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Atualizado às: 14 de fevereiro, 2008 - 08h39 GMT (06h39 Brasília)
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Vitória sem raça
Raça. Não toque neste assunto!

Desde novembro de 2006, quando Barack Obama reuniu um pequeno grupo de assessores e amigos para discutir a possibilidade de sua candidatura, a questão racial foi levantada e eliminada da pauta.

Quem conta com minúcias preciosas é a jornalista Ginger Thompson. Durante a reunião, um advogado perguntou: como lidar com a questão racial?

Obama explicou que tinha conquistado o Senado em Illinois com votos de brancos e negros sem nunca levantar a questão racial. Em menos de 5 minutos o assunto estava encerrado.

E abafado ficou até 14 de janeiro, quando Hillary e Obama trocaram acusações no debate em Las Vegas. Cada um acusava o outro de injetar raça na campanha.

Houve só dois outros episódios raciais que mereceram maior destaque. Num deles, Hillary Clinton teria sugerido que o presidente Johnson foi tão importante quanto Martin Luther King na aprovação do Ato dos Diretos Civis de 1964. Diante da gritaria, Hillary disse que as palavras dela foram distorcidas.

Noutro, muito mais conseqüente, o marido Bill Clinton comparou a campanha de Obama com a de Jesse Jackson e disse que a mulher ia perder na Carolina do Sul por causa do voto negro e das instigações da mídia.

Foi um dos motivos que provocou o rompimento com o senador Ted Kennedy, afastou eleitores da mulher e sujou a aura de ex-presidente que Clinton usava com tanta competência, esperteza e até dignidade.

Além de Iowa, Barack Obama ganhou em outros Estados sem negros como Utah, Idaho, Nebraska e, mais importante, na Virgínia ele conseguiu romper a barreira demográfica e ganhou entre os velhos, os brancos, a população de baixa renda, as mulheres e ate latinos, um eleitorado que sempre favoreceu Hillary.

O plano de manter raça fora da parada contraria vários líderes negros, mas até agora funcionou.

É impossível prever a lama republicana caso Barack seja o candidato democrata, mas pode ter certeza que vai haver implicações e conexões raciais.

Minha impressão é que os americanos estão prontos para um candidato negro, um progresso invejável e extraordinário nos últimos 60 anos.

Vale lembrar um precioso e importante episódio desta luta que envolveu um presidente raramente lembrado pela sua contribuição na questão dos direitos civis e que teve a audácia de falar em racismo no sul, quando e onde o assunto dava choque.

Em 1970, Jimmy Carter era candidato a governador da Geórgia e tinha amigo judeu, grande, careca, milionário que só andava de macacão e cercado de amigos negros.

Naquela época, chamava atenção no mau sentido. O nome dele era David Rabham.

O amigo tinha um avião e carregava Carter pelo Estado inteiro para seus comícios.

Num vôo os dois motores pararam e o Cessna 310 embicou a toda. Jimmy Carter sacudia e gritava no ouvido do piloto que parecia desmaiado.

Era fingimento. Ele ligou a gasolina e aprumou o avião, mas o candidato e seus assessores ficaram furiosos e sugeriram a Carter se livrar do maluco apesar dos favores e dos dólares que contribuía para a campanha.

O candidato não gostava de romper com amigos, mas acabou concordando - desde que fosse uma separação amigável. Perguntou ao seu piloto milionário:

- Você nunca me pediu um favor. O que você quer de mim?
- Quero que no seu discurso de posse você diga que chegou a hora de acabar com a discriminação racial no sul.

O vice de Carter era Lester Maddox, dos racistas mais radicais da época. Para o candidato, uma declaração destas podia ser um salto mortal político.

Carter prometeu sem levar muito a sério, mas seus assessores ficaram lívidos quando souberam do acordo. No dia da posse, ao lado de Maddox, para assombro geral, Carter cumpriu a promessa.

Foi capa da revista Time com o título Um Novo Dia Está Chegando no Sul e os editorialistas do Times o elegeram “Campeão do Novo Sul”.

David Rockfeller mandou um convite para Carter ser membro da prestigiada Comissão Tri Lateral. A partir daí, ele fez as conexões políticas, corporativas e com a elite da mídia que o levaram à Presidência em 76.

Arquivo - Lucas
Leia as colunas anteriores escritas por Lucas Mendes.
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