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Para analistas, problemas no Iraque ofuscam sucesso eleitoral | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
As dificuldades enfrentadas pelos parlamentares no Iraque para chegar a um acordo não estão surpreendendo, mas estão frustrando as expectativas criadas pelo "sucesso" das eleições realizadas há exatos dois meses (nesta quarta-feira) no país, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil. As eleições foram louvadas ao redor do mundo pela surpreendente participação eleitoral, e os iraquianos foram elogiados pela coragem de ir às urnas, mesmo sob a ameaça de violência. Na terça-feira, na segunda sessão do Parlamento desde as eleições, uma parlamentar disse ser um absurdo que os 8 milhões de iraquianos que votaram tenham agora de esperar tanto para ter um governo. A chave do impasse estava na mão dos xiitas e dos curdos, as duas principais forças no Parlamento, que têm que fazer um acordo quanto à nomeação do novo governo. Mas na terça-feira, os sunitas voltaram ao centro das atenções quando não conseguiram chegar a um acordo interno para escolher o presidente do Parlamento. Embora não sejam maioria, os sunitas comandaram o Iraque por toda a história recente do país mas perderam força nas eleições, principalmente devido ao grande boicote à votação promovido na comunidade. "Com o pequeno número de sunitas na assembéia, este cargo (a Presidência do Parlamento) não nos colocará numa posição de equilibrio", disse o presidente interino do Iraque, o sunita Ghazi al-Yawer. O editor da revista egípcia Política Internacional, Ossama El-Ghazali, diz que os iraquianos estão ficando ansiosos para ver o processo eleitoral resultar de uma vez num governo funcionando. Paciência "Os iraquianos estão ficando muito preocupados e podem perder a paciência e a confiança no processo eleitoral. Isso pode ser um caminho para o desespero", diz. Mas El-Ghazali não acredita que as dificuldades nas negociações políticas sejam suficientes para levar mais gente para a luta armada. "Estas pessoas que estão esperando não são as mesmas que participam da insurgência. Acho que são dois processos separados", avalia. O cientista-político também acredita que não vai demorar muito mais tempo para que os iraquianos cheguem a algum acordo sobre o novo governo. "É muito natural que esteja demorando, porque este é um processo muito complicado. Dois meses para formar um governo parace muito tempo se observado dentro dos critérios de uma eleição normal", diz. "O caso no Iraque é especial". Advertências As dificuldades para colocar em acordo os grupos étnicos, religiosos e tribais do Iraque eram bem conhecidas e já se revelaram em outros momentos da história do país. Mas analistas dizem que o relativo sucesso das eleições acabou aumentando as expectativas - interna e externamente - e fazendo com que os problemas que viriam a seguir ficassem em segundo plano. "O governo americano falhou ao falar tanto sobre o sucesso das eleições e não advertir mais claramente que aquilo era só um começo e que certamente seria seguido de muitos problemas", disse o pesquisador do Insituto Brookings, de Washington, Ivo Dobbler. Para ele, a melhor maneira de o governo americano ajudar agora é evitar qualquer interferência. "Os iraquianos têm que aprender, por eles mesmo, como passar de um cultura política de violência para outra de negociações e acordos. É um processo muito importante, mas que leva algum tempo", diz. Dobbler diz que nunca acreditou na teorias de que o sucesso das eleições iraquianas teria um efeito positivo sobre o processo democrático em outros países do Oriente Médio. "Há dinâmicas internas que determinam o que acontece em cada um destes países. Não acho que as eleições tiveram impacto positivo e também não acho que o impasse político terá qualquer influência negativa." O pesquisador também diz que os problemas políticos no Iraque ainda não começaram a ter impacto no governo americano. "O assunto está sendo pouco tratado aqui nos Estados Unidos e ainda não houve nenhuma grande reação da opinião pública a isso. O equilíbrio de poder dentro do governo continua estável e não deve ser afetado agora por esta crise", avalia. |
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