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Repórter da BBC conta sua experiência do terremoto | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O telefone tocou minutos após o terremoto ter me acordado aos chacoalhões na manhã de sábado em Islamabad. Até o momento em que consegui sair da cama, os tremores já tinham acabado. Eu me arrumei para sair para buscar minha passagem aérea para Nova Délhi, onde iria participar de um treinamento. Foi quando minha mulher, Yasmeen, ligou da nossa casa em Muzaffarabad, na parte da Caxemira administrada pelo Paquistão. O terremoto havia destruído nossa casa, ela contou, e nossas crianças estavam feridas. Minha mente acelerou, enquanto pensava nos meus filhos: três meninos levados e cheios de energia. Hashid and Hamail são gêmeos. Hamza é o mais velho. Yasmeen disse que Hamail ficou preso sob os escombros mas já tinha sido resgatado. "Ele está em segurança agora", afirmou ela. "Mas Hamza está um pouco machucado. Nada para você se preocupar." Foi o suficiente para iniciar uma onda de ansiedade que eu nunca havia sentido antes. Desabrigados Minha mulher pediu que eu mantivesse os planos de viajar a Nova Délhi no domingo. Disse que não havia razões para que eu deixasse de ir. Mas eu não conseguia me convencer a partir, sabendo que minha família inteira havia ficado desabrigada. Naquele momento, ainda não se sabia da real dimensão do terremoto. Mesmo assim, mudei de idéia e desisti dos planos de ir para Nova Délhi. Passei o resto do dia tentando, sem sucesso, entrar em contato com minha família – aparentemente, as linhas telefônicas foram cortadas. Isso me deixou desesperadamente preocupado. Tentei me informar sobre deslizamentos de terra ou estradas bloqueadas, mas não consegui saber nada. Decidi então pegar a estrada Muree-Kohala e tentar chegar de qualquer maneira a Muzaffarabad. Saí de Islamabad às 14h30 do sábado e cheguei à ponte Kohala três horas depois. Havia poucos sinais de destruição no caminho. Tudo o que vi foi uma mesquita que havia ruído. Talvez, pensei, as coisas não tinvessem sido tão graves assim. Mas então veio a primeira parte interrompida da estrada, a cerca de 30 km de Muzaffarabad. Logo soubemos que um trecho de 12 km estava coberto de destroços e não havia como passar. Começava a escurecer, e seguir o resto do caminho a pé seria muito perigoso. Voltei então a Muree e segui na direção de Abbotabad, o único outro caminho para Muzaffarabad a partir daquela região. Eram 2h de domingo quando cheguei a Lohar Gali, uma passagem pelas montanhas a 10 km de Muzaffarabad. Uma multidão se aglomerava ali, já que a estrada fôra bloqueada por um enorme deslizamento de terra. Decidi esperar amanhecer, e continuei a pé quando o sol nasceu. Escalando sobre os deslizamentos de terra, cheguei a Muzaffarabad em cerca de duas horas. Fui direto para casa e fiquei chocado com o que vi. Minha família estava acampada num descampado perto da casa. Hamza, Hashid e Hamail corriam para lá e para cá vestindo pijamas. Hamza tinha um corte na lateral da cabeça e Hamail, que tinha ficado preso quando a casa caiu, estava todo arranhado. A maioria dos prédios tinha desabado. Perguntei se os curativos das crianças haviam sido feitos da forma apropriada. Responderam-me que não havia remédios. "Ficou com medo quando ficou preso?", perguntei a Hamail. "Não", respondeu ele sorrindo, claramente muito feliz de me ver. Durante toda a viagem eu havia pensado sobre o que teria passado na cabeça de Hamail enquanto permaneceu sob os escombros. Tentando conter as lágrimas, encontrei todos os demais. A situação começava a se esclarecer. Havia falta de água, comida e remédios. Isso sem falar na grave falta de abrigo. Não havia como retirá-los de Muzaffarabad porque as estradas estavam danificadas. Então nos instalamos todos, determinados a enfrentar a situação como os outros milhares de moradores da Caxemira afetados diretamente por esta calamidade. |
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