunca se encontrarão. A não ser que os anúncios sejam para anunciar concertos e que os artistas anunciados a eles compareçam em razoável estado de sobriedade. Se gostam da moça, aproveitem. E confessem também: grande parte de seu encanto e graça, de sua popularidade, provêm precisamente mais de suas artes com pós e líquidos injetáveis do que com sua música. Charlie “Bird” Parker, Chet Baker, Art Pepper, Anita O'Day e uma infinidade de gente ligada ao jazz está, ou esteve por aqui, para não me deixar mentir. Se Amy for salva, terá que ser em inglês e não em português. Mais: jovem acha a maior graça, “genial” mesmo, essa zorração da moça. A emulação é o segundo passo. Cuidado, digo eu para vocês aí. Aqui, tudo indica que não dá jeito. Se der, vai virar charme. Feito outros ídolos roqueiros cujo charme se me escapa: Kurt Cobain e Michael Hutchence. Primam, principalmente, creio eu, por estarem mortos. Não estão numa “boa”. |
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