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Yes, nós temos bananas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Os ingleses entendem de decassílabo e torrada com feijão branco em cima. Não manjam nada é de banana. Até batata já foi motivo de editorial em jornal que vende quase 400 mil exemplares, o Guardian. Lá estava, agorinha mesmo, em maio: louvação em três colunas e um pequeno histórico sobre o tubérculo, com citações de William Cobbett e Diderot e Frederico o Grande batendo ponto. O texto mencionava Bangladesh, que fez realizar, mês passado, um festival da batata. Editorial, festival, enciclopedista, monarca, tudo isso, só para assinalar o Ano da Batata, que a ONU designou e, para festejar a ocasião, acaba de montar uma exposição com fotos artísticas do simpático tubérculo. Conforme a popular frase de Machadinho, no Quincas Borba: ao vencedor, as batatas! Mas e as bananas? Os ingleses se acreditam apreciadores insuperáveis da batata em suas várias formas e apresentações. Estão tão enganados quanto sua fé inabalável no futebol que praticam e no endeusamento sem embasamento vivencial da banana. É de banana e não de batata que eu quero falar. Apenas porque já vi editorial igualmente acadêmico e louvador da modesta banana, da qual o Brasil é o segundo produtor no ranking mundial. Não menciono o primeiro por desfeito, mau perdedor que sou. O computador dá direitinho, mas eu aqui, ó, nem te ligo, conforme se dizia. Sei que não sonhei. Na Inglaterra, ou Reino Unido, para os pedantes, a banana faz parte do lendário popular e culto de sua cultura. Bote um inglês diante de uma boa banana e você verá o que é um homem deslumbrado. (Mais tarde mencionarei de leve a banana e seu segundo sentido) Eles, os ingleses amam uma banana (Deixem de ser maldosos. Aguardem). Só que estão totalmente por fora do versátil e desfrutável fruto. Aqui nas ilhas, uma banana é tão simplesmente isso: uma banana. Quer dizer, ela pode estar verde ou madura, mas seu aspecto geral, tamanho e gosto são tão invariáveis quanto são variáveis, na Grã-Bretanha, o tempo e a vocação para a encenação teatral, seja em palco ou cerimônia pública. Agora, banana, que é bom... -- façam-me o favor. Descascando o assunto A banana aqui é uma só. Banana é banana. Acabou-se. Eles podem ter 230 tipos diferentes de batata, mas um apenas de banana. No máximo, chegam à banana-pão, ou plátano, aqui conhecida como plantain, com sua polpa rija e casca firme verde. Que são consumidas cozinhadas (fritas, cozidas ou assadas) e servidas com tipos diferentes de carne e peixe. Quer dar um susto num inglês? Basta chegar para ele e falar que há vários tipos de banana. Que há uma banana-prata (traduza para silver banana só para aporrinhar o infeliz), uma banana-maçã , uma banana d'água, uma banana-ouro (gold, mister, gold!), uma banana-terra e até mesmo uma baixinha como um perigoso ponta-esquerda senegalês e que nós, com a maior intimidade, só chamamos de nanica. Que a banana, enquanto verde, é constituida essencialmente de água e amido, o que contribui para ser fonte generosa de hidratos de carbonos. Isso pode ser bom ou ruim. As pesquisas não são claras. Ainda. Os ingleses são técnicos. Ruins de bola, mas técnicos beirando a erudição. Nem pense em explicar que a banana pode ser frita e servida com açucar e canela em cima. Isso deixará nosso amigo inglês ainda mais perplexo. Por aqui, a banana é consumida tal como saiu do verdureiro paquistanês. Sim, eles descascam direitinho. Não exageremos na ignorância do companheiro ao nosso lado. Variação mesmo, nada. Nada, nada. No máximo, empanam, fritam, batizam de fritters e servem nadando no custard, ou creme de ovos (aí sim, uma iguaria insuperável inglesa). Mariolas ou bananinhas? Nem pensar. E paremos por aqui. Uma coisa curiosa. Dar banana, como damos nós, ou, com incomparável eloqüência, feito nossos primos-irmãos italianos, nem pensar. Estão por fora. Pode sair por Leicester Square distribuindo bananas descansado que ninguém lhe atacará com garrafada ou faca, esta última uma modalidade desfrutando (sem jogo de palavras) de grande popularidade no momento por estas bandas. Bananosas e embananados Também são meio ingênuos, os ingleses. Não perceberam na banana, apesar de sua forma e aspecto, a vocação e evocação para a malandragem e a safadeza. Só as almas mais afoitas deste clima atrevem-se a pensar, quiçá falar, em “símbolo fálico”. Falta de cintura. Nunca lhes passaria pelas cabeças (hmmm), nem mesmo à mais ousada e debochada banda metaleira, tacar ficha em letra maliciosa. E, atenção, foram ingleses que compuseram a musiquinha original de Yes, we have no bananas, que nosso querido Braguinha, o João de Barro, plagiou com a maior cara de pau (hmm, de novo) contribuindo assim para liderar nosso infindável repertório de marchinchas picantes (hmm, por fim) em carnavais que se foram. Vocês manjam. “Banana, menina, contém vitamina, banana engorda e faz crescer..”. Para eles, o original era uma troça com os vendedores, italianos quase sempre, que não dominavam o idioma de Paul McCartney e Martin Amis. Nem dá, nem eu teria coragem, de enfileirar, nestas linhas, todas as marchinhas “maliciosas” ou caindo de saudável humor nas décadas em que ainda se compunha para o carnaval. Eu sinto falta de uma boa banana. No bom sentido, claro. Eles, os ingleses, não sabem o que estão perdendo. Em todos os sentidos. |
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