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Atualizado às: 16 de janeiro, 2008 - 09h10 GMT (07h10 Brasília)
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De milionários, miseráveis e calções de banho
Ivan Lessa
Nem sei por onde começar. No Brasil de meus tempos, aqueles do Onça, tinha um cinejornal com o título de "Notícias da Semana". Vontade de, nostalgicamente, como é de meu feitio, ir nessa.

O certificado de censura qualificava invariavelmente como de "boa qualidade", tal como sucedia com nossos filmes e documentários e gentes no poder.

Continuamos a assim classificar. Nos bares e na mídia. Tá lá, ao lado do corpo estendido no chão, a notícia pregada nos postes: Brasil ganha 60 mil novos milionários por ano. Um bom começo de papo.

A nota se baseia em levantamento de The Boston Consulting Group. E se é de Boston é bom. Podes crer, conforme afirma o grupo.

Foram entrevistados gestores (eu tive um gestor, mas morreu logo) de fortunas de 111 instituições financeiras em 60 países.

Para o BCG (não, nada a ver com vaca louca), a fortuna desses milionários está estimada em aproximadamente US$ 675 bilhões. Praticamente metade do PIB brasileiro. Cito um jornal brasileiro que deixo anônimo pelos motivos óbvios de sempre.

Houve, pois, de 2006 para 2007, uma expansão de 46,1% na listagem milionário tupiniquim. Tupiniquim. Como gente que escreve mal gosta de escrever tupiniquim.

Sim, mas, afinal, quem ou o quê é um milionário? Já pertenci a um ou dois milionários brasileiros e, tal como aconteceu com meu gestor, morreram sem me deixar blicas. Não foi uma experiência bacanérrima.

De minha parte, pois, há uma tremenda má vontade com nossos milionários, sejam lá quem forem. Um milionário, segundo um funcionário graduado do grupo de Boston, é todo camaradinha que tiver mais de US$ 1 milhão aplicado no mercado financeiro.

Não sou e não serei nunca um milionário. Pouco me importa um índice de expansão. Sou e serei sempre, como o Álvaro de Campos, aquele da mansarda. Come chocolates, pois, pequena suja. Come chocolates. Antes que um milionário venha e te leve.

Antes de passar para o próximo item, sugiro a construção civil como o melhor investimento para meus 2 leitores milionários, cujos nomes deixo no anonimato, como de hábito, assim como com quase tudo que me diz respeito.

Ah, sim. O fortalecimento do agronegócio em nosso Centro-Oeste e os negócios relacionados à produção de álcool, na região Sudeste, fizeram milionários a granel.

Granel, bem trabalhado, também pode dar um dinheirão. Sugiro cereais e carvão para o investidor impotente. Ou em potencial, conforme preferem outros.

A valorização do real e os delicados (oh, que mãos!) investimentos estrangeiros diretos também contribuíram em muito para esse estupendo estado de coisas.

A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) continuou em ritmo acelerado de expansão. Isso, apesar de constituir o mais horrendo acrônimo do mundo, gerando fortunas mas destroçando os ouvidos afinados de todos aqueles que criaram, difundiram ou seguiram os preceitos da cinquentona bossa-nova.

Mais 30 mil milionários e a Bovespa deverá mudar seu nome para algo mais decente. BVSP, por exemplo.

Uma perguntinha

Vem cá, tudo bem. 60 mil novos milionários fazendo fila na porta de restaurante italiano pretensioso nas grandes urbes de nosso grandioso país. Eu quero saber uma coisinha só: quantos novos miseráveis o Brasil ganhou, ou fez, no ano que passou?

Não acredito no número que circula entre os membros de rodas exclusivas, portadores todos, inclusive, de sapatos, tênis ou havaianas (fajutas) nos pés. 150 mil novos pobres por mês me parece um pouco por sobre o exagero. 75 mil, ainda vá.

Outra perguntinha

Muito bem, eu deixo o Brasil em paz. Contanto que ele me deixe em paz. Basta parar com esse negócio de fazer jornal e mandar para as bancas e/ou Internet. Parto agora os "infantes da pátria", como gostam de se apelidar os franceses.

É Sarkozy pra cá, Sarkô pra lá, Carla Bruni aqui, Carlota Brunona acolá. Se casaram ou não em segredo é problema deles e das paupérrimas colunas sociais.

Se o verdadeiro pai da já quase primeira-dama francesa é brasileiro e cozinheiro de um desses restaurantes que eu acabei de mencionar acima, não me faz a menor diferença.

Eu gostei de duas coisas. Primeiro, ver uma foto do pequeno gigante Nicolas de calção de banho ao lado da noiva/esposa. Menino, vou te contar! Puro 1947. Leme. Onde ficava o ponto final de um ônibus que vinha lá de um subúrbio cujo nome ninguém ouvira falar ou se lembra.

Saltava mocorongo para brincar de croquete que não era brincadeira. Tudo com um calçãozão tipo Sarkosy 2008. De debaixo do umbigo até quase o joelho. Tão pequenino de calção tão grande. Bacanérrimo. Truc sensas, como dizem os poliglotas remediados ou milionários franceses.

Mas o que me invocou mesmo foi o que li numa reportagem publicada no Sunday Times de domingo, dia 13 do corrente. É, esse eu dou o nome. São gringos, coitados.

Entre várias considerações desnecessárias, lá estava: "Sarkosy é o primeiro presidente francês a suar em público". Juro "pra" Deus. Minha mente é malsã – bem sei, todos sabem –, mas eu seria incapaz de inventar uma imbecilidade dessas.

Conclusão

Por favor, uma ajudinha aqui. Me expliquem tudo isso. Não precisam, nem devem, escrever. Basta uma elucidação em voz bem alta. Vocês sabendo, eu adivinharei. Eu e meu coração sofredor.

Arquivo - Ivan
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