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Antes da Páscoa | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Os dias que antecederam a Páscoa, aqui no Reino Unido, foram pródigos em eventos ardilosos. Foi como se o coelhinho da Páscoa tivesse tido um troço e saído por aí distribuindo manhosos acontecimentos. Sucede que o espírito pascal, ou leporídeo, se preferirem, também se apossou de mim e, em minha mente já conturbada e ao longo de meu corpo combalido, deixou seus ovinhos, não de chocolate, conforme o velho protocolo e configuração, mas sim de loucura, de mal entender, de besteirol, para trocarmos em miúdos dois eventos que ainda não consegui decifrar direito. Ou mesmo esquerdo, central e líbero. Por ordem A primeira notícia no jornal aberto de minha mente malsã informava que 15 marinheiros britânicos haviam sido capturados pelos iranianos por estarem cheirando pó, ou cocaína, como querem os pedantes, em águas territoriais pertencentes ao Irã. Os bravos 15 marinheiros (aliás, 14 marinheiros e uma marinheira, para ser preciso) a princípio negaram o fato de pé juntos, afirmando que as águas territoriais eram do Iraque, portanto alvo legítimo para a prática de intimidades regidas por leis que só dizem respeito aos Estados Unidos, Reino Unido e outros países aliados companheiros de invasão, ocupação e desmandos a mancheias. Com o que não concordaram aqueles que regem os destinos – por quê não dizê-lo? – e os desmandos também da nação que, até agora, ninguém nem nada provou ser nossa amiga ou de boa paz. O programa nuclear iraniano é uma prova de que as palavras do profeta Maomé estão abertas às mais irresponsáveis interpretações, como bem o sabe o escritor Salman Rushdie. Fico, no entanto, apesar da tentação, preso ao assunto a que me pautei -- feito os 14 marinheiros e a marinheirinha -- esses bravos soldados e soldada do mar. “Qual lindo cisne que em noite de lua...” etc e tal, cantarolei acompanhando a indignação dos britânicos, do primeiro-ministro ao meu fisioterapeuta, diante da arbitrariedade dos seguidores de Alá e seu líder, Mahmoud Ahmadinejad. Como é propício à época (chocolate, criançada, coelhinhos, Nosso Senhor Jesus Cristo) tudo terminou bem. Os cisnes da garbosa marinha britânica foram libertados por aquele líder cujo nome foi um inferno para mim digitar há poucas linhas. Tudo como antes no estaleiro de Abrantes. Alguns dos 14, contando inclusive a mocinha, depois da emocional chegada a solo pátrio (pátrio lá deles, pois não?), as lágrimas e os abraços de praxe, seguidos ou mesmo emcimados por discursos de políticos, terão de prestar contas e responder a certas perguntas embaraçosas: afinal, por que raios foram admitir, ou confessar, diante das câmeras de televisão do mundo inteiro, estarem em águas iranianas? Bastava dizer que água é tudo igual, tudo a mesma coisa, ou que a bússola do navio estava derivando para a esquerda, qualquer besteira menos a verdade, pelo amor de Deus! E de Alá também, já que estamos em pleno mundo bilateral e não é para se ofender ninguém. A voz do violão A segunda notícia a captar minha atenção e dos jornais, vocês manjam. O indivíduo Keith Richards, de 63 anos, que se diz músico por profissão (diz que “toca guitarra”), praticando-a em companhia de uma suposta banda intitulada "Rolling Stones", deu uma entrevista a determinada publicação especializada em restos mortais e cinzas (Ashes to Ashes, ou “Do Pó ao Pó”, em tradução semi-literal), afirmando que, em determinada ocasião, sob os efeitos de algo que ele só sabia explicar como “realidade”, injetara os restos mortais de seu pai, Bert, morto em 2002, aos 84 anos, na veia. Para facilitar sua singela e bizarra homenagem, Keith explicou que, as cinzas do pai, misturadas à água distilada, numa proporção de 7 por cento, dissolviam melhor e “subiam” (assim se expressou, segundo consta) melhor. Com um sorriso roqueiro no rosto mapeado por rugas, Keith comentou para a reportagem: “Foi um tremendo barato, num tá sabendo? Onda maior só mesmo em forma de supositório.” No que desisti da Páscoa e me armei para receber à bala o primeiro coelhinho que ameaçar romper com a paz de minha casa. |
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