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Viva São Paulo 454ão! | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
No dia 25 da semana passada, fiquei sabendo, via folhas paulistanas, que a cidade, naquela data, comemorava 454 anos. Eu, um paulistano distante, vos mando parabéns. Ê, São Paulo terra boa. Ê, São Paulo da garoa. Gostaria de abraçar um por um de vossos 11 milhões de habitantes, mesmo os que chegaram ainda ontem do norte, e, não importa de onde, sempre chamamos de “baianos”, talvez devido à sua graça e veneno. Vossos trabalhos de manutenção preventiva, paulistanos, vossas conquistas e mudanças, são motivos de justo orgulho. Deixei muito cedo, e agora é tarde para lamentar, a terra de meus pais, avós, bisavós (não canso de bater no peito e proclamar para o mundo que meu bisavô Júlio Ribeiro desenhou a bandeira do Estado), tataravós etc. Corre na família o boato de que descendemos de Braz Cubas, fundador de São Vicente ou Santos, não estou certo, mas tenho a certeza de que este acabou vendo a luz e se mudou para a cidade de Pinheiros, Jardins e Vila Mariana, tidas por todos os técnicos paulistas em habitação e qualidade de vida como as melhores regiões da São Paulo 454ona. Não há muito motivo para orgulho. Braz Cubas foi apenas grumete. Mas tinha um jeito danado para fundar cidades, ao que parece, e virar personagem de Machado de Assis. Nossas terras, nossas almas O futuro é hoje e aí. Aproveitem, paulistanos. Não chorem a minha ausência. Na verdade, há um pouco de mim na Brigadeiro Luís Antônio, na Alameda Casa Branca, na Tutóia, na Capote Valente, na Cardeal Arcoverde. De tudo fica sempre um pouco, percebeu o poeta. Um pouco algures, um pouco em Londres. Um pouco. Muito pouco. Mas fica. Quatrocentão Em agosto de 1954, participei das comemorações do Quarto Centenário da cidade. A cidade tinia. O Parque do Ibarabuera zunia. São Paulo recebia seus filhos de braços abertos, tratava bem seus filhos, mesmo que estes tivessem ido embora aos 7 anos de idade e só tivessem voltado para as férias para ver a parentada, brincar com os primos, comprar livros e discos no centro, sanduíches baurus e frapés de coco na avenida São João e ir a cinema após cinema: Pedro II, Cinemundi, Santa Helena e Paraíso. Deixar, nas férias de verão, o Rio para um mês de São Paulo, era necessário muito, mas muito mais do que Drummond achava que sobraria. Grandes emoções no avião que me levava a Congonhas, que, na época, funcionava direitinho e era um grande programa para os pobres paulistanos, aos domingos, irem lá ficar vendo o mais pesado que o ar subir e descer. Direitinho, sem desastre. Ainda, em sempre, 1954. Aquela música, São Paulo Quatrocentão, sou capaz ainda hoje de assobiar mais de 4 compassos. Fui ao Parque do Ibirapuera e tudo admirei. Mas gamei mesmo ficar de cabeça para baixo e imprensado nas paredes do “Rotor”. De tudo fica sempre um pouco. Às vezes, um moço centrifugando. Fundações aniversários Acho justíssimo comemorar a data. Claro, que, em minha ignorância (a culpa é de nossos padrões antigos e atuais de ensino), eu achava que o processo de ocupação e exploração das terras hoje ditas brasileiras, do qual participaram padres da Companhia de Jesus, entre eles José de Anchieta e Manoel da Nóbrega (morei nele, quando me mudei da Tutóia), que, após escalarem a serra do mar, chegaram ao planalto (daí o apelido vosso) de Piratininga onde encontraram “ares frios e temperados como os de Espanha”, além do que “uma terra mui sadia, fresca e de boas águas”, segundo alfarrábios dos mais fidedignos. A localização topográfica do que viria a ser São Paulo também era perfeita: situava-se numa colina alta e plana, cercada por dois rios, o Tamanduateí e o Anhangabaú, que o gato comeu, ou bebeu. Pois foi nesse lugar aprazível, sempre segundo os tomos autorizados, que em 25 de janeiro de 1554 foi fundado, pelos dois padres acima mencionados, o Colégio dos Jesuítas, ao redor do qual iniciou-se a construção das primeiras casas de taipa (acho que um tio meio aloprado morou numa casa de taipa por uns tempos) que deram origem ao povoado de São Paulo do Piratininga. Portanto 1: a fundação de São Paulo em nada lembra aquela que Jorge Luís Borges inventou para Buenos Aires. Houve mesmo. À queima-roupa. Portanto 2: estavam certos em 1954 quando comemoraram com todo fuzuê possível o quarto centenário da cidade. Portanto 3: que é que esses caras têm na cabeça para celebrar 454 anos de idade? Por que não comemorar os 454 anos em 13 de julho deste ano? Ou 453 anos no 29 de novembro do ano que passou? E por que não, ainda, comemorar os 454 anos e 6 meses em 25 de julho de 2008? Ou 456 anos no carnaval de 2010? Conclusão É feito a fábula do gafanhoto: um comeu um e o outro comeu o outro. Ou, em outras palavras, é dicotomia após dicotomia, é maniqueísmo após maniqueísmo. Quem não entender que comemore 379 anos de existência. 379 também é um número tão charmoso quanto 454. |
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