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Atualizado às: 13 de dezembro, 2006 - 03h34 GMT (01h34 Brasília)
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Corpo de Pinochet é cremado em cerimônia em Santiago

Missa reuniu 3 mil pessoas na Academia Militar de Santiago
Missa reuniu 3 mil pessoas na Academia Militar de Santiago
O corpo do ex-presidente chileno Augusto Pinochet foi cremado nesta terça-feira no cemitério Parque do Mar, em Santiago.

A família optou pela cremação a pedido de Pinochet e para evitar a profanação do corpo. No momento da cremação, somente seus familiares tiveram acesso ao cemitério. Segundo a imprensa chilena, as cinzas foram levadas para o sítio da família, Los Bosques. As cinzas serão guardadas pela mulher do ex-presidente, Lucía Hiriart, de 84 anos.

Antes de ser cremado, a família do general colocou uma faixa presidencial sobre o caixão, durante uma missa realizada na Escola Militar, em Santiago, apesar da decisão do governo de realizar o funeral sem honras de chefe de Estado para o homem que liderou o Chile entre 1973 e 1990.

Pinochet, que morreu no domingo aos 91 anos, é chamado de “presidente” e “ex-presidente” por seus seguidores e de “ditador” e “golpista” por seus adversários e vítimas da ditadura.

Logo depois da missa, o caixão foi fechado diante de mais de 4 mil pessoas e transferido para o “Pátio de Honor” (“Patio de Honra”) da Escola Militar.

Com toda pompa oferecida pelo Exército, o caixão do general foi então levado por um cavalo (sem cavaleiro), respeitando a tradição militar, e cercado por outros cavaleiros fardados.

Cerca de 3 mil pessoas desapareceram e outras milhares foram torturadas durante os 17 anos do governo de Pinochet.

Bandeira chilena

A ministra da Defesa, Vivianne Blanlot, única representante do governo Bachelet, deixou o local assim que a missa terminou e logo após ouvir o discurso do atual comandante do Exército, general Oscar Izurieta, defendendo a gestão de Pinochet, mas comentando que a história julgará as denúncias de violações de direitos humanos.

A multidão que compareceu ao velório de Pinochet se mantinha do lado de fora da instituição militar. “Viva Pinochet”, gritavam. A polícia chilena estima que 60 mil pessoas tenham enfrentado horas de espera – em alguns casos a noite inteira – para se aproximar do caixão de Pinochet.

Na cerimônia militar, Izurieta entregou a bandeira do Chile – que cobria o caixão – à mulher de Pinochet.

Para a oposição e para advogados de direitos humanos, ela e seus filhos deverão responder pelos processos abertos – de direitos humanos e contas bancárias no exterior – em nome do general.

Homenagens

Durante a missa, o bispo militar de Santiago, Juan Barros Madri, se referiu a Pinochet como ex-chefe de Estado e recebeu aplausos dos familiares e amigos do homem que governou o país com mão de ferro durante 17 anos.

O bispo pediu também que o “sacrifício” de muitos não tenha sido em vão e, como já fizeram integrantes do governo, fez um apelo à “união” dos chilenos.

Depois da missa, foi a vez dos discursos dos familiares do general e dos atos dos soldados para o ex-chefe do Exército.

As falas dos familiares foram marcadas por elogios ao regime de Pinochet e por críticas indiretas ao atual governo, hoje nas mãos da socialista Michelle Bachelet, que foi presa durante o governo do ex-presidente.

“A quantidade de gente que veio se despedir do nosso presidente confirma o que ele fez de bem para o Chile. Tudo o que ele fez foi pelos mais pobres. E o que fez não corresponde às palavras usadas pela imprensa para denegrir sua imagem”, disse a filha do ex-general, Lucía Pinochet, uma das mais aplaudidas pelos presentes ao sair em defesa do pai.

Os familiares de Pinochet se referiam a ele como “presidente”, “general” e “Tata” – seu apelido.

Logo depois, o almirante (da reserva) Juan Guillermo Toro disse que o Chile cometeu um erro ao “reescrever” a história, “esquecendo” a situação do país política e econômica do país antes da chegada de Pinochet ao poder.

Opositores do general discordam que ele seja chamado de “ex-presidente”, já que não foi eleito e chegou ao poder, em setembro de 1973, após liderar um sangrento golpe de estado contra o presidente socialista Salvador Allende.

Manifestação de repúdio

Em outro ponto da cidade, na Praça Constituição, em frente ao palácio presidencial de La Moneda, ao lado da estátua de Allende, cerca de 2 mil pessoas, incluindo familiares das vítimas do regime de Pinochet, faziam uma manifestação de repúdio ao general, erguendo fotos das vítimas e cartazes pedindo justiça.

O advogado de direitos humanos Hugo Gutiérrez abriu a cerimônia em homenagem ao socialista derubado por Pinochet em 1973.

Uma das filhas de Allende, Carmen Paz, que participou da manifestação, disse que espera que a Justiça continue a investigar as denúncias contra Pinochet.

"Ainda temos desaparecidos no país e não vamos esquecer esse terrível capítulo da nossa história", disse Julio Ugas, integrante do Partido Comunista.

Assunto nacional

A morte de Augusto Pinochet virou assunto nos bares, lanchonetes e restaurantes de Santiago.

"Aqui no Chile, tínhamos a sensação de que a Justiça adiava, adiava e fazia de tudo para ele não ser julgado e processado", disse o desenhista gráfico Diego Martínez, de 20 anos. "Agora, ele vai ter que se acertar com Deus."

Muitos concordam que a expansão da economia chilena deve-se ao seu modelo – respeitado nos governos democráticos que o sucederam, apesar de o país registrar uma das piores concentrações de renda da região.

Outros lamentam que Pinochet tenha morrido sem responder aos cerca de 300 processos contra ele na Justiça.

Além das 3 mil mortes e desaparecimentos associados ao seu regime, Pinochet também enfrentava processos por corrupção. Há cerca de dois anos, uma comissão do Senado dos Estados Unidos revelou que ele ocultava milhões de dólares no Banco Riggs, de Washington.

Mais tarde, soube-se que havia outras contas em outros países. Neste ano, a Justiça chilena começou a investigar um depósito de ouro que ele teria em um banco de Hong Kong.

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