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Atualizado às: 12 de dezembro, 2006 - 01h20 GMT (23h20 Brasília)
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Mais de 50 mil enfrentam fila para se despedir de Pinochet

Seguidores de Pinochet fazem fila em seu velório, em Santiago
Multidão enfrentou espera de pelo menos três horas sob sol forte para se despedir do general chileno
Um dia depois da morte do ex-presidente Augusto Pinochet, seus seguidores enfrentaram horas sob sol forte para se despedir do homem que governou o Chile com mão de ferro durante 17 anos.

A polícia estima que, durante o dia, mais de 50 mil pessoas ficaram entre três e oito horas na fila para ver o corpo de Pinochet. Na madrugada desta terça-feira, milhares continuam na fila, que anda cada vez mais lentamente, devido à quantidade de pessoas.

Pinochet está sendo velado na Escola Militar, em Las Condes, bairro de classe média alta em Santiago. Longe dali, no centro da capital chilena, em frente ao palácio presidencial de La Moneda, populares deixaram cravos vermelhos na estátua do presidente socialista Salvador Allende, derrubado num sangrento golpe militar liderado por Pinochet, em 1973.

Na entrada principal da Escola Militar, “pinochetistas” – como eles mesmos se definem – de diferentes idades e classes sociais erguiam cartazes com a imagem do general, exibiam fitas negras amarradas no braço, em sinal de luto, e tiravam fotos. Outros aproveitavam para vender água, flores e guarda-sóis.

Quase todos cantavam uma música, provocando integrantes da esquerda. “Faremos uma grande ponte por onde Augusto e seus soldados passarão. E vocês marxistas, exilados, onde comerão? Não tenha medo compatriota se te chamam de fascista. Aqui estamos, os pinochetistas.”

Muitos dos simpatizantes de Pinochet saíram do interior do país para comparecer ao velório, que termina nesta terça-feira.

A previsão é de que seu corpo seja levado, de helicóptero, antes do almoço, para o cemitério onde será cremado. Por questões de segurança, a família não divulgou o nome do cemitério e optou pelo helicóptero, para evitar os protestos contra o general.

Vigília

Na fila, do lado de fora da Escola Militar, o taxista Daniel Arenas, de 45 anos, contou que saiu da sua cidade, Iquique, a 2 mil quilômetros de Santiago, logo depois que soube da internação de Pinochet, no dia 3 de dezembro. “Fiz vigília no Hospital Militar durante seis dias e tinha esperanças de que ele melhoraria. Agora estou aqui, rezando por ele. Pinochet vai fazer muita falta ao país”, disse.

Opositores de Pinochet comemoram sua morte
Opositores de Pinochet festejaram sua morte e colocaram cravos na estátua de Salvador Allende

O administrador de empresas Luiz Ortiz, de 30 anos, que vive em Autofagasta, viajou 18 horas de ônibus e tirou fotos à saída do velório. “O pior que Pinochet fez foi cometer crimes contra direitos humanos, mas o melhor que deixou foi a economia que temos hoje no país.”

Aos 82 anos, Elena Garcez era uma das mais entusiasmadas na fila. “Pinochet nos salvou do comunismo e seremos eternamente gratos a ele”, disse. “E por que a presidente (Michelle) Bachelet lhe negou o direito as honras de chefe de Estados? Não dá para entender”, criticou.

Algumas pessoas desmaiaram na fila devido ao calor. Com alto-falantes, foram realizadas duas missas no velório. “Que Deus lhe perdoe e lhe bendiga”, disse o cardeal de Santiago, jogando água benta no rosto de Pinochet.

Cara de feriado

Nas ruas, o clima tenso registrado no domingo e na madrugada de segunda-feira já não existia mais.

Pela manhã, foram registrados incidentes isolados, quando uma jovem chilena reagiu com pauladas contra uma imobiliária depois de ouvir "assassino" para o ex-general.

Ao mesmo tempo, em alguns bairros, como Providencia, e na tradicional Praça de Armas, no centro, parecia feriado.

Alguns diziam que é a época do ano, próximo às festas, outros argumentavam que depois dos confrontos com a polícia, logo após a morte de Pinochet, muita gente preferiu ficar em casa ou sair sem carro.

Nos bares, lanchonetes e restaurantes, o assunto é a morte do ex-general.

Muitos concordam que a expansão da economia chilena deve-se ao seu modelo – respeitado nos governos democráticos que o sucederam, apesar de o país registrar uma das piores concentrações de renda da região.

Outros lamentam que Pinochet tenha morrido sem responder aos cerca de 300 processos contra ele na Justiça.

No seu regime, ocorreram 3 mil mortes e desaparecimentos. Há cerca de dois anos, uma comissão investigadora do Senado dos Estados Unidos revelou que ele ocultava milhões de dólares no Banco Riggs, de Washington.

Mais tarde, soube-se que havia outras contas em outros países. Este ano, a Justiça chilena começou a investigar um depósito de ouro que ele teria num banco de Hong Kong.

Livros de história

Técnica em comércio exterior e em finanças, Ana Maria Hermosilla, de 36 anos, reprovava os que tinham se manifestado tanto a favor como contra o general.

“Pra mim, há exageros de um lado e do outro”, afirmou. “Mas o que mais lamento é que ele não tenha pago, em vida, o que fez contra tanta gente. Alguém tem que pagar por isso. Alguém da família dele”, afirmou.

Para ela, que é avessa ao regime Pinochet, “queira-se ou não”, o general estará nos livros de história.

Aos 20 anos, o desenhista gráfico Diego Martínez pensa como Ana Maria. “Aqui no Chile, tínhamos a sensação de que a Justiça adiava, adiava e fazia de tudo para ele não ser julgado e processado”, disse. “Agora, ele vai ter que se acertar com Deus.”

Na segunda-feira à tarde, as emissoras de rádio e de televisão já tinham suspendido a transmissão especial sobre a morte do general, que ocupou horas da programação logo depois de sua morte.

Mas entre alguns analistas ainda existem dúvidas se a normalidade já voltou ao Chile ou se o nervosismo – neste país dividido – poderá renascer.

Velório de Pinochet
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