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Os hinos e suas letras | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Há vários tris, tetras e pentas brasileiros na Copa do Mundo que, tendo a Espanha jogando, eu fiz uma observação sagaz: naquela hora em que as equipes se perfilam e uma banda executa, no bom sentido, os hinos nacionais dos dois adversários, os espanhóis, na vez deles, deixavam tubas e trombones se virando e não abriam a boca. Tremenda desfeita para todos. Para mim então, nem se fala. Uma das coisas que mais aprecio numa partida de Copa entre seleções é a hora dos hinos, quando a câmera acaricia em close o rosto duro daqueles que estão prestes a vencer, perder ou empatar de zero a zero. Os espanhóis? Nada. Boca fechada. Repúblicas dos Camarões, Iraque (não juro), Equador, todos esses países tinham em seus players vigorosos intérpretes de seus hinos pátrios. Quanto menor o país e reunindo menos qualidades futebolísticas, mais entusiásticas as interpretações. Já que estamos no meio-campo das generalizações, qualidade de letra e música também não bate, com pé direito ou esquerdo, com os chamados paisões. Vide, ou "oude", os hinos dos Estados Unidos, da Alemanha, da Argentina e – com o temor de quem conheceu mais de uma ditadura – até mesmo do Brasil. Sejam, sejamos, sinceros. Tremendo besteirol, certo? A música? Salva-se uma ou outra. Principalmente a Marselhesa, que comoveu até mesmo Humphrey Bogart em Casablanca, embora o danado tenha moitado sua paisagem interior. Por falar em paisagem interior: hino nacional lembra bastante, em matéria de letra, a aniversariante do ano, a minha, a sua, a nossa bossa-nova. Timtim, estimplim, plift, plaft, fiu!, sal, céu, sol, sul, esses barquinhos e lobos bobos todos. Confere? Mesmo o lesanfã (é La Marseillese, pô!) não está com tudo e prosa. O silêncio espanhol se entende. Como é que uma raça, a castiana, que dá ao mundo Eclipse, La Puerta, Sabor a Mi e Venganza, pode enfiar o galho dentro na hora de hino pátrio? Tudo se explica e assim me explicaram. Mistério desfeito Seguinte, meus bonecos: desde a queda, por morte acidental, do generalíssimo, e marechalíssimo também, Francisco Franco, tremendo caudilhão, em 1975, que o Hino Nacional Espanhol desletrou-se. Fizeram bem. A música original datava de 1761, de autoria desconhecida, e a letra só foi colocada (também não havia futebol ou competição atlética antes disso) em 1886. Passou a se chamar La Marcha Real e o nome do insigne letrista era, até onde se sabe, um certo señor Eduardo Marquina, que não deu parceria a ninguém, pois não era bobo e o negócio prometia. Ledo engaño, como dizem certos boleros do século passado. Cantou-se a pulmões abertos e os direitos autorais ficaram por isso mesmo. A Marcha Real começava assim: "Gloria, gloria, corona de la Pátria, E paro por aqui antes que eu pegue um processo. Besteira e besteira da grossa. Mesmo que o hino remonte a reinado de Afonso XII. Afonso XIII não teve. Teve, isso sim, na tal década de ouro do bolero latino-americano, a de 30, o já citado e classificado Francisco Franco ascendendo ao poder em 1937 depois de uma sangrenta "revolução" (frisada e aspeada, feito nós fazemos com as nossas). Rei morto, milico posto, mude-se a letra. Mudaram. Cortesia de don José Maria Pernán, que evidentemente não era um Agustín Lara ou Maria Grever, se sabem (e vocês não sabem) a quem me refiro (compositores de música e letra mexicanos; maravilhosos os dois, pombas!). A coisa virou Viva España entre exclamações, uma de cabeça pra baixo, envergonhada, outro de cabeça pra cima, altaneira. Castelhanismos. Atentemos para as linhas iniciais, que sempre dão a deixa (conferir e comparar com "Ouviram do Ypiranga às margens plácidas...", et cetera e tal): "! (de cabeça pra baixo) Viva España! É. O cara achou tão bão que mandou bisar o último versículo. Quero crer desnecessária uma tradução. Todos nós, até o João Gilberto, pegamos, e somos capazes de reproduzir, até um certo ponto, a letra de Una mujer, confere? O que interessa é o colapso da mudez hinária e sua subsequente cantação e, quiçá, encantação. Hino novo em la plaza A nova letra, que já começa a ser cantada mesmo em treino de time da segunda divisão espanhola, me asseguram os falsos amigos, é da autoria de D. Paulino Cubero e cito apenas as três primeiras linhas iniciais da música original de 1761. Cantem comigo, inventando uma série de notas de vossa própria imaginação doentia, que isso tanto faz, já sabemos: "! (exclamação de cabeça pra baixo, como sempre) Sim, sim. O "viva" inicial pegou mal, entre certas camadas exigentes, por lembrar a época franquista. Pegou tão mal que as devidas autoridades optaram por deixá-la no banco dos reservas. Continuarão, pois, até nova letra (manéra, Cubero), os seletos jogadores da seleção espanhola de lábios cerrados e ouvidos abertos. Vejamos, ou ouçamos, agora, o que vem por aí. Conclusão O mundo se renova e se adapta às novas condições, minha gente. Vamos homenagear o niver da bossa-nova e pedir a uma das sumidades que sobraram – e são muitas, graças a Deus – letra nova. Algo em cima do "Bim bom" do João não pegaria mal. Um virundum caprichado. Esqueçam a batida irreproduzível. O importante é cantar. Bim, bom, bim, bom, bim, bom... E por aí afora. |
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