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Caio Blinder: Charme e ceticismo estão no giro europeu de Bush | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
No encontro bilateral com o fiel aliado Tony Blair, George W. Bush terá croissants em um café da manhã na terça-feira, mas com aquele representante da "velha Europa", Jacques Chirac, será um jantar nesta segunda-feira. O cardápio diplomático desta primeira viagem internacional do presidente americano desde sua segunda posse não indica que ele tenha alterado as prioridades ou os aliados de primeira hora. Serve, isto sim, para reforçar a "ofensiva de charme" desfechada há duas semanas com a viagem de reconhecimento à Europa da nova secretária de Estado, Condoleezza Rice. A escolha da Europa como ponto de partida diplomático demonstra a disposição da Casa Branca para um reengajamento com os mais resolutos oponentes da guerra no Iraque. Agenda Além de Chirac, haverá encontros bilaterais com o alemão Gerhard Schröder e o russo Vladimir Putin. É muito sintomático que o foco da viagem de cinco dias de Bush seja Bruxelas. Nunca um presidente americano havia mergulhado tão a fundo no núcleo das instituições européias. Mostra como o gigante americano acata a integração do continente. Do lado europeu, um certo bom empenho para acolher Bush nesta primeira viagem é um indicador de realismo. Não se trata apenas do calendário (o presidente americano ficará aí por mais quatro anos), mas também do reconhecimento de que ele obteve um mandato com a eleição de novembro. Charme e bom empenho não removem o ceticismo, em especial sobre a conversão de Bush a uma cruzada democrática pelo mundo afora. E aqui o sentimento não é expressado apenas por europeus. "Acordo minimalista" O ex-secretário da Defesa do governo Clinton, William Cohen, acredita que o tom de Bush esteja mudando neste segundo mandato, mas a música é a mesma. Uma resposta mais otimista é que mudanças no estilo podem eventualmente levar a mudanças na substância. Existem de fato algumas oportunidades. Há mais afinação entre Washington e capitais da "velha Europa" no Oriente Médio. Existe um entendimento de que o Iraque não pode ser uma perpétua pedra no meio do caminho e no geral as eleições de janeiro foram saudadas como um progresso. Philip Gordon, um analista cético da Instituição Brookings, em Washington, descreve a viagem de Bush como a busca de um "acordo minimalista": mais engajamento diplomático dos americanos no conflito israelense-palestino e mais apoio (político e não prático) dos europeus no Iraque. Mas ainda existem muitas pedras no meio do caminho e outras surgindo. Uma das mais pontudas é o Irã. O trio composto por França, Alemanha e Grã-Bretanha quer um sólido apoio americano para seus esforços até agora infrutíferos para convencer Teerã a abrir mão do seu programa nuclear. Washington bate na tecla de que somente será possível persuadir o regime xiita a desistir de suas ambições através de sanções econômicas. Para muitos céticos na Europa, na agenda americana, a médio prazo, existe um plano de guerra para derrubar o regime xiita. Sem convergência Não se espera uma convergência de posições nesta viagem, mas diplomatas de Washington sugerem que existe um crescente consenso de que, se as conversações com Teerã definitivamente fracassarem, tanto europeus como americanos estão prontos para levar o caso para o Conselho de Segurança da ONU e pedirem sanções. E poucas coisas irritam mais os americanos do que os planos europeus de suspenderem uma sanção em particular, que é o embargo de armas à China, imposto após o massacre dos estudantes na Praça da Paz Celestial, em Pequim, em 1989. Europeus argumentam que suspender a sanção é vital no processo de normalização com os chineses e tentam convencer os americanos de que não haverá transferência de tecnologia sofisticada e que a suspenção não irá alterar a balança geopolítica na Ásia. Mas em Washington há temores de que o fim do embargo de armas indique que uma aliança entre a União Européia e a China, embora improvável, deixou de ser impensável. O projeto impulsionado por Jacques Chirac é uma pedra cada vez mais visível no caminho das boas relações entre os EUA e a Europa e mostra que não bastará um charmoso jantar em Bruxelas para removê-la. |
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