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Atualizado às: 27 de agosto, 2007 - 10h57 GMT (07h57 Brasília)
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'Katrina tours' conquistam turistas em Nova Orleans

Local onde ficava casa varrida pelo Katrina (foto: Bruno Garcez)
Paisagem típica de um 'Katrina tour': destroços e desolação
Casas abandonadas, residências das quais só restam os alicerces e ruas fantasmas estão entre os principais destinos turísticos de Nova Orleans, onde passeios que visam mostrar os destroços causados pelo furacão Katrina estão entre os mais disputados das agências turísticas da cidade.

A tempestade tropical, que completa dois anos nesta quarta-feira, deixou 80% da cidade inundada, danificou mais de 200 mil casas e matou milhares de pessoas.

Mas apesar dos esforços de reconstrução na cidade, o interesse pelos rastros da destruição do Katrina ofusca o apelo das várias atrações turísticas de Nova Orleans, tida como o berço do jazz.

A empresária francesa Isabelle Cossart, proprietária da empresa Tours by Isabelle, oferece desde 1979 passeios pelas áreas turísticas da cidade, como o quarteirão francês e a ponte Causeway, a maior do país, bem como expedições pelos pântanos da Lousiana, onde turistas podem ver e tocar filhotes de jacaré.

Ela conta que os pacotes tradicionais perderam espaço para a tour pelas áreas devastadas pelo Katrina.

"No ano passado, 73% dos pacotes que eu vendi foram para as áreas devastadas pelo Katrina. Comecei a levar turistas para essas partes da cidade ainda em setembro de 2005, um mês depois do furacão. Eu não queria, mas 99% das pessoas querem ver a destruição de perto. É a natureza humana. As pessoas gostam de ver desastres", afirma Isabelle.

Barbara Robichaux, outra empresária da área turística em Nova Orleans, conta que o número de visitantes que querem ver os destroços causados pelo furacão excede em muito o de interessados em conferir as belezas e a história de fazendas do século 18, por exemplo, nos arredores de Nova Orleans.

"Em 2006, 60% dos turistas queriam fazer turnês ligadas ao Katrina, e 40% optaram pelos demais pacotes. Neste ano, a cifra para as viagens do Katrina ainda não atingiu essa marca, mas ainda há quase seis meses para o ano acabar, então tudo pode mudar."

Local onde ficava casa varrida pelo Katrina (foto: Bruno Garcez)
A estátua da Virgem é o que restou desta casa em Nova Orleans

Segundo a guia turística Muriel Aveline, que trabalha para a Tours by Isabelle, a reação dos moradores às turnês pós-Katrina é de extremos.

"Alguns aplaudem a iniciativa e dizem: 'Isso mesmo, vocês têm mais é que mostrar isso para o mundo', mas outros ficam indignados, acham que estamos explorando a miséria alheia."

Exaltação

Reações mais exaltadas de moradores fizeram inclusive com que a companhia tirasse de seu roteiro um dos bairros mais afetados pelo furacão, a região conhecida como Lower Ninth Ward, a área conta com quilômetros de casas abandonadas e em destroços.

Como a área deixou de ser atendida pelas agências turísticas, motoristas de táxi começaram a promover passeios informais pela região, cobrando valores que vão além do descrito no taxímetro.

Em certas partes, os únicos sinais de que já houve uma casa no local são ou os alicerces ou o portão - resquícios de casas que foram, literalmente, varridas pelo Katrina.

"Pelo menos uma coisa esses tours têm de positivo. Eles despertam consciência nas pessoas. Eu já levei engenheiros, médicos da Cruz Vermelha, pessoas que queriam fazer algo em defesa dos atingidos pelo Katrina", afirma Isabelle Cossart.

A postura dos guias turísticos é outro diferencial das turnês pós-Katrina. Em vez de destacar feitos de homens públicos locais ou nacionais, eles preferem chamar atenção para a suposta corrupção dos políticos de Nova Orleans e do que julgam ter sido pouco caso do presidente George W. Bush para com as vítimas do furacão.

 Comecei a levar turistas para essas partes da cidade ainda em setembro de 2005, um mês depois do furacão. Eu não queria, mas 99% das pessoas querem ver a destruição de perto. É a natureza humana. As pessoas gostam de ver desastres.
Isabelle Cossart, agente de turismo

A guia Muriel Aveline provoca risadas dos turistas que conduz em sua van, ao falar sobre os bilhões de dólares que desapareceram misteriosamente, mas que haviam sido originalmente destinados para obras de reconstrução.

Já Barbara Ribochaux compartilha com os visitantes sua amargura para com Bush.

"Ele diz que vai reconstruir a cidade, mas quando? A reconstrução que está ocorrendo é só nas partes ricas. O que é gasto em dez dias no Iraque já seria o suficiente para levantar Nova Orleans. Mas tudo continua um caos."

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