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Atualizado às: 19 de fevereiro, 2008 - 09h44 GMT (07h44 Brasília)
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Para historiador, Fidel passou de 'libertador a ditador'

Fidel Castro
Fidel Castro é um dos principais personagens políticos do século 20
O líder cubano Fidel Castro teve uma trajetória política semelhante à de líderes latino-americanos do século 19, como José de San Martín e Símon Bolívar, na opinião do historiador argentino Jose García Hamilton.

Assim como os dois "libertadores da América", Fidel tentou se eternizar no poder depois de ter liderado uma campanha de libertação, diz Hamilton, autor de livros sobre Bolívar e San Martín.

"San Martín e Bolívar chegaram ao poder graças à libertação dos povos, mas depois tentaram se perpetuar no cargo."

Para o historiador, Fidel "virou um ditador pior do que seu principal inimigo, Fulgêncio Batista", em referência ao líder do regime derrubado pela Revolução Cubana. A diferença, continua Hamilton, é que Fidel bateu recorde de tempo no poder.

"Nenhum deles, nem mesmo Franco, permaneceu tantos anos na Presidência", afirmou, referindo-se ao general espanhol Francisco Franco, que governou a Espanha entre 1939 e 1975. San Martín, libertador da Argentina, do Chile e do Peru, exerceu sua liderança entre 1812 e 1826. Bolívar esteve cerca de 20 anos no poder em uma trajetória similar que foi de 1810 a 1830.

Com o anúncio de sua renúncia nesta semana, Castro encerrará quase cinco décadas no comando da política cubana.

Fidel e 'Che'

O historiador acredita, no entanto, que, ao menos inicialmente, Fidel Castro "libertou" Cuba da ditadura de Batista.

"Naquele momento, suas ações foram vistas com bons olhos pela comunidade internacional", disse. Foi logo depois, lembra Hamilton, do início de mudanças na política de diferentes países da região.

Getúlio Vargas se suicidou em 1954, Perón foi derrubado do poder em 1955, por uma revolta militar, Perez Jímenez, na Venezuela, caiu em 1958, e Fidel tomou o poder, em Havana, em 1959.

Já o historiador e psicanalista Pacho O'Donnell, autor da biografia Che sobre o ex-guerrilheiro argentino Ernesto "Che" Guevara, prefere não fazer comparações entre personagens de diferentes períodos históricos, mas diz acreditar que o paralelo mais próximo seja o próprio ex-companheiro de revolução.

A diferença entre Fidel e Che, que estiveram unidos na decisão de derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista, em 1959, está, segundo O'Donnell, no fato de "o cubano ter apostado na política, e o argentino, na epopéia”.

Ou seja, um entrou para a história e o outro virou mito – o rosto de Che Guevara está, por exemplo, nas passeatas e protestos de várias partes do mundo, representando o desejo de igualdade social.

O'Donnell recorda que foi Raúl Castro quem apresentou Che Guevara a Fidel Castro, como contou o próprio ex-guerrilheiro argentino em uma carta enviada a sua família, em julho de 1955, quatro anos antes da queda da ditadura de Batista.

"Guevara e Raúl Castro representaram, no início, o setor mais radicalizado da Revolução Cubana. Eles eram os únicos que se reconheciam, publicamente, como marxistas", recordou.

'Autoritarismo'

García Hamilton entende que Fidel também se diferencia de Símon Bolívar e José Martín por ser o único a deixar o irmão no poder.

Raúl Castro está no poder na ilha desde meados de 2006 e tem chances de permanecer no posto após as eleições da Assembléia Nacional, no próximo dia 24.

Ele cita, no entanto, três outros casos de nepotismo na história recente da América Latina. François Duvalier, no Haiti, deixou o cargo para o filho, Jean Claude Duvalier. A cadeira de Anastasio Somoza, na Nicarágua, foi ocupada pelo filho, Luis Somoza. Na Argentina, o ex-presidente Juan Domingo Perón morreu no cargo, deixando a Presidência para sua mulher, Isabel Perón.

Tanto Hamilton como O'Donnell reconheceram que o líder cubano, a despeito da opinião que se tenha sobre ele, é um dos principais personagens políticos da América Latina – e talvez do mundo - no século 20 e início do século 21.

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