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Migração é um dos principais temas da eleição britânica | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A migração é um dos principais temas da campanha eleitoral britânica, sobretudo nas mãos dos estrategistas do Partido Conservador, que perceberam a carga emocional que o assunto carrega entre segmentos da população preocupados com a entrada de estrangeiros no país. O Partido Trabalhista defende uma política de imigração mais flexível do que seus principais adversários, mas reconhece a sensibilidade do tema entre o eleitorado e por isso se apressa em prometer uma fiscalização mais eficaz na filtragem dos estrangeiros que buscam viver na Grã-Bretanha. Entre o eleitorado, há uma preocupação prática com a disputa por vagas no mercado de trabalho com estrangeiros que aceitam receber menos, outros acreditam que o imigrante quer apenas aproveitar-se dos benefícios sociais e há quem argumente que há também uma dose de preconceito contra os estrangeiros, sobretudo os não-brancos e não-cristãos. Especialista em imigração no Instituto de Pesquisa de Políticas Públicas, um centro de estudos sediado em Londres, Dhananjayan Sriskandarajh, britânico com origem familiar no Sri Lanka, argumenta que, embora a migração seja um fenômeno antigo, existente há séculos, há agora uma percepção entre parte da opinião pública de que os pobres estão inundando o mundo rico e causando problemas. A seguir, os destaques da entrevista com Dhananjayan Sriskandarajh: BBC Brasil – A imigração aumentou nos últimos anos? Dhananjayan Sriskandarajh – Sem dúvidas, há mais pessoas se movimentando globalmente. Cerca de 175 milhões vivem fora do país onde nasceram. Se juntássemos todas essas pessoas num só território, teríamos o sexto maior país do mundo em população. Mas, ao contrário da percepção pública comum, nem todos vão do mundo pobre para o rico, pois muitos se movimentam de um país pobre a outro, como há também movimento migratório lateral entre habitantes dos países ricos. BBC Brasil - Com a expansão da União Européia, imigrantes destes novos países que faziam parte do antigo mundo comunista são uma fonte de mão de obra barata para o resto da Europa. Isso tem levado muitos políticos e alguns jornais a alegar que haverá uma invasão de estrangeiros, que tomariam empregos e se aproveitariam do sistema. Isso vai mesmo ocorrer? Sriskandarajh - A Europa Ocidental está pedindo pelo amor de Deus que alguém faça o que chamamos de trabalho sujo, difícil e perigoso. O fato de que os trabalhadores imigrantes têm salários mais baixos significa que têm uma contribuição a dar à Europa ocidental. Alguns países que acabaram de aderir à União Européia têm trabalhadores que podem exercer essas tarefas. Estamos errados ao pensar que a Europa do Leste vai suprir mão de obra para o Ocidente eternamente. Em breve, países como Polônia e República Tcheca, que estão se desenvolvendo rapidamente, e outros no mesmo caminho, verão que seus habitantes não vão querer ir para a Alemanha, nem para a Grã-Bretanha para fazer trabalhos menores. Da mesma forma que a parte rica do continente, esses países também enfrentam o problema do envelhecimento da população e vão querer segurar seus trabalhadores. Estudos indicam que, com o tempo, teremos cada vez menos europeus do Leste querendo se mudar para o Ocidente. BBC Brasil - Quando essa mão-de-obra barata não vier mais da Europa Oriental, quem vai preencher o espaço? Sriskandarajh - Sempre vamos precisar de pessoas da África, da Ásia e mesmo da América Latina para preencher algumas das necessidades de mão-de-obra na parte rica da Europa. E não podemos esquecer de que a população dos países mais ricos está envelhecendo. Se eles não produzem trabalhadores suficientes para produzir e para sustentar os velhos, a mão-de-obra tem de vir de fora. BBC Brasil -Temos visto campanhas contra imigrantes em alguns tablóides aqui na Grã-Bretanha e nos discursos de muitos políticos. Qual a importância do componente racial na resistência aos imigrantes? Sriskandarajh - Esta é uma pergunta muito boa. Temos que distinguir dois elementos da preocupação com imigração. Um é com a governança, a gerência do problema. Outro é o aspecto racial. Existe a percepção de que os governos não têm controle sobre a imigração. Vêem-se barcos cheios de gente atravessando do Marrocos para a Espanha ou imigrantes entrando ilegalmente na Grã-Bretanha a bordo do trem que atravessa o túnel sob o Canal da Mancha. Críticos reclamam que as fronteiras estariam fora de controle. Discute-se então como administrar isso de maneira mais eficaz. Algumas pessoas alegam que a coesão social fica ameaçada por novos migrantes, pela diversidade crescente de raças, culturas, línguas. Outros expressam um racismo aberto e simplesmente não querem o ingresso no país de gente de outras etnias ou religiões. BBC Brasil - O senhor diria que a preocupação dos governos europeus tanto de direita quanto de esquerda é mais de restringir a imigração do que de estimulá-la? Sriskandarajh - Governos no mundo rico, sobretudo na Europa Ocidental, estão num dilema. De um lado, precisam de trabalhadores, tanto os menos quanto os mais qualificados, a fim de tornar suas economias competitivas e manter a força do dinamismo econômico. De outro lado, no entanto, há uma atitude pública muito cética quanto à imigração. Isso acontece não só aqui na Grã-Bretanha, mas por toda a Europa. Governos jogam dos dois lados: querem mais imigrantes para manter suas economias competitivas, mas também querem exercer controle rígido e limitar o quanto puderem a entrada de pessoas. Essa é a tensão presente na política de imigração na Europa e emerge com mais força durante eleições. BBC Brasil - Freqüentemente, ouvimos o argumento de que as mercadorias e o capital se movimentam livremente no mundo globalizado, mas as pessoas não podem fazer o mesmo. Não parece injusto? Sriskandarajh - Injusto e ineficiente. Precisamos promover a mobilidade global para que todos se beneficiem. Os poucos estudos nesta área sugerem que os ganhos seriam enormes. Se simplesmente afrouxarmos o controle sobre a imigração, os ganhos para a economia global seriam de trilhões de dólares. Então, mundialmente, podemos nos beneficiar muito com o aprofundamento da globalização e com o aumento da mobilidade da força do trabalho, equiparando-a à de bens, serviços e capitais. |
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