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Atualizado às: 23 de junho, 2005 - 12h07 GMT (09h07 Brasília)
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Eleição no Irã testa pragmatismo de Bush

Eleitoras iranianas
Bush afirmou que o Irã é uma farsa democrática
A eleição presidencial iraniana é uma urna de surpresas, e não pela falta de lisura no processo de votação.

Eram esperados lances marotos da linha-dura do regime xiita para consolidar o seu poder e brecar a ascensão do pragmático Ali Hashemi Rafsanjani, ex-presidente e revolucionário de primeira hora, mas que agora acena com reformas.

Tampouco houve surpresa na litania de acusações feitas na semana passada pelo presidente americano George W. Bush – antes das denúncias de fraudes no primeiro turno da eleição – de que o Irã é uma farsa democrática.

A surpresa veio depois. Na sua cruzada pró-democracia no Oriente Médio, o governo Bush é freqüentemente acusado de ter uma política de dois pesos e duas medidas. Pressiona com vigor inimigos como o Irã, mas trata com mais suavidade aliados como Egito e Arábia Saudita.

Condoleezza Rice

A surpresa está na consistência de Washington. A marcação cerrada nos iranianos fica repleta de buracos e soa hipócrita caso não se estenda aos aliados. E esta semana, ficou claro que eles não estão sendo poupados. Em um discurso feito no Cairo, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, finalmente foi além de generalidades.

Rice pediu mais empenho por reformas dos dirigentes da Arábia Saudita e Egito, além de observar que os reformistas locais devem liderar e definir a agenda e o ritmo de mudanças democráticas.

Assim como os aiatolás de Teerã, as lideranças do Cairo e Riad não gostaram do sermão americano.

O clamor por reformas democráticas feito por Bush se tornou muito sistemático para ser considerado uma mera jogada cínica.

O presidente, de certa forma, se tornou prisioneiro de sua retórica. Se ele se desviar, será um golpe devastador para sua credibilidade. Com a consistência, parece até que a luta por democracia agora ofusca a chamada guerra contra o terror no ideário americano.

No Cairo, Condoleezza Rice enfatizou que, "por 60 anos, os Estados Unidos buscaram estabilidade às custas de democracia no Oriente Médio. E nenhum dos dois objetivos foi alcançado. Agora nós vamos tomar um rumo diferente".

Todo ceticismo é necessário, mas talvez seja preciso admitir que o governo Bush está fazendo uma guinada de defesa do status quo e de estreitos interesses petrolíferos para uma agenda mais ampla de reformas políticas e econômicas na região.

Inflexível

Como já foi demonstrado em outras ocasiões, o maniqueísmo de Bush funciona para o bem e para mal. Houve aqueles momentos após os atentados do 11 de setembro em que ele era movido pela noção de que "quem-não-está-conosco-está-com-os-terroristas". Agora o presidente é inflexível para falar no imperativo da democracia.

Condoleezza Rice afirmou que o estabelecimento de democracia no Oriente Médio será um "teste histórico" para a presidência Bush como um todo. Mas existem ainda os testes da "realpolitik".

E não envolvem apenas cenários de desestabilização nos países aliados dos Estados Unidos. O que Bush fará se o fornecimento de petróleo saudita for ameaçado por turbulências políticas? E como reagirá se radicais islâmicos tomarem o poder pela via democrática no Egito?

Existe a realidade imediata do Irã, país que, conforme Bush, integra o "eixo do mal". Ele pode assumir uma posição maximalista e não visualizar nenhuma diferença no embate do segundo turno eleitoral entre o linha dura Mahmoud Ahmadinejad e o ex-presidente Rafsanjani.

Eles seriam farinha do mesmo saco xiita. Mas mesmo reformistas genuínos evoluíram nos últimos dias para uma posição de "voto útil" no ex-presidente.

Resta ver se, em caso de vitória de Rafsanjani, Bush irá se fixar no seu fundamentalismo político ou agirá com pragmatismo.

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