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Quarto andar: celas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A polícia aqui em Londres deverá instituir um novo conceito no ir às compras: pegar algumas horas de cadeia no estabelecimento comercial da preferência de um malfeitor, ou de uma malfeitora, claro. A notícia circulou semana passada baseada em notas do Home Office, ou seja, do ministério do Interior (que acumula boa parte das funções ligadas à Justiça), que sugere um máximo de 4 horas de prisão na própria loja onde tenha ocorrido a suposta ofensa. A mira é clara: Oxford Street, onde se encontram lojas e mais lojas de departamentos, com destaque para a Selfridges, uma espécie de Meca (perdão, muçulmanos. Sem fatwah, tá?) daqueles que vão às compras e se orgulham, depois, de ostentarem as sacolinhas plásticas amarelas do que se poderia chamar de, com o perdão do Velho Dragão da Rua Larga, "A fera de Oxford Street". Já tiveram início as conversações para a inauguração, possivelmente sem coquetel, de cinco salas (pronuncie "celas") reservadas especificamente para a detenção de… – e é claro que onde li a notícia não vi menção – … de ladrões. De cleptômanos, se quiserem. Cubículos Raramente sai uma briga de canivete ou pancadaria entre bêbados na Selfridges. O que tem, e muito, é gente, até turista de boa origem, surrupiando calcinha, gravata ou motor de lancha. Aquele ou aquela que for pego em flagrante delito irá direto para um dos cinco cubículos a serem construídos e instituídos aguardar uma decisão. Os cubículos são de plástico transparente (Perspex), o que permite uma vigilância policial constante. Ao menos por quatro horas, quando então deverão as autoridades decidir se vão ou não para o xilindró comum, depois de comparecerem diante de juiz ou magistrado. Winona Ryder, que cumpriu, na Califórnia, sentença de 480 horas de serviço comunitário por transgressão semelhante, aqui teria ficado exposta atrás do plástico à curiosidade de policiais e funcionários graduados da Selfridges, talvez dando autógrafos, enquanto os defensores da lei e da propriedade privada se envolvessem em discussões técnicas sobre se seria caso de cleptomania ou apenas malandragem. Com uma diferença: aqui poderiam ter tomado outras liberdades (ou falta de liberdades) com a moça então cativa. A história engrossa Se Winona tivesse sido enjaulada na Selfridges, e quando já vigorassem as novas medidas, a polícia poderia tirar suas impressões digitais e, com aquele palitinho com algodão na ponta, conforme se vê nos filmes, ter retirado de sua boquinha pintada de boa e bela atriz o seu precioso, e só dela, DNA. Grupos britânicos que zelam pelos direitos civis, e que são compostos, até certo ponto, da mesma turma que protesta contra a nova leva de submarinos nucleares Trident, começam a se movimentar, uma vez que as medidas logo deverão se estender pelo resto do Reino Unido. Esses grupos, ou mesmo muita gente que ficou e ficará em casa, com o jornal e a televisão, acha meio exagerado essa intromissão na vida das pessoas só porque, conforme alega o Home Office, a polícia ganharia um tempo valioso sem ter que ir à delegacia mais próxima com a suspeita Winona ou o flagrado Winono. A polícia poderia, por exemplo, ficar atrás de terrorista, não é mesmo? Até sentido, como tudo na vida, faz sentido. E também não faz sentido. Vamos ver ao menos se a Selfridges e outras importantes, e mesmo desimportantes lojas de departamentos, não adotam os métodos empregados pela CIA para extrair as confissões de Khalid Sheikh Mohammed, que vem de confessar sua participação no 11 de setembro de 2001, em Nova York, além de mais 29 planos de atentados ao redor do mundo, segundo informou o Pentágono. Confessou depois de longa temporada na prisão americana de Guantánamo, em Cuba, onde, segundo a imprensa em peso revela, Khalid, além de ficar por trás de um vidro plástico Perspex, passou pelo que no metiê antiterrorista é conhecido como "waterboarding", ou seja, fazer surfe debaixo d´água amarrado a uma prancha e ver quanto tempo o bicho agüenta. Seria exagero, digo eu. Mas isso é só minha opinião. |
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