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Lucas Mendes: Drama no bê-a-bá | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Televisão sem uma gota de sangue. Nem tiro. Nem um pedacinho de bunda. Nem perseguição motorizada. Violência? Zero. Sexo? Zero. Drama? Dez. BBC? PBS? TV Cultura? Negativo. Uma competição de soletração na rede ABC, uma das três maiores americanas, nada menos de duas horas no horário mais nobre, de oito às dez da noite. Produção mais barata, impossível. Meia dúzia de juízes, 275 estudantes, a maioria na faixa dos 13, 14 anos, num auditório sem efeitos de luzes nem sonoros. Só o tim de uma campainha quando o concorrente erra. A mais famosa e antiga destas competições é patrocinada pelo Scripps National Spelling Bee. Já tem 79 anos. Em 1997, durante alguns segundos, entrou pela primeira vez no noticiário nacional das redes quando Rebecca Sealfon ganhou e reagiu com uma incontida explosão de alegria no palco. Entrevista Fui entrevistar Rebecca para TV Cultura. Ela era uma menina adorável, culta, educada em casa pela mãe médica, mas tinha alguns tiques nervosos, entre eles enfiar o dedo no nariz. Não tirava nada lá de dentro, era só um sestro mas na televisão parecia constrangedor. Difícil de editar. As redes mostraram a exuberância dela no palco ad nauseum, mas não rendeu entrevistas e a competição continuou transmitida pela tevê por assinatura. Em geral os meninos, muitos de origem asiática, ganham a competição mas depois de sete anos de seca, a campeã de 2006 foi Katharine Close, americana de Nova Jersey, mais conhecida pelo apelido Kerry. De rosto e frieza, Kerry lembra Hillary Clinton. O público torcia para Finola Hackett, uma canadense alegre com um sorriso irresistível. As crianças impressionam não só pela dificuldade da soletração, mas também pelas próprias palavras que a maioria da audiência está ouvindo pela primeira vez, muitas importadas de outras línguas. A canadense Finola, pelas conexões francófilas, acertou totoyer, equisse, machicotage e guilloche, todas de origem francesa mas errou a alemã weltschmertz que soletrou com v em vez de w. Basta um erro para ser eliminado. Kerry venceu com a palavra Ursprache, também de origem alemã, mas a maior surpresa da noite foi o sucesso de um drama tão simples, intenso e inteligente num horário dominado por fórmulas caras e sentimentos baratos. Há uma nova idolatria nos ares americanos. |
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