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Caio Blinder: EUA e Europa vivenciam novas divergências | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Nos seus cinco dias de viagem à Europa, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, enterrou a Doutrina Rice. Nos dias tempestuosos que levaram à guerra do Iraque, a então assessora de segurança nacional e atual secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, disse que Washington deveria punir a França, ignorar a Alemanha e perdoar a Rússia pela resistência à invasão. A visita de Bush foi um espetáculo coreografado marcado pelos encontros bilaterais com dirigentes daqueles três países que integravam o bloco de resistência. As desavenças sobre uma guerra do passado – o Iraque – foram arquivadas. Era preciso aliviar a carga. Afinal já existem tantos outros conflitos pendentes. Sermão Bush teve uma reconciliação pública com Jacques Chirac, o seu mais persistente adversário na Europa. Com Gerhard Schröder foi o tratamento cordial, após uma temporada em que o presidente Bush se sentira pessoalmente traído pela atitude do dirigente alemão no Iraque. E com o "amigo Vladimir" (Putin) está tudo mais complicado. Não dá simplesmente para perdoar. O presidente russo levou um pito gentil sobre o recuo democrático no seu país, mas Bush também está empenhado em não exagerar no sermão político para não prejudicar seus interesses estratégicos em questões como terrorismo, segurança e energia. A "velha" Europa conheceu o "novo" Bush. Autoconfiante na esteira de sua reeleição, o presidente americano está disposto a escutar mais, em vez de apenas agir unilateralmente. É mais uma mudança no estilo do que na substância. Há boas intenções diplomáticas de ambas as partes. Mais do que isto, existe realismo. Negócios Bush finalmente saudou uma Europa forte e unida, e do lado europeu há a constatação de que é preciso derreter um pouco o gelo nas relações com os americanos. Não existe, no entanto, clareza sobre como resolver as divergências e conciliar prioridades. A Europa desconfia deste fervor democrático de Bush – que trouxe os momentos de tensão na sua rápida cúpula com Putin – e está incomodada com a resistência americana aos seus planos para suspender o embargo de armas à China. Os europeus tampouco gostam destes pitos em cima de Moscou, mais preocupados com os negócios do que com os pendores autoritários de Putin. Sobre o Irã, Bush deixou claro que não tem apetite no momento para uma guerra, mas paga para ver se vai dar em alguma coisa a orquestração diplomática européia para convencer Teerã a abrir mão de suas ambições nucleares. O presidente americano não compra a idéia de algumas recompensas para seduzir os iranianos e acha que no final das contas os europeus irão concordar com sanções econômicas, mas indicou uma certa paciência com o processo de negociações. Já no conflito israelo-palestino, há um engajamento diplomático mais ativo de Washington, o que deixa os europeus satisfeitos. Resta saber até onde Bush estará disposto a pressionar Israel a respaldar um Estado palestino viável, com fronteiras contíguas. As relações transatlânticas melhoraram um pouco porque agora está em vigor a Doutrina Schröder. Na quarta-feira, ao lado de Bush, em uma entrevista aos jornalistas, o dirigente alemão resumiu o que fora alcançado com a ofensiva européia dos americanos: "Nós concordamos que não iremos enfatizar constantemente os pontos em que não há concordância". |
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