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Atualizado às: 28 de fevereiro, 2005 - 19h55 GMT (16h55 Brasília)
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Elenco de 'Cidade de Deus' dá aula na Grã-Bretanha

Bruno Garcez
Nascimento (à esq) e Sousa durante a palestra em Londres
O elenco de Cidade de Deus trocou os tiros e a dura vida na favela por uma aprazível sala de aula na Grã-Bretanha.

Foi o que aconteceu nesta segunda-feira, quando Luis Carlos Nascimento, Renato de Souza e Diego Batista, todos do elenco do filme de Fenando Meirelles, deram uma oficina de interpretação para um grupo de alunos de Estudos Brasileiros da Universidade de Londres.

Os três jovens integram a companhia Nós do Cinema, criada há quatro anos com o propósito de escolher entre os moradores de favelas atores para Cidade de Deus. Após a conclusão do longa, a companhia se firmou e hoje já conta com 200 atores, todos provenientes de comunidades pobres.

No primeiro ponto de sua "turnê européia", o trio de atores falou sobre as técnicas empregadas em Cidade de Deus e sobre os novos curta-metragens que estão produzindo.

Nascimento concluiu recentemente Um Crime Quase Perfeito, em parceira com Leandro Firmino da Hora, o temível Zé Pequeno de Cidade de Deus, e rodou ainda outros curtas, como Vida Nova sem Favela e Vinte de Agosto.

Reações

Vida Nova sem Favela e Um Crime Quase Perfeito foram exibidos para os estudantes da Universidade de Londres e tiveram boa recepção.

O primeiro mostra projetos governamentais para erradicar as favelas do cenário de cartão postal do Rio de Janeiro, durante o regime militar, nos anos 70. O segundo surpreende ao retratar o universo da classe média alta do Brasil e a situação do sistema de saúde do Brasil.

Em relação ao documentário Vida Nova sem Favela, Luis Carlos Nascimento disse que inicialmente teve medo que o tema do filme parecesse obscuro ao público estrangeiro.

"O documentário era para ser um longa. Acabou virando um curta e corremos com a edição. A idéia era mostrar a política contra as favelas, mas também o lado bom. As pessoas que levam uma vida honesta e trabalham. Ele acabou sendo fácil e compreensível aos olhos de qualquer pessoa."

Livro

A britânica Juliet Line, que fez Estudos Culturais Brasileiros na Universidade de Nottingham, conta não ter se surpreendido com a dura realidade mostrada nos filmes.

"Não me causa espanto, poque passei muito tempo no Brasil, mas é uma boa educação para os estrangeiros. São formas de refletir sobre a realidade brasileira de maneira fiel, porque partem de pessoas que estão vivendo isso", diz Juliet, que assina um dos capítulos de City of God in Several Voices: Brazilian Social Cinema in Action (Cidade de Deus em várias vozes: o cinema social brasileiro em ação, em tradução livre).

O livro é uma coletânea de ensaios organizada por Else Vieira, que ministra o curso de Estudos Brasileiros da Universidade de Londres. O lançamento será realizado em Londres nesta quarta-feira, com presença do diretor Fernando Meirelles.

A obra traz ensaios de nomes diversos, como o cineasta Walter Salles, o professor de literatura Roberto Schwarz, o rapper MV Bill e os integrantes do Nós do Cinema.

"É o primeiro livro em língua inglesa sobre Cidade de Deus. Alguns dos estudos presentes no livro levantam discussões sobre a situação social abordada no filme e ainda sobre processo de criação do longa e as polêmicas que se seguiram à sua realização, como a discussão de que ele seguia uma estética estrangeira", diz Else Vieira.

Intercâmbio

A vinda do elenco foi organizada e patrocinada pela Universidade de Londres e pela organização não-governamental ABC Trust, que realiza trabalhos assistenciais no Brasil.

Após Londres, eles também farão oficinas em Liverpool e em Coimbra, em Portugal.

O propósito da viagem do grupo foi promover intercâmbios e angariar fundos para a compra de equipamentos e para a criação de uma sede própria para o Nós do Cinema.

Atualmente, eles são locatários de um centro em Botafogo, na zona sul do Rio, alugado, segundo eles, por um "preço camarada" pelo grupo de cineclubes Estação Botafogo.

A vinda do jovem elenco de Cidade de Deus à Grã-Bretanha não é o primeiro giro do grupo pelo exterior. Segundo Nascimento, as mazelas sociais mostradas em Cidade de Deus e nos curtas do Nós do Morro trazem pontos em comum com o de diversos filmes estrangeiros.

"Nos festivais de cinema, pudemos acompanhar a produção de filmes feitos por jovens pobres de diversos lugares. Na África do Sul, há negros de subúrbios produzindo filmes, da Argentina, vi produções de pessoas que moram em vagões de trens", afirma o ator.

O Nós do Cinema tem predominantemente intercâmbios com universidades americanas, como NYU, Harvard e UCLA. "Isso porque Cidade de Deus fez muito sucesso nos Estados Unidos, graças à Miramax (que distribuiu o filme no país)", afirma Nascimento. Mas eles também têm acordos com instituições da França e da Alemanha.

"Eles mandam alunos e professores para dar workshops e participar de nosso processo educativo. É como um turismo invertido. As pessoas vêm e ficam hospedadas nas favelas. Isso causa uma grande comoção, a ponto de a gente mal conseguir atender todo mundo que quer ir para o Brasil", acrescenta.

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