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'Cidade de Deus' muda pouco imagem do cinema brasileiro | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Que ninguém se iluda: a chance de Cidade de Deus converter em estatueta uma de suas quatro indicações é praticamente nenhuma. Mas não chore por Fernando Meirelles, Brasil: o feito – seu e de sua equipe – já é absolutamente extraordinário, histórico, um marco na trajetória do nosso cinema, e um ponto de luz na jornada da Academia rumo ao reconhecimento de talento além das fronteiras dos Estados Unidos. Que não se pense, contudo, que este reconhecimento, no caso de Cidade de Deus, pode ser automaticamente estendido ao cinema brasileiro como um todo. Hollywood – cujo establishment a Academia representa por definição e direito – tende a ser individualista e não coletivista em sua visão do talento. Quem se laureia este ano é Meirelles, Cidade de Deus e quem mais o fez. Ponto. Neste exato momento os cinco mil e tantos acadêmicos não estão exatamente coçando a cabeça admirados pensando ''puxa, como se faz bom cinema no Brasil!''. Mais provável que estejam enaltecendo as qualidades específicas de Cidade de Deus, Fernando Meirelles, Cesar Charlone, Braulio Mantovani e Daniel Rezende. É assim que a indústria pensa. No mapa Ao mesmo tempo, o notável desempenho de Cidade de Deus, vindo como vem na sequência de outros filmes brasileiros que também foram reconhecidos pela Academia, tem um subtexto, o mesmo que, no passado, tiveram outros filmes chineses, espanhóis e mexicanos – coloca a produção brasileira no mapa das atenções sempre difusas da indústria, mostra que existe produção brasileira em tal quantidade que é capaz de gerar talentos como os que criaram Cidade de Deus. E isso é bom, é muito bom, para todo mundo que faz cinema no Brasil: uma nova avenida de possibilidades, de parcerias, de oportunidades. Sabendo vê-las, é claro. Numa escala infinitamente maior, este Oscar, que é um pouco do Brasil (mesmo que nenhuma estatueta venha), é, sobretudo, da Nova Zelândia, cuja capacidade de fornecer talentos de vulto já foi testada e comprovada.
De longe, o favorito para converter em prêmios o maior número de indicações – inclusive melhor filme e, em três categorias disputada com Cidade de Deus, melhor diretor, roteiro adaptado e montagem – O Senhor Dos Anéis: O Retorno do Rei é um filme americano apenas na nacionalidade do dinheiro que pagou a maior parte de suas despesas e da empresa que o distribuiu pelo mundo. Sob qualquer outro ângulo, a trilogia O Senhor dos Anéis é um filme neozelandês, com diretor, equipe técnica, locações e recursos neozelandeses. Marcos Se de fato as tendências das últimas semanas se confirmarem e O Retorno do Rei sair da noite do dia 29 com o maior número de Oscars, vários marcos terão sido atingidos. O filme de Peter Jackson será o primeiro do gênero ''fantasia'' a ser laureado com o Oscar máximo, conseguindo o que nem E.T.– O Extraterrestre, nem O Mágico de Oz conseguiram. O nível de qualidade da produção neozelandesa terá sido reconhecido pelos profissionais que, em geral, estabelecem tais padrões de qualidade. E a paixão obsessiva de um cineasta – Peter Jackson – por uma obra literária – O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien – terá sido, afinal, recompensada. Mas não existe Oscar sem surpresas – e a premiação do ano passado mostrou isso abundantemente. Seguindo esta lógica, mais os claros sinais de que a Academia, rejuvenescida nos últimos cinco anos por uma nova leva de integrantes, está aberta a novas opções, os principais rivais de O Retorno do Rei não são os grandes épicos como Seabiscuit, Cold Mountain e Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo, mas pequenas obras agridoces como Encontros e Desencontros e American Splendor, ou francamente sombrias como Sobre Meninos de Lobos e Monster. Deste lote, podem sair prêmios de melhor roteiro original (Sofia Coppola), adaptado (Harvey Pekar e Robert Pulcini), melhor ator e ator coadjuvante ( Bill Murray, Sean Penn e Tim Robbins) e melhor atriz (Charlize Theron). E para quem gosta de apostas extremas, há sempre Johnny Depp, que levou o prêmio do Sindicato dos Atores por Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra. E Cidade De Deus – pelo menos na categoria montagem. |
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