BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
Atualizado às: 18 de agosto, 2006 - 11h32 GMT (08h32 Brasília)
Envie por e-mailVersão para impressão
Brasil é condenado por Corte Interamericana de Direitos Humanos

Corte Interamericana de Direitos Humanos
Condenação é a primeira contra o Brasil na Corte Interamericana
Familiares de uma vítima de abuso de direitos humanos venceram pela primeira vez um caso contra o Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos, sediada na Costa Rica.

O caso diz respeito à morte do cearense Damião Ximenes, em novembro de 1999, enquanto estava internado na Casa de Repouso Guararapes, uma instituição psiquiátrica à época filiada ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Damião morreu quatro dias depois de ser internado na clínica, que fica a 200 km de Fortaleza.

Embora o laudo do Instituto Médico Legal – redigido pelo mesmo médico que trabalhava na Casa de Repouso – apontasse "causa (de morte) indeterminada", Damião apresentava marcas de tortura e maus-tratos.

Em mais de 80 páginas de justificativas, a Corte decidiu que o país violou a Convenção Americana de Direitos Humanos em quatro artigos.

A sentença determina que o país a investigue os responsáveis pela morte de Damião e realize programas de capacitação para profissionais de atendimento psiquiátrico, além de elevar o valor da indenização aos familiares.

O tribunal enfatizou que é a primeira vez que julga a "violação dos direitos de uma pessoa portadora de deficiência mental".

De Ipoeiras, no interior do Ceará, a irmã de Damião, a contadora Irene, aplaudiu a decisão, mas lamentou que tenha sido necessário recorrer a um órgão internacional para conseguir as reparações pelo caso.

"Fomos à corte porque no Brasil um crime cometido por um manicômio nunca seria julgado", disse ela à BBC Brasil. "O do meu irmão seria apenas mais um."

A Secretaria Especial de Direitos Humanos, em Brasília, divulgou nota informando que criará um grupo especial para agilizar a tramitação do caso na Justiça.

Caso

O caso se tornou notório no Ceará por conta da pressão de grupos de direitos humanos e da imprensa local à época em que ocorreu.

No dia 1º de outubro de 1999, Damião foi levado por sua mãe, Albertina, à Casa de Repouso Guararapes. Ela temia pelas crises do filho, que também sofria de epilepsia.

Na segunda-feira seguinte, Albertina voltou à clínica, mas teve a notícia de que o paciente "não estava em condições de receber visitas".

Fonte: Arquivo pessoal da família
Caso suscitou pressão de grupos de direitos humanos

Segundo a irmã de Damião, Irene, a mãe resolveu entrar à força. Lá, encontrou o filho "amarrado, com as roupas rasgadas, sangrando, coberto de hematomas e andando com dificuldades", relata Irene.

Caído aos pés da mãe, Damião teria dito: "Polícia, polícia…"

"Vendo o filho naquele estado, Albertina solicitou aos funcionários que o levassem para tomar um banho, indo em seguida procurar por um médico que pudesse atendê-lo na clínica", relata o processo encaminhado à Corte pela Organização não-Governamental Justiça Global, que representou a família.

"Encontrou finalmente o Dr. Francisco Ivo de Vasconcelos – diretor da Casa de Repouso Guararapes e legista do IML de Sobral – que se limitou a prescrever alguns remédios, sem sequer examiná-lo."

Sem opção, a mãe voltou à sua casa, no município de Varjota, a 70 km de Sobral. Mal chegou, foi chamada de volta à clínica. Lá, descobriu que o filho havia morrido.

A morte de Damião foi atribuída a "parada cardiorrespiratória" e "causa indeterminada" pelo mesmo médico que assinou os laudos da instituição psiquiátrica e do IML, respectivamente.

Indignada, a família procurou grupos de direitos humanos e a comissão de direitos humanos da Assembléia Legislativa do Ceará.

Em julho de 2000, a pressão da opinião pública levou a uma intervenção de 120 dias na Casa de Repouso Guararapes, que foi fechada.

Responsabilidades

A Corte condenou o Brasil de violar quatro artigos da Convenção Americana de Direitos Humanos: o 4º (direito à vida), o 5º (direito à integridade física), o 8º (direito às garantias judiciais) e o 9º (direito à proteção judicial).

Ao longo do processo, o Brasil reconheceu que havia violado os dois primeiros artigos, mas dizia ter tomado providências para melhorar a fiscalização e o credenciamento de instituições psiquiátricas no país.

A decisão levou a Secretaria de Direitos Humanos, vinculada à Presidência, a criar um grupo de acompanhamento judicial para agilizar o julgamento dos responsáveis neste e em outros processos.

Além da própria Secretaria, farão parte do grupo o Conselho Nacional de Justiça, o Ministério das Relações Exteriores e a Advocacia-Geral da União.

O país terá também de pagar um valor mais alto como indenização à família. O valor inicial, de um salário mínimo, havia sido considerado "insignificante" e recusado pelos familiares de Damião.

Congresso Nacional, em Brasília
Para governo, legislação sobre clínicas psiquiátricas melhorou

"Decisão histórica"

A diretora da Justiça Global, Sandra Carvalho, disse que a decisão é "histórica".

"(A decisão) é uma referência para a proteção dos direitos humanos e, em particular, dos pacientes psiquiátricos. O Brasil tem agora a oportunidade de mostrar que quer combater violações (deste tipo)", disse a diretora-executiva.

Em voto separado, o juiz brasileiro Antonio Cançado Trindade criticou a legislação brasileira de direitos humanos, e em particular uma mudança constitucional realizada em 2004, que dificultou a aprovação no Congresso de tratados internacionais na área.

Para o governo brasileiro, a decisão reconheceu "avanços" no sistema de atenção à saúde mental no país.

Na nota que emitiu, a Secretaria de Direitos Humanos afirmou que houve "uma importante reorientação do modelo centrado no hospital para uma rede de serviços extra-hospitalares, de base comunitária. E o município de Sobral, onde ocorreram os fatos, é atualmente referência nacional em políticas de saúde mental".

É a primeira vez que um caso de abuso de direitos humanos no Brasil é julgado na Corte Interamericana da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Apenas há oito anos o país aceita a competência do órgão para julgar casos de direitos humanos. Foi um dos últimos no continente.

No Peru, que aceita a Corte desde 1981, e na Colômbia, que acata as decisões do órgão desde 1985, as sentenças têm ajudado a criar uma legislação no campo dos direitos humanos.

Uma série de sentenças condenatórias ao Estado peruano durante o regime do presidente Alberto Fujimori tem sido especialmente apontada como um marco na luta pelos direitos humanos dentro do país.

Direitos Humanos
Brasil propõe metas globais para setor nas Nações Unidas.
NOTÍCIAS RELACIONADAS
LINKS EXTERNOS
A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo dos links externos indicados.
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Envie por e-mailVersão para impressão
Tempo|Sobre a BBC|Expediente|Newsletter
BBC Copyright Logo^^ Início da página
Primeira Página|Ciência & Saúde|Cultura & Entretenimento|Vídeo & Áudio|Fotos|Especial|Interatividade|Aprenda inglês
BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
Ajuda|Fale com a gente|Notícias em 32 línguas|Privacidade