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1968: Annus Terminus | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Meu bom Zuenir Ventura que me perdoe, mas eu não consigo mais ler uma única palavra sobre o malfadado ano de 1968. Eu sempre disse duas coisas: 1968 foi um excelente ano para não se estar em parte alguma. E uma variante: 1968 foi em excelente ano para se ir embora de qualquer lugar. Consegui, e não me perguntem para entrar em detalhes, emplacar a dupla. Vamos, já que estão todos à solta, opinando e calcando regra, dar uma resumida nessa história. 1968 foi o ano mais terminado e terminal da chatíssima e conturbada história do século 20. Um século que encheu o saco, por sinal e en passant. 1968, felizmente, acabou. Como o já lendário esquete do papagaio do pessoal do Monty Python: 1968 acabou, morreu, faleceu, subiu, bateu as botas, passou desta para melhor, bateu com as dez, vestiu o paletó de madeira, deu uma de revertere ad locum tuum, saiu na horizontal. Esse é o espírito da coisa. Um mundo penhorado agradece pelo faustoso acontecimento e, de trás do balcão, diz, “Caixinha, obrigado”. Cisquei a Net e fui pegando o raio do ano (repetir muito o nome dá azar) de cabo a rabo, mais o último que o primeiro, antes de sua promoção a sargento torturador. Enfileiro, sem comentários, para termos uma idéia do tédio e do tormento insuportável que, então, como uma bala dum-dum, varou o pobre coitado do globo terrestre. Vou de Brasil e do mundo, já que tudo globalizado está e ambicioso sou. Mês após raio de mês Janeiro 21: tem início em Khe Sanh uma das batalhas mais discutidas da tal guerra. Vai até 8 de abril. Fevereiro Março Agora, chega Cansei. Ontem e hoje. E estava apenas em março. 90 dias de 68. O resto, todo mundo sabe. Ou está passando, mais ou menos, a saber. Um filme visto, revisto e que será ainda pior quando comemorarem (comemorarem, né?) os 50 anos do raio do ano em pauta. Os “acontecimentos” frasistas burgos-estudantis pelos muros de Paris, em maio, seguidos, em junho, de vitória estrondosa de De Gaulle nas eleições legislativas. Passeata dos cem mil no Rio (ou seriam 20 milhões? Cada dia aumenta mais), viagem dos 26 brasileiros de sempre à cidade-luz para as compras e comilanças habituais. Assassinato de dois demagogos americanos, um de talento (Martin Luther King Jr), outro um tremendo mau-caráter (Robert Kennedy, a quem o irmão, JFK, só se referia, rindo, como “just an irish cop”), o mais esquecido massacre da história contemporânea em Tlatelcoco, cidade do México, 10 dias antes do início dos jogos olímpicos (citius, altius, fortius), quando tropas do governo, na Plaza de Las Tres Culturas, executam um número de estudantes, em sua maior parte, cujo número pode continuar oscilando dos 200 aos 300 mortos, sendo que muitos falem em por volta de 1000. Ah, sim. Os jogos prosseguiram normalmente. Ou quase. Dois atletas negros americanos, no pódio com suas medalhas de ouro e prata, fazem a saudação dos Panteras Negras e viram os rostos para o hino e a bandeira americana. Essa a imagem que ficou da Olimpíada de 68. E o pau comendo solto em terras de Brasil. Que já foi tão decantado em prosa e verso que, se ainda houvesse carnaval, na certa pegaria no Reinado de Momo, agora que não tem mais censura. Primavera em Praga seguida devidamente de outono e inverno. Praga. Primeira operação de transplante de coração em terras nossas (não se fez um sambinha a respeito, contrariando a velha índole sentimental), ato institucional por número cinco (e os outros quatro? Nem se toca neles, esses grandes esquecidos), Geraldo Vandré falando de rosas, Norma Benguell espancada e solta, Rei da Vela, Comando de Caça aos Comunistas (nas paredes, em piche: “Já matou seu comunista hoje?”), Roda Viva, Conselho Superior de Censura, Marcito Moreira Alves fazendo uso da Câmara como trampolim para estada prolongada em Paris (os estudantes franceses voltaram às salas de aula para nelas sonhar, sonhar, sonhar), a Rainha Elizabeth II visita o Brasil, e fim também, de uma só tacada, como para o papagaio monypythiano, da dupla Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta. Nos EUA, foi eleito para a presidência do país, Richard Milhous Nixon, um profissional de escol e gabarito, que, além de uma chegadinha à China, deu um pontapé inicial nas démarches de paz no Vietnã. Só não conseguiu acertar na testa de 1968, que continuou, e continua, impávido, até o danado do mês de dezembro. Aguardem em 2009: 1969. |
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