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Atualizado às: 21 de maio, 2008 - 08h17 GMT (05h17 Brasília)
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De testamentos e codicilos

Ivan Lessa
Outro dia, aqui mesmo neste espaço onde caibo e sou cabido, andei falando da possibilidade de extinções: do urso polar, do mico-leão-dourado. Uma porção de bichos. Algo deprimido, falei também de minha própria extinção. Pessoal e intransferível.

Os cientistas lamentam o derretimento das calotas polares e da emissão de monóxido de carbono. Ninguém me diz nada da mais próxima e inevitável possibilidade de quando eu bater com as dez. Umas duas ou três pessoas ficarão chateadas por alguns minutos. Tudo bem.

A ciência, no entanto, não se manifesta. Nada tem a me informar. Sim, é verdade. Faz primavera friorenta e eu continuo com a alma deprimida cabisbaixa. Procuro consolo no que me separa do ornitorrinco e do chimpanzé. Eles vão para a cucuia sem testamento.

Eu, há mais de dez anos, passei no advogado e fiz meu testamento. Coisa simples, coisa barata. Além do mais, eles guardam toda a papelada referente ao arrendamento de meu flat, que vai até 2085. Outra forra minha, mais um golzinho no placar.

Segundo a ciência, o urso polar já estará extinto. Ou, com boa vontade, não haverá sequer um número suficiente deles para fazer uma linha de passe. Danem-se. Vou de cara e espírito amarrados. Deixarei uns cobres no banco e acabou-se. Nem ao menos gastei tudo em farras.

Words, words, words…

Li no jornal, agora em maio, que entraram online mais de 400 anos de testamentos britânicos. Andei fuçando. Quero saber se, nesse tempo todo, alguém aqui teve menos posses do que eu. Parece que não. Pesquisei apenas 247 anos.

Todo mundo tinha algo para deixar. Até Shakespeare, um teatrólogo pobretão e quase desconhecido em seu tempo, fez questão de especificar, em seu testamento, que deixava a "sua segunda melhor cama" para a mulher, Anne Hathaway.

E a "primeira melhor cama", ó Cisne de Avon? Ficou para quem? Sempre essa mania de deixar um rastro de controvérsia atrás de si. Bardo imortal é fogo.

De sã e livre consciência

Agora que chegou para valer a reforma ortográfica, o escritor inglês William Hazlitt (1778-1830) deveria ser mais divulgado no Brasil. Nenhum motivo especial. Só para ver como seus esplêndidos escritos ficam sem trema ou hífen. Coisas. Hazlitt disse que "a arte de compor um testamento consiste, principalmente, em confundir a importunidade da expectativa." O homem sabia das coisas.

Vejam, por exemplo, o que catei num testamento de um ilustre desconhecido, Robert Sherlocke, que cumpriu todas as formalidades legais e deixou para sua senhoria, uma certa sra. Adowne, "todas as terras que possuía juntamente com toda a bosta nela contida".

E Jane Waterer? Terá se surpreendido quando herdou uma colméia de tamanho modesto? Como terá se sentido Martha Ousley quando, no decorrer da leitura do testamento do pai, teve que ouvir que seu marido não passava de um "bom debochado e depravado"? Thomas Sayere com certeza ficou morto (no sentido figurado) de alegria quando soube que seu irmão, Olyver, lhe deixara seu "melhor arco e 12 de suas flechas".

O conteúdo de 28 mil testamentos, entre os anos de 1470 a 1856, catalogam disputas entre famílias, filhas dissolutas, criados ladrões e tudo que se possa imaginar (sim, sim, os britânicos são excêntricos, é verdade) num banco de dados disponível a todos.

Digitem aí na janelinha de busca: www.originsnetwork.com e daí sigam em frente. Convenhamos: o mundo é triste, a carne é fraca, há muito pouca coisa de interessante a se fazer lá fora, na rua, o melhor é ficar brincando no computador mesmo. Dou uns dados encontrados para aguçar e entusiasmar o porventuroso leitor que me honra com sua presença. Segurem aí.

Testamentações

Apenas alguns dos itens deixados em testamentos destas ilhas:

- Chaleiras. São mencionadas em 1028 documentos.
- Cobertores. Em 909.
- Travesseiros. 432.
- Alianças. 228.
- Abelhas. 171
- Bacon. (É. Toucinho) 143.
- Montes de bosta. (Em vários tamanhos) 57

E coisa e tal. Existindo, que ficasse para alguém. Nem que fosse de malandragem.

Por falar nisso, e minha discarada? Minha livrarada? Meus três bicos de pena do Portinari? Se esqueci de botar no testamento. Isso só vai criar problema para quem vier depois de mim.

No verão, cuidarei de um codicilo. Vou-me embora, é natural, é impossível evitar. Irei, no entanto, esperneando e espalhando codicilos, como quando eu era menino e ficava na janela cuspindo nos passantes.

Arquivo - Ivan
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