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Papel do rei é crucial na crise da Tailândia | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Em cada volta e reviravolta da história política recente da Tailândia, uma figura tem sido constante: a do rei Bhumibol Adulyadej. No trono do país há 60 anos, o monarca é reverenciado em toda parte. Ele é visto por algumas pessoas praticamente como um deus. Oficialmente, o seu poder de influenciar acontecimentos políticos é limitado, mas na prática, a reverência da população lhe concede imenso poder. É por isso que muitos analistas tailandeses dizem que ele deve pelo menos ser favorável ao golpe de Estado da noite de terça-feira passada, que derrubou o primeiro-ministro Thaksin Shinawatra. "O papel do rei foi crítico nesta crise", disse Thitinan Pongsudhirak, professor de Ciências Políticas da Universidade Chulalongkorn. "É opinião geral que ele endossou implicitamente o golpe." Sulak Siwalak, um comentarista famoso no país, foi mais longe, afirmando: "Sem o seu envolvimento, o golpe teria sido impossível." O palácio não fez nenhum comentário direto desde a tomada de poder pelos golpistas. A única declaração ligada ao rei foi feita pelos líderes do golpe, em um anúncio pela televisão dizendo que o rei endossava o nome do general Sonthi Boonyaratglin para chefe do governo provisório. Mas, às vezes, o silêncio diz muito - e embora haja poucas evidências de que o rei estivesse diretamente envolvido no golpe, há várias pistas que sugerem que, pelo menos, ele aprovou tacitamente os eventos de terça-feira. Os generais que lideraram o golpe disseram que estavam agindo em defesa do rei, e até usavam uma faixa amarela no braço, simbolizando sua lealdade à coroa. O general Sonthi também foi ao palácio pouco depois do golpe. De acordo com Thitinan, o papel exato desempenhado pelo rei não foi esclarecido. "Ele não iniciou o golpe - foram os militares que fizeram isso", afirmou. Mas acrescentou que "nenhum golpe daria certo sem o consentimento do rei". Intervenção habilidosa Se o rei estava realmente vinculado, de alguma forma, ao golpe, não seria a sua primeira intervenção na turbulenta história política da Tailândia. Uma das imagens mais marcantes de seu reinado é aquela em que ele pôs fim à violência nas ruas em 1992, com umas poucas palavras aos dois principais rivais, que estavam ajoelhados lado a lado aos seus pés. Em meados deste ano, ele influenciou os tribunais do país para anular a controvertida eleição em abril, qualificando a situação como "uma confusão". O pleito, convocado pelo primeiro-ministro, Thaksin Shinawatra, em meio a protestos contra seu governo, foi boicotado pela oposição e, em seguida, anulado, deixando um vácuo político. Mas o rei Bhumibol tem o cuidado de nunca parecer muito abertamente envolvido na política da Tailândia. Com freqüência, apenas uma breve aparição na TV é suficiente para mostrar a posição dele. "Ele é muito habilidoso", disse Sulak Siwalak. "Ele nunca se envolve de maneira óbvia. Se este golpe der errado, Sonthi levará a culpa, mas o que quer que aconteça, o rei só receberá elogios." Na verdade, tal é a fé que o povo tailandês tem em seu monarca que muitos acreditam que, se o rei optasse por uma intervenção, esta seria a melhor coisa a fazer. Thitinan disse que acredita que o rei permitiu que o golpe ocorresse porque esta era a melhor opção. Para o acadêmico, mais à frente poderia haver um cenário de violência nas ruas, lembrando dos eventos turbulentos dos últimos meses, como as controvertidas eleições em abril, os protestos contra Thaksin e a incerteza política existente. "Altruísta" Mas uma outra razão para o golpe é, sem dúvida, o crescente abismo entre a monarquia e o primeiro-ministro. "Este golpe não foi nada menos do que Thaksin versus o rei", disse Thitinan. Os dois são homens muito diferentes - o rei, distante e altruísta, e o primeiro-ministro, populista e visto, com freqüência, como arrogante. "Levou quatro décadas para o rei conquistar os corações e mentes das pessoas, discretamente, fazendo muitas obras públicas. Thaksin tentou fazer isso em quatro anos, por meio de concessões populistas", disse Thitinan. "O povo gosta de Thaksin, mas ama o rei", acrescentou. O 60º aniversário da chegada do rei ao trono, em junho, atraiu enormes multidões. Nos últimos meses, o primeiro-ministro irritou o palácio de várias formas, mais notadamente durante as celebrações, quando ele foi acusado de tentar atrair a atenção de convidados antes que eles se reunissem com a família real. Ele também entrou em confronto com um dos mais próximos aliados do rei, o general aposentado Prem Tinsulanonda. Em julho, quando o primeiro-ministro acusou uma "pessoa altamente influente" de tentar derrubar o governo, muitos analistas acharam que ele estava falando do general Prem. Em represália, Prem disse a um grupo de cadetes do Exército da Tailândia que a sua lealdade deve ser primeiramente ao rei. O antagonismo aumentou, mas, apesar do afeto nacional do povo ao rei, o primeiro-ministro continuou firme. "Thaksin foi tão bem sucedido, que sentiu que ninguém mais o passaria para trás", disse Sulak Siwalak. "Eu acho que isso é que o derrubou." "Ele usou seu dinheiro e poder, mas não percebeu que o palácio é mais sutil do que isso, e tem muito poder sem alarde." Na batalha entre os dois campos, só poderia haver um vencedor - o quieto, mas extremamente influente monarca de 78 anos. Se o rei Bhumibol tem qualquer ligação com o golpe ou não, ele sobreviveu a Thaksin, como sobreviveu a muitos outros primeiros-ministros, governos e constituições. A Tailândia pode estar cercada de incerteza neste momento, mas a figura constante em que eles confiam e a quem amam ainda está em seu lugar, forte como sempre. |
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