BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
Atualizado às: 18 de junho, 2007 - 09h14 GMT (06h14 Brasília)
Envie por e-mailVersão para impressão
Eu Sei Tudo
Ivan Lessa
Exatamente. Já houve no Brasil uma revista chamada Eu Sei Tudo.

Começo do século passado, ainda há pouco. O século XX, lembra? Ou 20, para os menos versados nas convenções tradicionais, entre as quais podemos incluir os algarismos romanos.

Para variar, começo me desviando do assunto. Todo assunto deve ter desvios súbitos. Assim como entrar com o carro numa rua e descobrir que ela está fechada para obras.

Viver sem o inesperado não é viver. Eu sei disso. Eu não sei tudo. Um tico de nada. E só. Ao contrário da revista, a Eu Sei Tudo. Viram como eu sei dar ré e engatar depois uma primeira para procurar outra via?

Eu Sei Tudo era um “magazine mensal ilustrado”, conforme ele próprio se anunciava. Masculino pois. Acho que na época “ilustrado” se escrevia com dois “ll”. Assim: “illustrado”. Fazia muito mais sentido.

O magazine esse acabou. Sua missão deve ter sido completada lá pelos anos 50 ou 60, quando fomos, primeiro, campeões do mundo, e, depois, uma década e tanto passada, criadores e espalhadores de coisas novas: bossa nova e cinema novo. Uma gente nova, sabedora de tudo, espalhando, além de enquadrações dúbias, classe, poesia, rítmo e melodia pelo mundo afora, coitado.

Vai ao assunto, cara!

Não sei quem disse isso, mas vou ao assunto. O magazine mensal cumpria a função de saciar uma milenar sede da humanidade. A sede do conhecimento.

Somos curiosos. Abelhudos. Metidos a besta. Não fosse nossa curiosidade e não teríamos chegado nem à Lua nem ao Iraque.

A revista acabou sem saber nem um milésimo do que constitui esse proverbial "tudo". Imaginem tentar explicar ao editor-chefe do Eu Sei Tudo que, se ele tivesse um pouco mais de paciência, ou a vendagem da publicação fosse mais saudável, ele e os leitores poderiam se beneficiar das benesses (a aliteração é privilégio dos vivos) da informática, dessa eletronação toda em que vivemos.

Coitado do passado. Não sabia de nada. Não sabia de Google. Não sabia da Wikipédia.

Como? Wikipédia?

Não sei quem está me interrompendo, cortando meu discurso ao meio, abrindo parágrafos, distribuindo subtítulos. Talvez o espírito do último editor do Eu Sei Tudo, despeitado e rancoroso em seu além, sua pós-vida.

Em todo caso, todo mundo conhece a Wikipédia, essa enciclopédia do leitor, onde todo mundo pode ficar sabendo tudo de tudo graças ao conhecimento de todo mundo. Isso. A enciclopédia do internauta, que vai lá ele mesmo e escreve o verbete. Ou corrige os verbetes iniciados e continuados por outros.

A Wikipédia (wiki é “rápido” em havaiano) é democrática. Como todo democracia tem besteira que não acaba mais. (Sejamos francos quanto a democracia. Confiram a palavra na Wiki – um apelido carinhoso – e constatem.) Eu mesmo que fui procurar meu nome nela, feito tout le monde, descobri engano clamoroso e com a maior sem-cerimônia entrei no verbete e corrigi o dia do mês de meu nascimento. Sou de 9 de maio e não 10 de maio. Essas coisas são importantes.

Agora, vejam vocês. Eu poderia entrar lá e botar o que quiser. Que eu era (ah, os prazeres da primeira pessoa do singular!) jovem, alto, belo e de invulgar talento em diversas artes, literárias e marciais.

Os tolos responsáveis pela Wikipédia confiam na honestidade e bom senso do internauta. Meus queridos Wikis: foi precisamente assim que, conforme se dizia na época do Eu Sei Tudo, Napoleão perdeu a guerra.

Tentativa de virar o jogo

Expostas essas fraquezas da Wikipédia, seus organizadores optaram agora por uma parceria que ofereça mais segurança em termos de elucidação: a citizendium.org.

O compêndio do cidadão, mas, como o falecido João Saldanha, “rrrealmente técnico”. Googlem lá e confiram. É uma Wiki mais cuidada, com seus verbetes conferidos por peritos. Tentei “life” e “truth” (a citizendium só fala inglês) e... claro, deu-se o inevitável: o pouco que eu li da Eu Sei Tudo, em exemplares adquiridos em sebos, me explicava muito melhor muito mais coisas.

Resumindo e encerrando: a vida e tudo que podemos saber dela acabou, já tendo sido escrito e lido no século passado. E esquecido também, pois esse é nosso hábito e condição.

Arquivo - Ivan
Leia as colunas anteriores escritas por Ivan Lessa.
NOTÍCIAS RELACIONADAS
A oitava maravilha
15 junho, 2007 | BBC Report
'Modiáticos' vão ao fruteiro
13 junho, 2007 | BBC Report
Odores do verão
11 junho, 2007 | BBC Report
Britanicidades
08 junho, 2007 | BBC Report
Falta um gene ninóis
06 junho, 2007 | BBC Report
Como ser britânico
04 junho, 2007 | BBC Report
Achados e perdidos no espaço
01 junho, 2007 | BBC Report
Vão todos para o inferno!
30 maio, 2007 | BBC Report
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Envie por e-mailVersão para impressão
Tempo|Sobre a BBC|Expediente|Newsletter
BBC Copyright Logo^^ Início da página
Primeira Página|Ciência & Saúde|Cultura & Entretenimento|Vídeo & Áudio|Fotos|Especial|Interatividade|Aprenda inglês
BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
Ajuda|Fale com a gente|Notícias em 32 línguas|Privacidade